ADOLESCÊNCIA – 4 EPISÓDIOS - (ADOLESCENCE, UK, 2025) – Esta é uma extraordinária série britânica. Aqui, temos a destruição de várias pessoas, a partir da entrada da polícia na casa de uma família, para prender um garoto de 13 anos, acusado de ter cometido terrível. Este soco no estômago vai se intensificando, principalmente, pelo fenomenal uso do plano sequência, como uma onda nos levando correnteza abaixo, sem termos onde nos agarrar, além de proporcionar uma inserção imediata do espectador no drama imensurável provocado pela prisão de Jamie (o incrível Owen Cooper). Para além disso tudo, há o questionamento do que é masculinade hoje em dia, e os efeitos deletérios de gente mal intencionada inundando a internet com “fórmulas definitivas” para muitos jovens frustrados, desconstruindo comportamentos machistas, sem oferecer nada no lugar, e sem condição de entender o grau de maldade disso tudo. Daí, a agressividade masculina manifestada da pior forma possível em relação às mulheres. Cada episódio tem cenário e moldura temporal diferentes, permitindo camada após camada de contexto na construção da história. E, claro, a atuação de Owen Cooper captura com perfeição a natureza mercurial daqueles anos turbulentos, entre a infância e a adultícia, se movendo entre ondas das emoções associadas aos adolescentes: ele é afável, auto-depreciativo, envolvente, raivoso, engraçado, cruel e, talvez, o tempo todo, perdido. A série não é sobre a falta de esperança nem falta de compaixão. É, entre tantas coisas, sobre o que fazemos quando percebemos ser tarde demais para tudo parecer que não vale a pena. This is an extraordinary British series. Here, we have the destruction of several people, from the first scene, when the police enter a family's home, to arrest a 13-year-old boy, accused of having committed terrible things. This punch in the stomach is intensified, mainly, by the phenomenal use of the single continuous take, like a wave taking us downstream, with nowhere to hold on, in addition to providing an immediate insertion of the viewer in the immeasurable drama caused by the arrest of Jamie (the incredible Owen Cooper). In addition to all this, there is the questioning of what is masculine today, and the deleterious effects of ill-intentioned people flooding the internet with "definitive formulas" for many frustrated young people, deconstructing sexist behaviors, offering nothing instead, and unable to understand the degree of evil of it all. Hence, male aggressiveness manifested in the worst possible way towards women. Each episode has a different setting and time frame, allowing layer after layer of context in the construction of the story. And of course, Owen Cooper's performance perfectly captures the quicksilver nature of those fraught years, between childhood and adulthood, moving through waves of emotions associated with teenagers: he's affable, self-deprecating, engaging, angry, funny, cruel, and, perhaps, all the time, lost. The series is not about hopelessness or lack of compassion. It is, among many things, about what we can do when we realize it's too late for everything to seem like it's not worth it. Netflix.
sábado, 29 de março de 2025
4694 - ADOLESCÊNCIA - 4 EPISÓDIOS (2025)
ADOLESCÊNCIA – 4 EPISÓDIOS - (ADOLESCENCE, UK, 2025) – Esta é uma extraordinária série britânica. Aqui, temos a destruição de várias pessoas, a partir da entrada da polícia na casa de uma família, para prender um garoto de 13 anos, acusado de ter cometido terrível. Este soco no estômago vai se intensificando, principalmente, pelo fenomenal uso do plano sequência, como uma onda nos levando correnteza abaixo, sem termos onde nos agarrar, além de proporcionar uma inserção imediata do espectador no drama imensurável provocado pela prisão de Jamie (o incrível Owen Cooper). Para além disso tudo, há o questionamento do que é masculinade hoje em dia, e os efeitos deletérios de gente mal intencionada inundando a internet com “fórmulas definitivas” para muitos jovens frustrados, desconstruindo comportamentos machistas, sem oferecer nada no lugar, e sem condição de entender o grau de maldade disso tudo. Daí, a agressividade masculina manifestada da pior forma possível em relação às mulheres. Cada episódio tem cenário e moldura temporal diferentes, permitindo camada após camada de contexto na construção da história. E, claro, a atuação de Owen Cooper captura com perfeição a natureza mercurial daqueles anos turbulentos, entre a infância e a adultícia, se movendo entre ondas das emoções associadas aos adolescentes: ele é afável, auto-depreciativo, envolvente, raivoso, engraçado, cruel e, talvez, o tempo todo, perdido. A série não é sobre a falta de esperança nem falta de compaixão. É, entre tantas coisas, sobre o que fazemos quando percebemos ser tarde demais para tudo parecer que não vale a pena. This is an extraordinary British series. Here, we have the destruction of several people, from the first scene, when the police enter a family's home, to arrest a 13-year-old boy, accused of having committed terrible things. This punch in the stomach is intensified, mainly, by the phenomenal use of the single continuous take, like a wave taking us downstream, with nowhere to hold on, in addition to providing an immediate insertion of the viewer in the immeasurable drama caused by the arrest of Jamie (the incredible Owen Cooper). In addition to all this, there is the questioning of what is masculine today, and the deleterious effects of ill-intentioned people flooding the internet with "definitive formulas" for many frustrated young people, deconstructing sexist behaviors, offering nothing instead, and unable to understand the degree of evil of it all. Hence, male aggressiveness manifested in the worst possible way towards women. Each episode has a different setting and time frame, allowing layer after layer of context in the construction of the story. And of course, Owen Cooper's performance perfectly captures the quicksilver nature of those fraught years, between childhood and adulthood, moving through waves of emotions associated with teenagers: he's affable, self-deprecating, engaging, angry, funny, cruel, and, perhaps, all the time, lost. The series is not about hopelessness or lack of compassion. It is, among many things, about what we can do when we realize it's too late for everything to seem like it's not worth it. Netflix.
terça-feira, 25 de março de 2025
4693 - GAROTA DE IPANEMA (1967)
GAROTA DE IPANEMA (Brasil, 1967) – Este filme de Leon Hirszman tenta mostrar um período de efervescência cultural no Rio de Janeiro, em plena ditadura militar, com cameos de alguns dos mais célebres nomes do cenário artístico nacional: Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Nara Leão, Baden Powell e, incrivelmente, João Saldanha. Hirszman imprime uma linha existencialista da classe média carioca, com uma juventude limitada a festinhas ao som de Bossa Nova e relacionamentos afetivos infelizes, com algumas sequências psicológicas pouco elaboradas e nada eficazes. This film by Leon Hirszman tries to show a period of cultural effervescence in Rio de Janeiro, in the midst of the military dictatorship, with cameos from some of the most famous names in the national art scene: Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Nara Leão, Baden Powell and, incredibly, João Saldanha. Hirszman imprints an existentialist line of the middle class of Rio, with a youth limited to parties to the sound of Bossa Nova and unhappy affective relationships, with some psychological sequences that are not very elaborate and not at all effective. Canal Brasil.
4692 - STAR TREK, INTO THE DARKNESS (2013)
STAR TREK: ALÉM DA ESCURIDÃO (STAR TREK: INTO THE DARKNESS, USA, 2013) – A última aparição de Leonard Nimoy como Spock torna esse filme um marco na ficção científica no cinema, pela sua figura maiúscula no imaginário da indústria cultural e pela extensão de sua personalidade inspiradora. Isso posto, o filme de JJ Abrams tem a energia suficiente para movimentar os motores da Enterprise para além das galáxias. Aqui, ainda há a presença luxuosa de Benedict Cumberbatch revisitando, Khan, outro personagem icônico da franquia. Destaque para a sequência na qual Khan e Spock lutam em cima de uma nave, entre os prédios de São Francisco. Leonard Nimoy's last appearance as Spock makes this film a milestone in science fiction cinema, for its capital figure in the imagination of the culture industry and for the extension of its inspiring personality. That said, JJ Abrams' film has enough energy to move the Enterprise's engines beyond the galaxies. Here, there is still the luxurious presence of Benedict Cumberbatch revisiting, Khan, another iconic character from the franchise. Highlight for the sequence in which Khan and Spock fight on top of a ship, between the buildings of San Francisco. Prime.
domingo, 23 de março de 2025
4691 - ROBÔ SELVAGEM (2024)
1. ROBÔ SELVAGEM (WILD ROBOT, USA, 2024) – Qualquer filme com robô no título e/ou no roteiro me interessa
sobremaneira. Isso dito, vamos a história: Roz é um robô para realizar tarefas
e, durante um naufrágio, vai parar numa ilha deserta, ou melhor, habitada
apenas por animais, e acaba tomando conta de um ganso recém-nascido e órfão. O roteiro
de Chris Sanders, também diretor, vai, como era de se esperar, do senso de
comunidade à valorização das relações entre espécies diferentes, como uma metáfora
da convivência nem sempre harmoniosa entre os humanos. Assim, RS não traz exatamente
um ar de novidade a uma história fundamentada na relação maternal entre Roz e o
pequeno ganso, cujo rito de passagem é simbolizado pelo aprendizado do voo com
os da sua espécie, mas sem um grande aprofundamento. Há também a inevitável humanização
de Roz como resultado das interações com os animais da ilha. Any movie with a
robot in the title and/or script interests me greatly. That said, let's get to
the story: Roz is a robot to perform tasks and, during a shipwreck, she ends up
on a deserted island, or rather, inhabited only by animals, and ends up taking
care of a newborn and orphaned goose. The script by Chris Sanders, also a
director, goes, as expected, from the sense of community to the appreciation of
relationships between different species, as a metaphor for the not-always
harmonious coexistence between humans. Thus, WR does not exactly bring an air
of novelty to a story based on the maternal relationship between Roz and the
little goose, whose rite of passage is symbolized by learning to fly with those
of his species, but without a great depth. Roz also experiences the inevitable
humanization due to her interactions with the animals on the island..
4690 - TRUE BLOOD - TEMP 3 - 12 EPISÓDIOS (2010)
TRUE BLOOD – TEMP 3 – 12 EPISÓDIOS (USA, 2010) – Esta terceira temporada traz Russell Edgington (Denis O’Hare) como o vilão da vez, castigando Sookie, claro e o vampiro Bill, com auxílio de capangas na linha da licantropia. Felizmente, temos mais tempo de cena de Deborah Ann Woll, com o personagem mais bem elaborado, desde a segunda temporada: uma vampira recém transformada e ainda sem saber como lidar com os protocolos do vampirismo, assustada com seus instintos assassinos e, ao mesmo tempo, mantendo a doçura e certa ingenuidade. São dela as melhores cenas em vários episódios, especialmente quando contracena com Bill, tentando entender e lidar com seus poderes, e com Hoyt, demonstrando como ela valoriza o amor genuíno dele. TRUE BLOOD é uma série caracterizada pelo excesso, de uma forma funcional e orgânica, dada a natureza de seus personagens principais. Não é uma alegoria de um mundo disfuncional – já na época do seu lançamento e ainda mais hoje em dia – e sim um mergulho num universo paralelo, mas capaz de provocar questionamentos sobre padrões comportamentais, principalmente se levarmos em conta a metáfora do sangue como ativador de performances muito além daquilo considerado “normal”. This third season brings Russell Edgington (Denis O'Hare) as the villain of the time, punishing Sookie, of course and the vampire Bill, with the help of henchmen in the line of lycanthropy. Fortunately, we have more screen time from Deborah Ann Woll, with the most well-crafted character, since the second season: a newly transformed vampire who still doesn't know how to deal with the protocols of vampirism, frightened by her murderous instincts and, at the same time, maintaining sweetness and a certain naivety. Hers are the best scenes in several episodes, especially when she plays opposite Bill, trying to understand and deal with her powers, and Hoyt, demonstrating how she values his genuine love. TRUE BLOOD is a series characterized by excess, in a functional and organic way, given the nature of its main characters. It is not an allegory of a dysfunctional world – it was at the time of its release and even more so today – but a plunge into a parallel universe, capable of provoking questions about behavioral patterns, especially if we consider the metaphor of blood as an activator of performances far beyond what is considered "normal". Netflix.
sábado, 22 de março de 2025
4689 - A SEMENTE DO FRUTO SAGRADO (2024)
A SEMENTE DO FRUTO SAGRADO (DANE-YE ANJIR-E MA’ABED, França/ Alemanha, 2024) – Um juiz de instrução está prestes a ser promovido. Enquanto isso, sua família anseia por este upgrade no seu estilo de vida, que possibilitará, por exemplo, entre outras coisas, a mudança para uma casa maior. É daí o ponto de partida do diretor Mohammad Rasoulof para um filme extraordinário, mostrando como a política e a religião fanatizada, sob a égide de um regime autoritário, podem desfigurar a alma de um país e, num nível mais profundo, as relações profissionais, pessoais e, principalmente, familiares. A restrição da liberdade imposta pelo governo teocrático iraniano, misturada à uma crença religiosa retrógrada fazem, naquele país, as pessoas enxergarem o mundo numa lógica unidimensional, sem questionamento, e isso é explorado de maneira magnífica pelo roteiro. Regimes autoritários, invariavelmente, sufocam as pessoas, mesmo as que se beneficiam deles, e essa abordagem perversa é mostrada no drama vivido pela família do juiz, numa sucessão de acontecimentos parecida como uma faca a retalhar o coração dos personagens e de quem assiste. A troca de marcha narrativa do entrecho final pode ser entendida como a forma com a qual Rasoulof demonstra a força da arte (e das decisões estéticas do diretor) para dar um fechamento a um drama aparentemente insolúvel da sociedade iraniana. Uma obra-prima. An investigating judge is about to be promoted. In the meantime, his family is looking forward to this upgrade in their lifestyle, which will make it possible, for example, among other things, to move to a larger house. Hence director Mohammad Rasoulof's starting point for an extraordinary film, showing how politics and fanatical religion, under the aegis of an authoritarian regime, can disfigure the soul of a country and, at a deeper level, professional, personal and, above all, family relationships. The restriction of freedom imposed by the Iranian theocratic government, mixed with a retrograde religious belief, make people in that country see the world in a one-dimensional logic, without questioning, and this is explored magnificently by the script. Authoritarian regimes invariably suffocate people, even those who benefit from them, and this perverse approach is shown in the drama experienced by the judge's family, in a succession of events similar to a knife tearing the hearts of the characters and of those who watch. The narrative shift of the final plot can be understood as the way in which Rasoulof demonstrates the strength of art (and the director's aesthetic decisions) to give closure to an apparently unsolvable drama of Iranian society. A masterpiece.
sexta-feira, 21 de março de 2025
4688 - VERISSIMO (2024)
VERISSIMO (Brasil, 2024) – Documentário celebrando a vida e obra de LFV e seus oitenta anos através de cenas do seu cotidiano, principalmente em sua casa em Porto Alegre. O ritmo do filme se coaduna perfeitamente com o seu personagem principal: tudo é muito lento, com longos silêncios e uma sensação de observação constante, como se a câmera não se interpusesse entre a rotina da familia e a necessidade imperiosa de registrar um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, capaz de reunir em seus textos a mais fina erudição com um estilo bem humorado, quase coloquial, de se relacionar com o leitor. Coisa de gênio. Documentary celebrating the life and work of LFV at eighty through scenes from his daily life, mainly at his home in Porto Alegre. The pace of the film fits perfectly with its main character: everything is very slow, with long silences and a feeling of constant observation, as if the camera did not come between the family's routine and the imperative need to record one of the greatest Brazilian writers of all time, capable of bringing together in his texts the finest erudition with a humorous style, almost colloquial, of relating to the reader. Something only a genius is able of. Canal Brasil.
quinta-feira, 20 de março de 2025
4687 - RAMBO (1982)
RAMBO (FIRST BLOOD, USA, 1982) – Este filme de Sylvester Stallone pode ser visto por uma ótica menos belicista, se levarmos em conta a situação de muitos veteranos de guerra abandonados pelo governo americano, como denuncia o filme de Ted Kotcheff. As sequências disvirtuaram esta premissa inicial, levando John Rambo para uma conduta irreal de revanche e violência, em vários roteiros pouco inspirados. Nesta primeira edição, Rambo está desiludido, depois de se sentir usado pelo governo americano na guerra do Vietnan, e precisa enfrentar o comportamento mais violento de representantes da lei no seu próprio país, liderado por Teasle (Brian Dennehy), um xerife de uma cidadezinha do interior. Teasle tentar expulsar Rambo da cidade, e isso serve de gatilho para a liberação de traumas de ambas as partes. This film by Sylvester Stallone can be seen from a less warmongering perspective, if we consider the situation of many war veterans abandoned by the American government, as denounced by Ted Kotcheff's film. The sequels distorted this initial premise, leading John Rambo to an unrealistic conduct of revenge and violence, in several uninspired scripts. In this first installment, Rambo is disillusioned, after being used by the American government in the Vietnam war, and must face the most violent behavior of law enforcement officials in his own country, led by Teasle (Brian Dennehy), a sheriff of a small town in the countryside. Teasle tries to expel Rambo from the city, and this serves as a trigger for the release of trauma on both sides. Prime.
4686 - DESEJO DE MATAR II (1982)
DESEJO DE MATAR II (DEATH WISH II, USA, 1982) – Agora em Los Angeles, Paul Kersey (Charles Bronson) encontra mais motivos para limpar a cidade dos maus elementos. O roteiro racista continua a colocar negros como a maioria da população marginalizada, com traços lombrosianos, sempre com um comportamento meio debiloide. Nesta segunda edição, Bronson coloca a esposa, Jill Ireland, como a namorada de Kersey, com a exigência de ela não ter qualquer cena de violência. O mesmo não pode ser dito da sua filha, ainda traumatizada pelos eventos do primeiro filme, e da empregada de sua casa, uma latina, por sinal. Entre os marginais da vez, podemos ver Laurence Fishburne, numa atuação sem qualquer brilho. Mais uma vez, é Bronson a razão do filme, numa atuação consistente com sua carreira: distante, aparentemente alheio a tudo ao redor, sem muitas manifestações faciais. Apesar disso, o filme funciona, apesar da violência explícita, porque seu astro se mostra tão indiferente à narrativa, que provoca nos espectadores um choque, talvez esperando dele uma reação mais humana diante de sua tragédia pessoal. Now in Los Angeles, Paul Kersey (Charles Bronson) finds more reasons to cleanse the city of the bad elements. The racist script continues to place blacks as the majority of the marginalized population, with Lombrosian traits, always with a somewhat weak behavior. In this second issue, Bronson casts his wife, Jill Ireland, as Kersey's girlfriend, with the requirement that she does not have any scenes of violence. The same cannot be said of his daughter, still traumatized by the events of the first film, and the maid of his house, a Latina, by the way. Among the marginals of the time, we can see Laurence Fishburne, in a lackluster performance. Once again, Bronson is the reason for the film, in a performance consistent with his career: distant, apparently oblivious to everything around, without many facial manifestations. Despite this, the film works, despite the explicit violence, because its star is so indifferent to the narrative that it causes a shock in the viewers, perhaps expecting from him a more human reaction to his personal tragedy. DVD.
4685 - GLADIADOR II (2024)
GLADIADOR 2 (GLADIATOR II, USA, 2024) – É impossível não comparar G2 com o filme de 1999, também de Ridley Scott, e talvez isso seja mesmo a intenção do diretor, mas acaba sendo um obstáculo para a fruição normal desta quase não sequência. O problema é a presença maiúscula de Russell Crowe, como Maximus, naquele filme. Inspirado, Crowe é um dos maiores atores do cinema, desde que não esteja nesta fase preguiçosa presente há tanto tempo na sua carreira. Aqui, Paul Mescal, outro ator excepcional, parece estar mal escalado, apesar da adição de músculos e de uma postura de vingança muito distantes de sua forma suave e intimista de atuar (veja o maravilhoso AFTERSUN e comprove isso), apostando mais na sua fisicalidade e menos na suposta liderança do seu personagem. O roteiro opta por uma reciclagem do filme original, caindo numa solução dramática previsível, envolvendo relações familiares mal resolvidas, retaliação pela morte da esposa (bem ao estilo DESEJO DE MATAR, com Bronson) e um CGI usado de forma não orgânica e forçada em algumas cenas. Denzel Washington faz de seu Macrinus um elemento disruptivo num cenário pouco original, mas a história o leva para um castigo maniqueísta e sem graça. O general Acacius (Pedro Pascal, sempre muito bom) é o personagem mais parecido com Maximus e, junto com Lucilla (Connie Nielsen), fazem de G2 um espetáculo assistível, apesar da sequência ao estilo Sharkado. It's impossible not to compare G2 with the 1999 film, also by Ridley Scott, and maybe that's really the director's intention, but it ends up being an obstacle to the normal enjoyment of this almost non-sequel. The problem is the capital presence of Russell Crowe, as Maximus, in that film. Inspired, Crowe is one of the greatest actors in cinema, as long as he is not in this lazy phase present for so long in his career. Here, Paul Mescal, another exceptional actor, seems to be poorly cast, despite the addition of muscles and a posture of revenge very far from his smooth and intimate way of acting (see the wonderful AFTERSUN and see for yourself), betting more on his physicality and less on the supposed leadership of his character. The script opts for a recycling of the original film, falling into a predictable dramatic solution, involving unresolved family relationships, retaliation for the death of his wife (very much in the style of DEATH WISH, with Bronson) and a CGI used in a non-organic and forced way in some scenes. Denzel Washington makes his Macrinus a disruptive element in an unoriginal setting, but the story takes him to a Manichean and dull punishment. General Acacius (Pedro Pascal, always very good) is the character most similar to Maximus and, together with Lucilla (Connie Nielsen), make G2 a watchable spectacle, despite the Sharkado-style sequence. Prime.
terça-feira, 18 de março de 2025
4684 - NÃO FALE O MAL (2025)
NÃO FALE O MAL (SPEAK NO EVIL, USA, 2024) – Uma família americana conhece um casal inglês numa daquelas fascinantes cidadezinhas medievais italianas durante as férias de verão. Conversa vai, conversa vem, um início de amizade se forma, e Paddy e Ciara (James McAvoy e Aisling Franciosi) convidam Ben, Louise e a filha, Agnes (Scoot McNairy, Mackenzie Davis, Alix West Lefler) para passar um fim de semana na sua casa de campo, uma casa meio detonada, é verdade, onde eles poderiam descansar e ter uma nova experiência capaz de amenizar a crise de seu casamento. Esta versão americana do original norueguês é bem inferior, mas consegue, em alguns momentos, causar um certo desconforto programado, principalmente nas cenas de constrangimento causadas pelo casal inglês. O filme mostra uma característica perversa da pós-modernidade, ao enfocar como a incivilidade pode estar travestida de boas maneiras e com consequências deletérias permanentes. An American family meets an English couple in one of those fascinating medieval Italian towns during their summer vacations. Conversation goes, conversation comes, a friendship begins, and Paddy and Ciara (James McAvoy and Aisling Franciosi) invite Ben, Louise and their daughter, Agnes (Scoot McNairy, Mackenzie Davis, Alix West Lefler) to spend a weekend at their country house, a half-destroyed house, it's true, where they could rest and have a new experience capable of easing the crisis of their marriage. This American version of the Norwegian original is much inferior, but manages, at times, to cause a certain programmed discomfort, especially in the scenes of embarrassment caused by the English couple. The film shows a perverse characteristic of postmodernity, by focusing on how incivility can be disguised in good manners and with permanent deleterious consequences. Prime.
segunda-feira, 17 de março de 2025
4683 - DESEJO DE MATAR (1974)
domingo, 16 de março de 2025
4682 - LEE (2024)
LEE (USA, UK, 2004) – Cinebio de Lee Miller, fotógrafa e ex-modelo, além de aclamada correspondente de guerra para a Vogue durante a WW2, vivida de forma sanguínea por Kate Winslet, numa atuação memorável. Lee foi uma daquelas mulheres à frente de seu tempo, principalmente nos costumes, enfrentando a moral rígida da época e o natural preconceito contra mulheres independentes. Além disso, foi uma fotógrafa talentosa, com um olhar arguto para o momento histórico da guerra, principalmente no registro dos horrores do holocausto e das tragédias decorrentes do conflito na Europa. Tecnicamente, o filme é bem realizado, capturando a atmosfera da época e revelando para muitos a interessante história pessoal e profissional de Lee. É curioso ver no elenco Andy Samberg (de Brooklin 99) num papel dramático, e ele se sai muito bem, como Davy Scherman, fotógrafo e grande amigo de Lee durante a vida toda. Josh O’Connor (o príncipe Charles jovem de THE CROWN), Noémie Merlant, Andrea Riseborough, Marion Cotillard e Alexander Skarsgard são outros destaques. Cinebio of Lee Miller, photographer and former model, as well as acclaimed war correspondent for Vogue during WW2, played in a sanguine way by Kate Winslet, in a memorable performance. Lee was one of those women ahead of her time, especially in customs, facing the rigid morals of the time and the natural prejudice against independent women. In addition, she was a talented photographer, with a keen eye for the historical moment of the war, especially in the record of the horrors of the holocaust and the tragedies resulting from the conflict in Europe. Technically, the film is well made, capturing the atmosphere of the time and revealing to many Lee's interesting personal and professional history. It's curious to see Andy Samberg (from Brooklyn 99) in a dramatic role, and he does very well, as Davy Scherman, photographer and great friend of Lee's throughout his life. Josh O'Connor (the young Prince Charles from THE CROWN), Noémie Merlant, Andrea Riseborough, Marion Cotillard and Alexander Skarsgard are other highlights. Prime.
4681 - RETRIBUTION (2006)
RETRIBUTION (SAKEBI, Japão, 2006) – Um detetive (Kôji Yakusho, do maravilhoso DIAS PERFEITOS) investiga o assassinato de uma mulher vestida de vermelho e encontra no local do crime vestígios misteriosamente ligados à sua vida. A partir dessa premissa, o roteiro do filme de Kiyoshi Kurosawa (sem qualquer ligação com Akira) envereda pela seara do horror, com o aparecimento do fantasma da mulher assassinada, com vestido vermelho contrastando com a fotografia esmaecida, como um corte constantemente sangrando. Esta opção estética é até satisfatória, mas acaba perdendo força no desenvolvimento da história hermética, impossibilitando ao espectador a obtenção de pistas reveladoras para o entendimento total do filme. A detective (Kôji Yakusho, from the wonderful PERFECT DAYS) investigates the murder of a woman dressed in red and finds traces mysteriously linked to her life at the scene of the crime. From this premise, the script of Kiyoshi Kurosawa's film (without any connection to Akira) embarks on the path of horror, with the appearance of the ghost of the murdered woman, with a red dress contrasting with the faded photograph, like a constantly bleeding cut. This aesthetic option is even satisfactory, but it ends up losing strength in the development of the hermetic story, making it impossible for the viewer to obtain revealing clues for the total understanding of the film. Mubi.
quinta-feira, 13 de março de 2025
4680 - DIA ZERO - 6 EPISÓDIOS (2025)
DIA ZERO – 6 EPISÓDIOS (ZERO DAY, USA, 2025) – Robert De Niro é obrigatório. Os EUA sofrem um ataque cibernético e a confusão se instala em todo país. A presidenta, Mitchell (Angela Basset, numa clara referência a Kamala Harris) precisa de ajuda e chama o ex ocupante da Casa Branca, George Mullen (De Niro) para enfrentar a situação. O roteiro não é original, mas o elenco, ancorado pela atuação segura de De Niro, sustenta a história até o fim, com alguns twists interessantes e uma cutucada indisfarçável na classe política americana. Joan Allen, Matthew Modine e Lizzie Caplan são destaques, assim como o sempre brilhante Bill Camp (apesar do pouco tempo de cena). Jesse Plemons, com a magreza dos cretinos, tem um papel pouco desenvolvido, apesar de crucial para a ação. Robert De Niro is mandatory. The US suffers a cyberattack and confusion settles throughout the country. The president, Mitchell (Angela Basset, in a clear reference to Kamala Harris) needs help and calls the former occupant of the White House, George Mullen (De Niro) to face the situation. The script is not original, but the cast, anchored by De Niro's confident performance, sustains the story until the end, with some interesting twists and an undisguised poke at the American political class. Joan Allen, Matthew Modine and Lizzie Caplan are highlights, as well as the always brilliant Bill Camp (despite the short screen time). Jesse Plemons, with the thinness of cretins, has an underdeveloped role, although crucial to the action. Netflix.
4679 - O HOMEM COM BRAÇO DE OURO (1955)
O HOMEM DO BRAÇO DE OURO (THE MAN WITH THE GOLDEN ARM, USA, 1955) – Neste filme de Otto Preminger, Frank Sinatra é Frankie, um viciado em heroína e um habilidoso crupiê. Depois de um período na cadeia, ele tenta recomeçar a vida longe do vício e do jogo, mas tem que lidar com sua esposa estranha (Eleonor Parker) – ela finge estar presa a uma cadeira de rodas – e com a antiga amante (Kim Novak). Sinatra, além de ser um dos maiores cantores de todos os tempos, também é um ator notável, capaz de atuações bem convincentes, como a deste filme (ele havia ganhado um Oscar anteriormente por Assim Caminha a Humanidade). Com 99% gravado em estúdio, TMWGA tem uma atmosfera intimista, como uma peça de teatro, possibilitando a aproximação quase física do espectador com os atores, especialmente por causa da excelente fotografia em preto e branco. In this Otto Preminger film, Frank Sinatra is Frankie, a heroin addict and a skilled croupier. After a stint in jail, he tries to start his life over away from addiction and gambling, but has to deal with his strange wife (Eleonor Parker) – she pretends to be confined to a wheelchair – and his former lover (Kim Novak). Sinatra, in addition to being one of the greatest singers of all time, is also a remarkable actor, capable of very convincing performances, such as the one in this film (he had previously won an Oscar for From Here to Eternity). With 99% recorded in the studio, TMWGA has an intimate atmosphere, like a play, allowing the viewer to get almost physically closer to the actors, especially because of the excellent black and white photography. TC Cult.
quarta-feira, 12 de março de 2025
4678 - O PIOR VIZINHO DO MUNDO (2022)
O PIOR VIZINHO DO MUNDO (A MAN CALLED OTTO, USA, 2022) – Otto Anderson (Tom Hanks) precisa lidar com uma perda afetiva: há menos de seis meses, sua esposa morreu, deixando-o imerso em lembranças de suas vidas em comum e, por causa disso, transformando-o em um homem mais fechado emocionalmente em relação ao seu entorno. Otto é o zelador de um condomínio, e esse ofício parece ser o motivo maior para sua sobrevivência. Por isso, ele faz questão de observar as regras e fazê-las cumprir pelos moradores e ocasionais visitantes. Nada foge ao seu olho clínico, seja a cancela deixada aberta por algum vizinho mais distraido, seja o fato de o cachorro de estimação de um deles ter sujado a grama na frente de sua casa. Otto mantém sempre o semblante sério, como se tivesse esquecido como sorrir em algum desvão da memória, como se a ausência presente de Sonya (sua falecida esposa) validasse este permamente estado de melancolia e ranzinzice em relação ao mundo. À parte essa função organizadora de zeladoria, fio tênue mantenedor de sua frágil vontade de continuar vivendo, ele não vê outros motivos para se levantar da cama todos os dias. Sem alarido, num quase ritual inexorável, ele se prepara se suicidar: se enforcar na sala vazia de Sonya, de luz e de qualquer alegria, parece-lhe a melhor atitude, a mais compatível com sua vida solitária agora. No entanto, a mão invisível do imponderável frustra este seu plano, como o fará nos outros, quando ele permanecerá nos trilhos de uma estrada de ferro a pouco metros do trem em plena velocidade, depois de salvar uma pessoa que havia ali caído, ou quando um ex-aluno de Sonya baterá à porta e interrompe o dedo tensionado no gatilho de um rifle cujo cano repousava pertubadoramente debaixo de seu queixo. A ausente presença inefável de Sonya parece-lhe ocupar o coração – aliás, um coração grande, não no sentido apenas metafórico, mas também no clínico. Otto tem uma cardiomegalia, condição que o impedira de se alistar no exército, mas também, como quis o destino (para quem acredita nele), o motivo pelo qual ele conhece Sonya. É exatamente no dia de sua dispensa, triste e desiludido, que ele a vê, do outro lado de uma estação de trem: ela deixa cair um livro ao embarcar, e ele imediatamente cruza a plataforma, pega o livro do chão e entra no trem para encontrá-la. O livro é O Mestre e a Margarida, de Mikhail Bulgakov, em cuja capa há uma ilustração de um gato, e este animal está ligado narrativamente ao presente de Otto, quando ele acaba adotando um, sem se dar conta, talvez, da conexão afetiva com este episódio do livro, quando ele viu, pela primeira vez, o amor de sua vida. Outros elementos inesperados se juntam a este. O mais importante, no sentido de provocar uma transformação em Otto, é a chegada de uma família ao condomínio. Uma família matriarcal, na qual a figura do marido quase desaparece diante da esposa e das duas filhas. A esposa, Marisol, é uma força da natureza, no sentido de ser carinhosa, esfuziante e inabalavelmente otimista. E há um fator cultural importante nesta equação, pois ela é mexicana, latina, portanto, etnia considerada pelos americanos mais aberta aos sentimentos no cotejo com o asceticismo estadunidense, e isso é recebido com certo estranhamento por Otto, como era de se esperar. Seu nome – Marisol – é a junção, proposital ou não, de mar e sol, dois símbolos de esperança e alegria, fatores inexistentes no mundo de Otto. Marisol é tudo aquilo que Otto não é, ou não quer ser: carinhoso, comunicativo, otimista. O encontro dos dois é um raio de vida no seu mundo, atingindo-o gradativamente e provocando uma mudança definitiva. A princípio, Otto rejeita sistematicamente a forma amistosamente calorosa com a qual ela o trata, talvez porque ele tenha optado a receber o carinho apenas dentro da relação com sua esposa. Ou talvez seja o carinho uma forma disruptiva capaz de desarmar sua armadura emocional, e ele, intuitivamente, a tenha rejeitado como uma forma de se manter na sua zona de (des) conforto (o sofrimento mantido voluntariamente por ele pode ser uma forma de estímulo negativo, também necessário à sobrevivência). Com o tempo, ele se aproxima da família de Marisol, criando uma ligação com as meninas, mas sempre com uma atitude crítica em relação ao marido ( reforçando a invisibilidade masculina presente no roteiro). Aliás, este roteiro é cruel com os homens. Todos os personagens masculinos, de certa forma, são subjulgados pelas suas mulheres, de uma forma ou de outra. Repare: Marisol é a força motriz do seu casamento, pois o marido é retratado como um desajeitado, incapaz de realizar as tarefas domésticas mais simples; Anita, outra vizinha, cuida do marido, Reuben, que está numa cadeira de rodas por causa de uma doença degenerativa; o agente imobiliário, que quer comprar por um preço bem baixo as casas do condomínio, é desmascarado por uma repórter quando vai tomar a casa de Anita; e, por fim, o próprio Otto é sempre uma figura submissa a Sonya, mesmo se comportando com doçura e extremo cuidado (aí, entra o simbolismo da moeda dada a ele por Sonya – e que ele guardou a vida toda - quando Otto não tinha dinheiro suficiente para pagar pela passagem de trem, indicando que ele sempre se sentiu em débito com ela). Este aspecto do roteiro pode ter um significado sutil, mas muito definidor das relações estabelecidas pelos personagens nas diversas fases da história, ressaltando a força das figuras femininas na vida dos homens e, assim, definindo suas condutas, pois todos tiveram sua existência transformada pela presença delas. Na realidade, transformação e a palavra-chave neste universo. Num escopo filosófico, podemos abordar a vida de Otto, e sua posterior transformação, sob a ótica hegeliana – além da consciência da existência do outro como elemento valorativo, a redefinição ontológica de Otto se dá quando o universo exterior se torna um vetor de influência na formação do reconhecimento do outro. É esse processo de transformação pode ser notado na redefinição dos afetos de Otto (no sentido dado por Spinoza): depois de toda uma vida dedicado a Sonya, ele se ensimesma de forma a blindar qualquer troca afetiva e, então, com a interação com Marisol, as filhas, o gato, Anita etc, ele percebe que não é mais a mesma pessoa, que algo a ele se acrescentou. Neste processo, Otto redescobre a empatia perdida com a morte da esposa e reestabelece laços com o mundo exterior, aperfeiçoando suas habilidades sociais - especialmente quando acolhe o aluno trans de Sonya depois de ele ser expulso de casa pelo pai. Isso aponta para um papel inesperado de Otto: a figura paterna, habilidade (afetiva) já descartada quando da morte do filho ainda no ventre da esposa no acidente de ônibus. Isso também acontece em relação a Marisol – ela mesma diz, em uma cena no carro, que ele (não) ri como seu pai, também com as filhas de Marisol, quando ele aceita cuidar delas durante a noite e, não menos importante, na adoção do gato de rua que não saía de sua porta. Destarte, Otto vai readquirindo habilidades sociais à medida em que uma série de situações inesperadas vão aparecendo em sua vida, resignificando-a de modo incontornável. De certa forma, podemos voltar a Hegel na análise da transformação do personagem-título do filme, pois a teoria hegeliana trata o tempo em suas três dimensões, afirmando o presente como o única instância existente, enquanto o passado só pode ser entendido como recordação subjetiva e o futuro como esperança e temor. Algo como uma definição de um ciclo que se repete ad infinitum na linha do tempo de todas as pessoas: passado (nascimento), presente e futuro (morte), um processo cuja ordem Otto procura inverter, ao viver a morte (dele e de Sonya) em vida. Não nos esqueçamos de uma coincidência linguística: Otto é um palíndromo perfeito – pode ser lido tanto da esquerda para a direita ou vice-versa, sugerindo a natureza cíclica das experiências transformadoras ocorridas a partir do momento que as aceita como inevitáveis e surpreendentemente essenciais. Depois de se abrir a essas interrelações pessoais, Otto parece estar próximo a um fechamento emocional em relação a Sonya, cuja presença etérea não se fazia mais necessária na sua busca de uma razão para não viver, deixando-o sem mais planos de suicídio – uma morte provocada artificialmente – e, de certa forma, preparando-o no sentido de uma morte natural, agora repleta de significado em função da sua importância recém adquirida nas vidas das pessoas à sua volta. Otto Anderson (Tom Hanks) has to deal with an emotional loss: less than six months ago, his wife died, leaving him immersed in memories of their shared lives and, because of this, turning him into a more emotionally closed man in relation to his surroundings. Otto is the caretaker of a condominium, and this job seems to be the main reason for his survival. Therefore, he makes a point of observing the rules and enforcing them by residents and occasional visitors. Nothing escapes his clinical eye, whether it's the gate left open by some more distracted neighbor, or the fact that the pet dog of one of them has soiled the grass in front of his house. Otto always keeps a serious face, as if he had forgotten how to smile in some gap of memory, as if the present absence of Sonya (his deceased wife) validated this permanent state of melancholy and grumpiness in relation to the world. Apart from this organizing function of janitorial, a tenuous thread that maintains his fragile will to continue living, he sees no other reasons to get out of bed every day. Without fuss, in an almost inexorable ritual, he prepares to commit suicide: hanging himself in Sonya's empty room, of light and of any joy, seems to him the best attitude, the most compatible with his solitary life now. However, the invisible hand of the imponderable thwarts his plan, as it will in others, when he remains on the railroad tracks a few meters from the train at full speed, after saving a person who had fallen there, or when a former student of Sonya's knocks on the door and interrupts his finger on the trigger of a rifle whose barrel rested disturbingly under his chin. Sonya's ineffable absence seems to occupy her heart – in fact, a big heart, not only in the metaphorical sense, but also in the clinical sense. Otto has cardiomegaly, a condition that prevented him from enlisting in the army, but also, as fate would have it (for those who believe in him), the reason why he meets Sonya. It is exactly on the day of his dismissal, sad and disillusioned, that he sees her, on the other side of a train station: she drops a book as she boards, and he immediately crosses the platform, picks up the book from the floor and gets on the train to find her. The book is The Master and the Daisy, by Mikhail Bulgakov, on whose cover there is an illustration of a cat, and this animal is narratively linked to Otto's gift, when he ends up adopting one, without realizing, perhaps, the affective connection with this episode of the book, when he saw, for the first time, the love of his life. Other unexpected elements join this. The most important thing, in order to bring about a transformation in Otto, is the arrival of a family at the condominium. A matriarchal family, in which the figure of the husband almost disappears in front of his wife and two daughters. His wife, Marisol, is a force of nature, in the sense of being caring, bubbly, and unwaveringly optimistic. And there is an important cultural factor in this equation, because she is Mexican, Latina, therefore, an ethnicity considered by Americans to be more open to feelings in comparison with American asceticism, and this is received with a certain strangeness by Otto, as expected. Her name – Marisol – is the junction, purposeful or not, of sea and sun, two symbols of hope and joy, factors that do not exist in Otto's world. Marisol is everything that Otto is not, or does not want to be: affectionate, communicative, optimistic. The meeting of the two is a ray of life in his life, gradually reaching him and causing a definitive change. At first, Otto systematically rejects the friendly way in which she treats him, perhaps because he has chosen to receive affection only within the relationship with his wife. Or maybe affection is a disruptive way to disarm his emotional armor, and he has intuitively rejected it as a way to stay in his (un)comfort zone (the suffering voluntarily maintained by him can be a form of negative stimulus, also necessary for survival). Over time, he gets closer to Marisol's family, creating a bond with the girls, but always with a critical attitude towards her husband (reinforcing the male invisibility present in the script). In fact, this script is cruel to men. All male characters, in a way, are subjugated by their women, in one way or another. Notice: Marisol is the driving force of her marriage, as her husband is portrayed as a clumsy, unable to perform the simplest household chores; Anita, another neighbor, takes care of her husband, Reuben, who is in a wheelchair because of a degenerative disease the real estate agent, who wants to buy the houses in the condominium at a very low price, is unmasked by a reporter when he goes to take Anita's house; and, finally, Otto himself is always a submissive figure to Sonya, even behaving with sweetness and extreme care (there, the symbolism of the coin given to him by Sonya – and which he kept all his life – when Otto did not have enough money to pay for the train ticket, indicating that he always felt indebted to her). This aspect of the script can have a subtle meaning, but very defining of the relationships established by the characters in the various phases of the story, highlighting the strength of female figures in the lives of men and, thus, defining their behaviors, as everyone had their existence transformed by their presence. In reality, transformation is the key word in this universe. In a philosophical scope, we can approach Otto's life, and its subsequent transformation, from the Hegelian perspective – in addition to the awareness of the existence of the other as an evaluative element, Otto's ontological redefinition occurs when the external universe becomes a vector of influence in the formation of the recognition of the other. It is this process of transformation that can be seen in the redefinition of Otto's affections (in the sense given by Spinoza): after a lifetime dedicated to Sonya, he self-absorbs himself in order to shield any affective exchange and, later, with the interaction with Marisol, his daughters, the cat, Anita, etc., he realizes that he is no longer the same person, that something has been added to it. In the process, Otto rediscovers the empathy lost with his wife's death and reestablishes ties with the outside world, improving his social skills - especially when he takes in Sonya's trans student after he is kicked out of the house by his father. This points to an unexpected role for Otto: the father figure, an (affective) skill already discarded when the son died while still in his wife's womb in the bus accident. This, in the same way, happens in relation to Marisol – she herself says, in a scene in the car, that he (doesn't) laugh like her father, also with Marisol's daughters, when he accepts to take care of them during the night and, not least, in the adoption of the stray cat that did not leave her door. Thus, Otto reacquires social skills as a series of unexpected situations appear in his life, giving it an unavoidable meaning. In a way, we can return to Hegel in the analysis of the transformation of the film's title character, since Hegelian theory treats time in its three dimensions, affirming the present as the only existing instance, while the past can only be understood as subjective memory and the future as hope and fear. Something like a definition of a cycle that repeats itself ad infinitum in the timeline of all people: past (birth), present and future (death), a process whose order Otto seeks to invert, by living death (his and Sonya's) in life. Let's not forget a linguistic coincidence: Otto is a perfect palindrome – it can be read either from left to right or vice versa, suggesting the cyclical nature of transformative experiences that occur from the moment you accept them as inevitable and surprisingly essential. After opening up to these personal interrelationships, Otto seems to be close to an emotional closure in relation to Sonya, whose ethereal presence was no longer necessary in his search for a reason not to live, leaving him with no more plans for suicide – an artificially provoked death – and, in a way, preparing him towards a natural death. now full of meaning, due to its newly acquired importance in the lives of the people around it. Prime.
quinta-feira, 6 de março de 2025
4677 - NOSFERATU, UMA SINFONIA DE HORROR (1922)
NOSFERATU: UMA SINFONIA DE HORROR (NOSFERATU, EINE SIMPHONIE DES GRAUENS, Alemanha, 1922) – Um dos filmes mais importantes do Expressionismo alemão, a obra de F.W. Murnau é uma obra-prima, cujo elementos dramáticos ainda povoam o imaginário popular. Seja pela caracterização magnífica de Max Schreck, como conde Orlok (a.k.a. Drácula), seja pelos enquadramentos expressionistas clássicos e o uso perfeito de luz e sombras, o filme é um marco no cinema de horror, com uma estética própria, a ponto de influenciar várias produções do gênero. O cotejo com o NOSFERATU de 2024 é inevitável. Robert Eggers seguiu literalmente a história contada por Murnau, mas comete uma imprecisão na elaboração de Orlok, personagem pivotal da história: sua caracterização não tem a força de Schreck (cuja presença em cena não excede os 9 minutos) e é uma nota dissonante na atual sinfonia macabra de Eggers. O filme de Murnau possui uma narrativa ágil e tensa, alinhada à atmosfera gótica e ameaçadora do roteiro, e continua sendo um dos filmes mais importantes de todos os tempos. One of the most important films of German Expressionism, the work of F.W. Murnau is a masterpiece, whose dramatic elements still populate the popular imagination. Whether for the magnificent characterization of Max Schreck, as Count Orlok (a.k.a. Dracula), or for the classic expressionist framing and the perfect use of light and shadows, the film is a milestone in horror cinema, with its own aesthetic, to the point of influencing several productions of the genre. The comparison with the 2024 NOSFERATU is inevitable. Robert Eggers literally followed the story told by Murnau, but commits an inaccuracy in the elaboration of Orlok, the pivotal character of the story: his characterization does not have the strength of Schreck (whose presence on stage does not exceed 9 minutes) and is a dissonant note in Eggers' current macabre symphony. Murnau's film has an agile and tense narrative, in line with the gothic and menacing atmosphere of the script, and remains one of the most important films of all time. DVD.
quarta-feira, 5 de março de 2025
4676 - NOSFERATU (2024)
NOSFERATU (USA, UK, 2024) – O filme de Robert Eggers é uma homenagem a NOSFERATU, de Murnau, lançado em 1922, principalmente nos enquadramentos usados por Eggers. E é uma homenagem muito bem feita, com cinematografia caprichada e uma direção de arte excepcional, com detalhes precisos em um nível insano. Contudo, uma escolha de elenco comprometeu a história: Lily-Rose Depp exagera no sofrimento físico de sua personagem, e isso faz o espectador perder o foco da narrativa nas suas cenas, apesar de muitos acharem o contrário. Nicholas Hoult, depois de ter feito REINFELD, se vê novamente às voltas com um vampiro, agora com consequências mais deletérias. A construção de mundo, retratando a Europa no século XIX, é primorosa e oferece a atmosfera necessária para o desenvolvimento da história. No entanto, a concepção do conde Orlok, vivido (ou morrido) por Aaron Taylor-Johnson, parece um pouco distante da proposta do filme, embora se aproxime da descrição do livro que deu origem a isso tudo, o DRÁCULA, de Bram Stoker. Quem rouba as cenas é Willem Dafoe, como um genérico do Dr. Van Helsing – ele dá, se me permitem, um pouco de vida a uma narrativa reticente e sem grandes surpresas. A metáfora da peste, simbolizada pelos ratos e personificada por Orlok, é explorada até certo ponto, e é deixada de lado quando o foco recai sobre os sonhos românticos do conde, reforçando uma ideia trágica e estranhamente humana: nada pode ser mais destrutivo do que nossos sonhos realizados. Robert Eggers' film is a tribute to Murnau's NOSFERATU, released in 1922, mainly in the framing used by Eggers. And it's a very well done tribute, with neat cinematography and exceptional art direction, with precise details at an insane level. However, a casting choice compromised the story: Lily-Rose Depp exaggerates the physical suffering of her character, and this makes the viewer lose the focus of the narrative in her scenes, despite many thinking otherwise. Nicholas Hoult, after having made REINFELD, finds himself again grappling with a vampire, now with more deleterious consequences. The world-building, depicting Europe in the nineteenth century, is exquisite and offers the necessary atmosphere for the development of the story. However, the conception of Count Orlok, played (or died) by Aaron Taylor-Johnson, seems a little distant from the film's proposal, although it comes close to the description of the book that gave rise to all this, Dracula, by Bram Stoker. Who steals the scenes is Willem Dafoe, as a generic Dr. Van Helsing – he is the one who gives, if you allow me, a little life to a reticent narrative without major surprises. The metaphor of the plague, symbolized by rats and personified by Orlok, is explored to a certain extent, and is left aside when the focus falls on the count's romantic dreams, reinforcing a tragic and strangely human idea: nothing can be more destructive than our fulfilled dreams. Prime.
terça-feira, 4 de março de 2025
4675 - A MULHER DO LADO (1981)
A MULHER DO LADO (LA FEMME D’À COTÉ, França, 1981) – Este filme de François Truffaut é sobre reencontros. Os caminhos de Mathilde (Fanny Ardant) e Bernard (Gerard Depardieu) se cruzam depois de 8 anos, quando ela e o marido se mudam para a casa ao lado de onde moram Bernard e sua esposa. Há, aí, uma dedução inevitável: a velha chama ainda não se apagara por completo, e os dois se reaproximam, mesmo correndo os riscos imanentes à suas atuais situações maritais. Talvez o ponto imaginado por Truffaut seja a prevalência dos sentimentos – egoístas, por sinal – sobre uma racionalidade que inviabilizaria a história na sua origem. Afinal, qual o custo de perder o resultado de suas escolhas supostamente mais maduras em função da tentativa de reacender a excitação irresponsável da juventude? Mathilde, aparentemente, é infeliz no casamento; mas Bernard tem uma vida tranquila e satisfatória com sua esposa. No entanto, a chegada de Mathilde abala esse estado de coisas, fazendo-o manter uma relação clandestina com ela, apenas para, de certa forma, reparar um sentimento de culpa por tê-la deixado anos atrás. Nesta altura, inserir-se-ia o que Sartre dizia sobre opor-se a qualquer ética de heteronomia: a ação não se move em função de uma vontade exterior à consciência nem por um conjunto de desejos e paixões. Sendo a liberdade (no caso de Bernard e Mathilde e de suas ações) o princípio fundamental da ação humana, ela se constitui no plano da ética e está indissoluvelmente ligada à responsabilidade dessas ações. Portanto, a ética é indispensável – sem ela, impera a força, a violência, os interesses individuais privados e mesquinhos. Destarte, o filme propõe essa reflexão acerca da responsabilidade de Mathilde e Bernard em relação às suas decisões prévias envolvendo outras pessoas não diretamente ligadas a situações inconclusas de suas vidas. Assim, Truffaut parece reforçar a necessidade fechamento emocional dos ciclos afetivos da vida, pois, caso contrário, corre-se o risco de aprofundar feridas já abertas, sem a menor possibilidade de cicatrização, e com o risco colateral de envolver, de modo deletério, personagens despertencentes a um drama oriundo de expectativas frustradas. This film by François Truffaut is about reunions. Mathilde and Bernard's paths cross after 8 years, when she and her husband move into the house next door to where Bernard and his wife live. There is, here, an inevitable deduction: the old flame has not yet been completely extinguished, and the two get closer again, even taking the risks immanent to their current marital situations. Perhaps the point imagined by Truffaut is the prevalence of feelings – selfish, by the way – over a rationality that would make history unfeasible at its origin. After all, what is the cost of losing the result of your supposedly more mature choices due to the attempt to rekindle the irresponsible excitement of youth? Mathilde is apparently unhappy in her marriage; but Bernard has a quiet and satisfying life with his wife. However, Mathilde's arrival shakes this state of affairs, making him maintain a clandestine relationship with her, just to, in a way, repair a feeling of guilt for having left her years ago. At this point, what Sartre said about opposing any ethics of heteronomy would be inserted: action does not move according to a will external to consciousness or by a set of desires and passions. Since freedom (in the case of Bernard and Mathilde and their actions) is the fundamental principle of human action, it is constituted on the level of ethics and is indissolubly linked to the responsibility of these actions. Therefore, ethics is indispensable – without it, force, violence, private and petty individual interests prevail. Thus, the film proposes this reflection on the responsibility of Mathilde and Bernard in relation to their previous decisions involving other people not directly linked to unfinished situations in their lives. Thus, Truffaut seems to reinforce the need for emotional closure of the affective cycles of life, because, otherwise, there is a risk of deepening wounds that are already open, without the slightest possibility of healing, and with the collateral risk of involving, in a deleterious way, characters who do not belong to a drama arising from frustrated expectations. TC Cult.