GAROTA EXEMPLAR (GONE GIRL, USA 2014) – Como em ZODÍACO e A REDE SOCIAL, os trabalhos mais brilhantes da sólida carreira de David Fincher, em GE não há um único elemento, por ínfimo que seja, que tenha sido deixado ao acaso – tudo se une e se multiplica para criar textura, sentido e significado, de modo que o espectador não necessariamente registra de forma consciente, mas sem dúvida acrescenta ao cenário mental que está compondo. Ou seja, Fincher abusa, com critério, das escolhas acertadas, que vão do elenco – como desenxabido Ben Affleck e a sutil Rosamund Pike – à exímia trilha sonora de Trent Reznor, do Nine Inch Nails. Apesar de alguns twists previsíveis, o filme cumpre o que promete.
LUNCHBOX (THE LUNCHBOX, Índia, 2013)– Belíssimo filme que registra uma história
curiosa: para quem não sabe, na Índia, a entrega de marmitas é um serviço de
altíssima importância, em função da falta de tempo das pessoas para almoçar. Quando um erro ocorre neste intricadíssimo sistema de entrega, em
Mumbai, cujo funcionamento rende uma sequência fascinante nesta estreia do
diretor Ritesh Batra, a vida de uma jovem mal-amada pelo marido se ligará à de um
viúvo solitário, Sr. Fernandes (o fabuloso Irrfan Khan). Ila (Nimrat Kaur) preparou
uma comida especial, na tentativa de reacender a chama doméstica, mas que
acaba, equivocadamente, na escrivaninha do Sr. Fernandes, que se deleita com o
prato. Aí, acontece o fato que mais me encanta: junto com as marmitas, começarão
a ir e vir bilhetes, que os dois trocam de maneira inicialmente formal e, depois,
cada vez mais reveladora, sob a proteção do anonimato – até o dia em que um
deles decide transpor esta distância. O que acontece, a partir daí, é lindo,
suave e em aberto, bem de acordo com a maneira profunda com a qual os indianos tratam
o amor e suas (im) possibilidades.
VIDAS QUE SE CRUZAM (THE BURNING PLAIN, USA 2008 ) – O título em português meio que entrega o roteiro: sim, é uma história de pessoas que, a princípio, não tem nada a ver com as outras, mas que, em determinado momento, se mostram inevitavelmente próximas. Charlize Theron (que gosta de personagens problemáticas), Kim Bassinger e Jennifer Lawrence formam o núcleo do qual se ramificam histórias onde pontificam cicatrizes, físicas e emocionais. Charlize, mesmo vivendo um personagem destruído internamente, domina o filme. É impressionante como ela é boa atriz. Ela e Jennifer carregam o peso do drama nas costas de suas histórias complicadas e com passados obscuros. Cheio de simbolismos – as cicatrizes dos personagens, a imagem do trailer em chamas na cena de abertura, a fotografia crua – o filme vai nos reservando surpresas, sem apelar para o sentimentalismo barato.
COMIC-CON 2015 - THE BIG BANG THEORY PANEL (USA, 2015) – Painel da Comic-Con com os roteiristas da série, os criadores Chuck Lorre e Bill Prady, e Kunal Nayyar (Raj) e Mayim Bialik (Amy), como convidados. Eles falaram sobre a forma como os personagens são construídos e como desenvolveram as ideias para os episódios. Kunal estava hilário – eram dele a maioria dos comentários mais engraçados, inclusive fazendo piadas sobre si próprio, o que mostra um alto grau de maturidade. É interessante notar como Mayim fica diferente (muito mais bonita) quando não está caracterizada como Amy.
UM CONTO CHINÊS (UM CUENTO CHINO, Argentina, 2011) - Como um bom relato portenho, o filme começa em tom de melancolia. Roberto (Ricardo Darín, grandíssimo) tem uma loja pequena de ferragens, onde mora. Coleciona animais de vidro em miniatura (referência à THE GLASS MENAGERIE, de Tennessee Williams?) para a falecida mãe, dorme sempre no mesmo horário e evita como pode os avanços da filha de um amigo, apaixonada por ele. Ou seja, Roberto é um daqueles tipos quase misóginos, mas que apenas é um exemplo das pessoas que têm uma ancestral dificuldade para lidar com o mundo dos sentimentos. Um estranho caso com uma vaca que caiu do céu na China, porém, vai acabar com a crença de Roberto de que na vida não há acasos (será mesmo?). O chinês Jun (Ignacio Huang) chega a Buenos Aires sem falar uma palavra em espanhol; tem no braço apenas o endereço de seu tio que mora na Argentina. Quando se encontram por acidente, Roberto e Jun mal se entendem - e dessa situação Um Conto Chinês tira sua premissa. O mais interessante é a justaposição de dois personagens diametralmente opostos – Roberto fala sozinho, resmunga, repete sempre que a vida não tem sentido (não tem mesmo...), é um ser ontologicamente consciente de sua solidão cósmica e da impossibilidade de se comunicar plenamente com o mundo. Curiosamente, redescobre este caminho no convívio com uma pessoa que mal fala em função do sofrimento e de não terem um idioma em comum. Mais uma obra-prima do cinema argentino.
RUBEM BRAGA – OLHO AS NUVENS VAGABUNDAS (BRASIL, 2014) – Documentário sobre RB, que é descrito através de suas crônicas, lidas por seus amigos mais próximos, na cobertura mítica no Leblon. Eleito um dos dez melhores documentários da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo na categoria Novos Diretores, em 2013, o filme traz depoimentos de artistas, admiradores e colegas de trabalho do poeta. Frequentadores de sua casa, eles narram suas lembranças das tardes e noites passadas ao lado do amigo no lugar favorito do espaço: o pomar plantado em sua cobertura. Zuenir Ventura abre o documentário, recordando uma crônica escrita para o amigo sobre seus momentos no famoso apartamento. Em seguida, Ziraldo lembra a passagem de personalidades como Otto Lara Resende, Vinicius de Moraes e Fernando Sabino pelos aposentos.
DUETS, VEM CANTAR COMIGO - (DUETS, USA, 2000) – Este é um filme simples, sobre pessoas simples que procuram um sentido na vida. Por isso, é um dos que mais gosto. A procura existencial dos personagens converge para um concurso de karaokê (sim isso já foi uma febre), onde todos têm a oportunidade de, além de cantar, voltar a se encontrar consigo mesmos e avaliar os ganhos e as perdas de suas vidas. O clima meio road-movie é tão magnético que parece que estamos juntos na mesma história. Neste filme, descobri como Paul Giamatti é um excelente ator e como Gwyneth Paltrow, além de linda e talentosa, pode cantar divinamente. Veja aí embaixo:
UMA LIÇÃO DE AMOR (I AM SAM, USA 2001) – O título açucarado em português não diminui a força da história de Sam (Sean Penn, grandioso), um homem com a idade mental de uma criança de 7 anos que é pai de uma garotinha. O roteiro o põe diante da justiça americana, que não o considera capaz de criar a sua filha, especialmente quando ela atinge a idade canônica onde seu pai estacionou. A questão proposta pelo filme é simples. Uma pessoa com as limitações de Sam pode ser responsável por uma criança que, em breve, terá mais capacidade mental que ele? O fato é que a gente acaba se esquecendo desta questão, por causa da atuação comovente de Penn, especialmente quando contracena com a então pequena Dakota Fanning. Entre as inquirições sobre a perfeição física, mental e moral que a sociedade costuma injustamente cobrar, o filme, embora com algumas cenas meio forçadas para o lado sentimental, oferece um profundo mergulho nas considerações sobre o amor entre pais e filhos.
POSSESSÃO (POSSESSION, UK, 2002) – Ser apaixonado por Literatura e ainda por cima encontrar Gwyneth Paltrow, em Londres, com o coração disponível, e ela se apaixonar por você, só em filme mesmo. Por isso, feliz do personagem de Aaron Eckart, que é um pesquisador atrás da história de amor entre um poeta vitoriano e uma mulher comprometida, que só passa a ser conhecida através das cartas que são descobertas. Sim, cartas antigas, que tal? Sei que, principalmente por causa disso, você adoraria. O filme, em si, é lindo, pelo tema, pelos instrumentos usados. E, claro, ainda há Gwyneth.
O MESMO AMOR, A MESMA CHUVA (EL MISMO AMOR, LA MISMA LLUVIA, Argentina, 1999) – Na Argentina de 1980, Jorge (Ricardo Darín) é um jornalista que escreve contos românticos para uma revista. Ele é talentoso, uma promessa literária, mas receoso demais em mergulhar de vez no mundo da literatura. Numa noite tempestuosa, Jorge encontra Laura (Soledad Villamil), uma atriz que ganha a vida como garçonete, e fica fascinado ao vê-la na chuva. Eles se aproximam e vivem um romance durante um ano e meio. O namoro dos dois, que atravessa a Guerra das Malvinas, o fim da ditadura militar e o início do governo Alfonsín, se desgasta pela infidelidade dele e é rompido. No final dos anos 90, Jorge é um crítico de arte desiludido, corrompido, e Laura uma bem-sucedida produtora cultural e – como o próprio nome do filme entrega – eles se reencontram. O roteiro acompanha a história dos protagonistas por vinte anos e vai mostrando com extrema habilidade as transformações que os fatos sociais, fracassos e realizações fazem na história de cada um. Tanto personagens como situações são críveis demais e poderiam fazer parte da vida de qualquer pessoa. Esse é, talvez, o maior mérito do cineasta Juan José Campanella: fazer poesia do banal, do corriqueiro, e nos transportar para dentro de seus filmes. O filme é lindo, a começar pelo título. Em determinado momento, Jorge diz a Laura: “O amor não é linear...”. Esta verdade nos toma como um hausto de saudade, ainda mais quando vivemos num mundo tão infenso aos sentimentos que podem durar para sempre. A vida é mesmo constituída de desencontros, e devermos aprender com eles. Pois sempre pode haver um reencontro.
MARY TYLER MOORE, 7.a TEMPORADA (MTM, LAST SEASON, USA 1997) – I must tell that watching this last season actually moved
me inside. Definitely, I should say that MTM was one of the best shows on TV
ever. The show perfectly poised between the traditional mainstream culture reflected in
the television of the 1960s and the more farcical, cynical, sex-saturated
depictions of young and not-so-young narcissists we have, today. It depicted
the emerging paradox of American culture: growing freedom for women (and men)
to shape their own lives, accompanied by a new sense of limits and a loss of
optimism. In the show, Mary Tyler Moore plays Mary Richards, a well-integrated,
genuinely nice, non-narcissistic character who is stuck with a less than ideal
life, for a new, less optimistic, age. She works for a mediocre television
station and, despite the fact that she is the best catch in America, she can't
find a mate. The program also starred Ed Asner as Lou Grant, the outwardly hard-nosed
and gruff news editor who is inwardly a pussy cat. The late Ted Knight played
Ted Baxter, as the television anchor whose outward appearance as an airhead
conceals absolutely nothing underneath. He is self-worshipping, superficial and
has no idea of the meaning of many of the stories he relates on the air, all of
which makes him a good symbol for the popular culture that was developing in
America. Like Diana Christensen, played by Faye Dunaway, in the movie Network,
he is television. Betty White plays Sue Ann Nivens, the man-hungry gourmet with
a cooking program that is on the same network as the news show. She's Mary's
opposite -- conniving, cynical, sarcastic -- just as Lou and Ted represent
alternative forms of age and authority: image versus imagelessness, vacuousness
versus substance, narcissistic self-absorption versus (more or less) altruistic
adulthood. The newsroom, which is the main site of the action, along with
Mary's studio apartment, is a kind of trap of banality, made more livable by
the fact that Mary is able to bond with the men on her right and left, as if
they are her family. Lou is her surrogate father; and Murray Slaughter, the
news writer, her brother. Mundane Murray sits next to her, pounding out the
words, turning the great and small events of the day into copy that will be
butchered by Ted. If the newsroom is a family, then Ted is the idiot uncle and
the only one who seems to be in his element. Sue Ann Nivens is the neighbor
with an over-active social life. Mary Tyler Moore turned out to be the nexus
for, and force behind, some of the best stuff on television. She co-starred on The
Dick Van Dyke Show and, as noted, her MTM Enterprises was responsible for The
Mary Tyler Moore Show; Rhoda and The Bob Newhart Show. In
addition, it produced the program, Lou Grant, the finest drama ever
created for television, which depicts journalists who try to solve social
problems by telling the truth to the public. Above, you can watch the last show.
O TERCEIRO TIRO (THE TROUBLE WITH HARRY, USA 1955) – Este é um filme atípico de Hitchcock. É um belo exercício de humor negro, numa história que gira em torno da descoberta de homem morto, no alto de uma colina, numa cidadezinha do interior da Nova Inglaterra (a fotografia é lindíssima). Parte da graça do filme é que nada realmente acontece, como se o roteiro fosse tirado de um episódio de Seinfeld. A gente já tem uma dica genial do velho Hitch logo nos créditos iniciais: uma sequência de desenhos infantis contando exatamente o que vai se passar na história. Sem que percebamos de início, o roteiro vai nos levando por questões existenciais importantíssimas: vida e morte, juventude e velhice, culpa e inocência, verdades e mentiras, arte e pragmatismo – tudo isso nos é entregue com sutileza e elegância. Hitch, esperto, põe Shirley MacLaine, bem jovenzinha, no seu primeiro papel no cinema, juntamente com atores veteranos, como Edmund Gwenn e Mildred Natwick, esta última como Mrs. Gravely (sacaram a pegadinha do nome?). Shirley é uma viúva que se apaixona por um artista plástico Sam Marlowe (outra referência à literatura policial), interpretado por John Forsythe. Os personagens de Gwenn e Natwick também se aproximam romanticamente. É aí que Hitch mostra o amor nas duas extremidades da vida e faz isso com uma elegância e sensibilidade que andam faltando hoje em dia. Há todo um simbolismo nas cenas (vide a do chá) que, entre outras coisas, enriquece esta joia meio esquecida – injustamente – da filmografia do gênio britânico.
LOBO (WOLF, USA, 1994)– Revisto hoje, LOBO ainda é um ótimo filme de suspense e
mistério, que flerta com o horror clássico, e que funciona muito bem,
principalmente por contar com um protagonista como Jack Nicholson. Nenhum outro
ator poderia dar, num filme supostamente sério, credibilidade a um personagem
que, após ser mordido por um lobo, passa a se transformar em um, nas noites de
luar cheia, claro. Curiosamente, a palavra “lobisomem” nunca é pronunciada na
história. Carregando a mão no erotismo, sem apelar para a grosseria, Mike Nichols,
diretor de A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (1967), procura fazer uma reflexão sobre
as possibilidades de os instintos primais do homem aflorarem frente às castrações
civilizatórias. Apesar de amaldiçoado com o estigma da licantropia, Will
Randall (Nicholson) tem a sorte de encontrar Laura (Michelle Pfeiffer), carente,
em meio a uma ingente crise existencial, e ela, claro, se apaixona por ele. Sujeito
de sorte, não? É notável como Nicholson, sem alterar a voz e com um mínimo de maquiagem
(embora lembre um pouco o Wolverine), consegue demonstrar suas reações, à medida
que o lobo dentro dele vai se manifestando. Atenção para a cena em que ele
declara seu amor por Laura – é um momento “a bela e a fera” emocionante. Se Nicholson
acaba fazendo um ótimo lobo, Michelle Pfeiffer não poderia estar mais gata.
TRUE
BLOOD, 3.a Temporada (TRUE BLOOD 3rd season, USA
2011) – Esta temporada começa com o sequestro de Bill por lobisomens. Os roteiristas
vão dando dicas a respeito das reais intenções de Mr. Compton com Sookie, mas temos
a nítida impressão de que, em muitos episódios, eles ficaram sem ter muito o
que dizer. O resultado foi uma sequência de capítulos arrastados, sem o frisson
da primeira temporada, principalmente. A inserção dos licantropos, a meu ver,
ficou um pouco forçada. A genealogia de Sam Merlotte, exposta com a descoberta
de sua família interesseira, pouco contribuiu para o espectador ficasse na mesma vibração das temporadas anteriores. Talvez
seja melhor resolvida nas próximas histórias. Destaque para a bela Deborah Ann Woll, como Jessica.
DICIONÁRIO
DE CAMA (THE SLEEPING DICTIONARY, USA 2003) – em 1936, um oficial
britânico, John Truscott, chega a Bornéu, na Ásia, região dominada pelos
ingleses. Segundo os costumes locais, ele tem direito a um serviço inusitado:
uma bela jovem é designada a dormir com ele, a fim de ensinar a língua local. Relutante
a princípio, John acaba se apaixonando por Selima (Jessica Alba, uma força da
natureza) e tem uma surpresa que altera seus planos. O filme é de uma simplicidade
palmar, mas funciona, principalmente pela inocência da história e pela fotografia
exuberante do cenário tropical. Excelente atuação de Bob Hoskins.
SIMONE
(SIMONE, USA 2002) – Apesar do tom de quase comédia, o filme já chamava
a atenção para o perigo das celebridades fabricadas pela indústria da fama em geral, um assunto
que vem se tornando cada vez mais comum. Al Pacino é Victor Taranski, um
diretor de cinema meio decadente que reencontra a fama ao utilizar um programa
de computador para criar uma “atriz perfeita”. Surge, então, Simone, por quem
todos parecem ficar automaticamente enfeitiçados, sem questionar, em nenhum
momento, o que os leva a este grau de ensimesmamento. Curiosamente, a atriz que
incorpora a Simone no filme, Rachel Roberts, nunca mais fez nada como atriz. É um
filme subestimado pela crítica. Talvez seja redescoberto em algum momento.
O TURISTA ACIDENTAL (THE ACCIDENTAL TOURIST, USA 1988)– Um dos clássicos dos anos 80, o filme é sobre Macon
(William Hurt, soberbo), um escritor de guias de viagens que faz tudo para se
manter longe do mundo dos sentimentos. Nem mesmo a tragédia de ter perdido o único
filho num assalto, um ano antes, parece colocá-lo em contato com uma certa humanidade
perdida. Sua esposa (Kathleen Turner) decide abandoná-lo, e ele vai morar com
os irmãos. Neste ínterim, conhece Muriel (Geena Davis, esfuziante), uma
treinadora de cães que, aos poucos, vai revitalizando a existência de Macon, mostrando a ele como funciona um amor de verdade. Num
determinado momento do filme, Macon escreve, a respeito do que devemos levar na
bagagem: “Menos é mais”. Esta fala reflete exatamente as atuações de William
Hurt – ele é um ator de minimalismos, de longos silêncios, e é exatamente aí
que ele demonstra seu talento. A história é sobre como as pessoas lidam com a
perda, em todos os aspectos. A trilha sonora do grandíssimo John Williams é quase
hipnótica e em total consonância com o roteiro de Frank Galati.
ALGUMAS VOZES (SOME VOICES, UK, 2000) – É interessante ver Daniel Craig, antes da fama de
James Bond, num papel que só confirma que ele é, de fato, um grande ator. Aqui,
ele é Ray, um rapaz esquizofrênico que sai da clínica onde vivia, para morar
com o irmão (David Morrissey, o Governador de THE WALKING DEAD). Os dois têm uma
atuação impressionante, especificamente numa cena mais perto do fim do filme,
na cozinha do restaurante onde trabalham. Não é um filme fácil – o que explica
sua pouca repercussão – mas pode ser visto como uma história de reencontro,
esperança e fraternidade.
FÚRIA (TOKAREV, USA 2014) – Sim, Nicolas Cage tem feito filmes muito ruins,
mas neste ele foi além do tolerável. Porém, neste
aqui, ele foi às fímbrias do perdoável. Seu personagem é um ex-policial que tem
a filha sequestrada e assassinada e, por causa disso, jura vingança e vai atrás
dos criminosos. O roteiro, como se vê, é um primor de falta de originalidade. Para
piorar, tudo é mal feito, mal encenado, tudo ruim. O que aconteceu, Cage? Fúria sente quem perdeu tempo para assistir a esta história fraquíssima, com atuações idem.
HISTÓRIAS
DE AMOR (LIBERAL ARTS, USA 2012) – Este é um
daqueles filmes que a gente começa a ver sem muita esperança, mas que acaba
sendo uma boa surpresa. Jesse (Josh Radnor), depois de formado e já trabalhando em Nova
Iorque, volta à universidade onde estudou, para a despedida do seu professor
(Richard Jenkins, em outra curta, mas excepcional atuação). Ao chegar lá,
conhece Zibby (Elizabeth Olsen, suave e encantadora), cuja alegria e maturidade
precoce o fascinam. Jesse ama a literatura e, por causa de alguns reveses, perdeu
sua paixão de viver (algo familiar aí, não?). O relacionamento com Zibby e algumas outras conexões
encontradas no campus universitário o levam a fazer descobertas essenciais para
que ele reencontre a alegria e a esperança. Atenção: na história, há cartas e livros,
coisas que sempre nos interessam, não é?
TARDE
DEMAIS (BEAUTIFUL BOY, USA 2010) – O filme faz um
exercício notável no sentido de imaginar a tormenta a que um casal é lançado, depois
de saber que seu filho foi o responsável pelo massacre de 21 pessoas na faculdade
onde estudava, suicidando-se em seguida. Seguem-se as recriminações mútuas e as
inescapáveis indagações – o que fiz, o que deixei de fazer, como não pude
perceber. A abordagem é corajosa, pois o “school shooting” talvez seja o fenômeno
sociológico americano de que o país mais se envergonha, em função do choque, do
horror e da quase total falta de explicações para o fato tão comum quanto traumático.
Em mais um desempenho superlativo, Michael Sheen detalha a desintegração de seu
personagem, desde o momento em que recebe a notícia até o estágio quase infantil
retratado na cena em que a esposa (Maria Bello, também numa grande atuação) o
resgata do escuro de um quarto de hotel. O que se mostra mais doloroso, além,
claro da tragédia em si, é a sobrevivência quase agonizante dos pais, agravada pela
falta de respostas e, talvez, de esperança.
PEQUENA
MISS SUNSHINE (LITTLE MISS SUNSHINE, USA 2008) – Obra de referência
do cinema indie, o filme toca num assunto fulcral para os americanos: os
conceitos de “loser” e “winner”. Para isso, lança mão de um cenário comum a
este tipo de produção– a família desestruturada, com todos os arquétipos consabidos:
um pai chegado a delírios de grandeza, uma mãe sofrida, o filho desajustado,
um avô serelepe e o cunhado depressivo. A filha mais nova, Olive (Abigail
Breslin), que tem mania de concursos de beleza, parece ser a mais ajuizada. Repletos
de simbolismos locais e universais, o filme, de certa forma, epitoma as frustrações
afetivas da classe média, as expectativas em relação aos filhos, os conflitos
da velhice e uma cada vez mais precoce adultícia. No elenco, Steve Carell, Toni
Collete e Greg Kinnear.
AMANTES (TWO LOVERS, USA 2008)– Leonard (Joaquin Phoenix) vive no Brooklin e trabalha
na tinturaria do pai, que tem planos para ele: casá-lo com a filha do sócio
rico e, assim, resolver os problemas práticos e sentimentais ao mesmo tempo. Leonard
se sente sufocado e está infenso a qualquer relacionamento amoroso – entende-se
isso com mais profundidade, quando ficamos sabendo que a noiva o abandonara,
levando-o a algumas tentativas de suicídio. Então, ele conhece uma vizinha, bela
e misteriosa (Gwyneth Paltrow), e enxerga nela a possibilidade de se libertar deste
imbróglio familiar. Joaquin Phoenix, mais uma vez, mostra que é um dos maiores atores
da atualidade. Gwyneth Paltrow, linda e talentosa, é mesmo um sopro de
liberdade.
PARA SEMPRE ALICE (STILL ALICE, USA/FRANÇA 2014) – Há filmes menores que têm a sorte de contar com atores maiores. É o
caso de STILL ALICE. Apesar da abordagem meio perfunctória do impacto da doença
de Alzheimer em uma mulher relativamente jovem (Moore) e as reverberações nas pessoas
de sua família, a história não engrena em termos de roteiro. A gente tem a sensação que o filme se retrai exatamente quando
poderia mergulhar nas situações mais agudas quando a doença – e todo questionamento
que ela suscita – se instala inelutavelmente. Não há, no roteiro, a devida
exploração dos estágios da dissolução das lembranças, que o paciente acompanha ao
mesmo tempo como vítima e espectador impotente. Claro que nada disso oblitera a
atuação visceral de Julianne, que ganhou o Oscar deste ano, com todo o
merecimento. A surpresa é a sensível e superlativa interpretação de Kristen Stewart
(de CREPÚSCULO), especialmente quando contracena com Julianne, nas cenas em que
mãe e filha se reencontram numa dimensão existencial.
REFÉM DA PAIXÃO (LABOR DAY, USA 2013) –O filme
apresenta uma família dividida por um divórcio. Mãe (Kate Winslet) e filho
vivem sozinhos. O pai tem uma nova família. É curioso perceber a cultura pop
está inserta no ambiente: É 1987, e o menino, nos primeiros anos da
adolescência, gosta de quadrinhos e ficção científica. Referências a O Império Contra-Ataca
e Contatos Imediatos do Terceiro Grau, filmes que em sua
essência são sobre escolhas e famílias desfeitas, estão presentes no quarto do
menino, que se sente responsável pela mãe. Um dia, no supermercado, são surpreendidos
por um fugitivo (Josh Brolin), que passa a mantê-los refém em sua própria casa.
A partir daí, acontece uma espécie de Síndrome de Estocolmo, e mãe e filho começam
a ver no homem misterioso a complementação de sua família desfeita. O filme tem
algumas boas sequências e atuações excelentes de Winslet e Brolin, mas se perde
na parte final, quando poderia ter tido um desfecho mais realista.
UM
CRIME PERFEITO (A PERFECT MURDER, USA 1998) –
Excelente thriller criminal envolvendo um milionário (Michael Douglas), sua
esposa (Gwyneth Paltrow) e seu amante (Viggo Mortensen). Tendo Nova Iorque como
pano de fundo, a história é repleta de twists, com cenas de real suspense e uma
atuação estupenda do trio protagonista. Gwyneth está mais linda do que nunca,
de cabelo curto e extremamente convincente como uma mulher perdida entre o que conhece
e o que não conhece. Douglas, que faz muito bem este milionário de Wall Street,
está assustador como o marido que desconfia da infidelidade da esposa, e
Mortensen não deixa dúvida sobre o caráter dos eu personagem. Remake de DISQUE M
PARA MATAR, de Hitchcock.
SÉTIMO (SÉPTIMO, Espanha/Argentina, 2013) – A ação se passa num único dia, praticamente dentro
de um prédio, e procura captar a agonia do advogado Sebastian (Ricardo Darín,
estupendo, como sempre), que, ao descer pelo elevador, e os dois filhos pequenos
pelas escadas, constata que eles desapareceram, sem qualquer pista. Ele sente o
peso da culpa, porque estava responsável por levá-las à escola. Começa aí uma
trama nervosa, pontilhadas de twists, mistérios e contornos hitchcockianos. A narrativa
quase claustrofóbica tem seu pilar na atuação densa e angustiante de Darín – somente
um grande ator seria capaz de manter-nos atentos a uma dor tão íntima quanto
comum. No entanto, na parte final, o roteiro se perde em soluções fáceis e nos
leva a um desfecho meio frustrante.
UM MILHÃO
DE MANEIRAS DE PEGAR NA PISTOLA (A MILLION WAYS TO DIE IN THE WEST, USA 2014) – O filme é um longo esquete cômico no qual o
recurso do personagem de mentalidade contemporânea que confronta os estereótipos
do faroeste é usado à exaustão. O personagem central é Albert, vivido com certa
dose de cinismo por Seth MacFarlane, autor do roteiro e, claro, também diretor,
num delírio à la Chaplin que, mais que o fracasso suposto, acaba acertando na
maior parte das vezes. É um daquelas comédias que a gente não pode levar muito
a sério (sim, há comédias que só funcionam se encaradas com algum grau de sensatez),
cujo protagonista quer sempre fazer a coisas certa, mas que sempre leva a pior.
Isso até aparece na cidade uma loira mesmerizante (Charlize Theron, mais linda
impossível) que se enche de gratidão por Albert por ele acidentalmente salvar a
vida dela. Ou seja, nada que já não tenha sido visto por aí, mas que funciona que
é uma beleza num cenário em que ressalta a bela fotografia do universo do velho
oeste, por si só um dos ambientes mais icônicos do cinema. Atenção para alguns "cameos" nada sutis e a referências à cultura pop e a filmes clássicos.
MAD MAX
– ALÉM DA CÚPULA DO TROVÃO (MAD MAX – BEYOND THUNDERDOME,
USA 1985) – A primeira sequência área, sobre o deserto, é uma das mais belas do
cinema - dê uma olhada aí embaixo. Pausa. Daí para frente, o filme não entrega o que promete, deixando-nos
na expectativa de que algo mais emocionante aconteça. O que seria o último capítulo
de uma trilogia que teve dois filmes ótimos acabou sendo uma decepção. O que
vemos, aqui, é uma espécie de nova versão de THE LORD OF THE FLIES, sem o tônus
dramático dos filmes anteriores. A presença de Tina Turner traz certa
curiosidade (ela é apenas competente no papel) e não salva o filme, cujo único destaque
volta a ser Mel Gibson. Com um temperomais hollywoodiano, o filme, hoje, pode ser visto com olhos mais
benignos – eu mesmo o achei muito pior quando o vi pela primeira vez. A parte
final, dirigida por George Miller, retorna ao clima feroz dos primeiros filmes,
com uma boa e empoeirada perseguição pelo deserto.
ARMAÇÃO
PERIGOSA (STREET SMART, USA 1987) – Um dos grandes filmes dos anos 80, com uma atuação
magistral de Morgan Freeman, como Fast Black, um cafetão barra pesada que persegue
um repórter de uma revista (Christopher Reeve), autor de uma reportagem fantasiosa sobre este
tipo de “negócio”, que desagrada Fast. Do início ao fim, o filme é de Freeman,
que entrega uma atuação de mestre. Com súbitas mudanças de humor, um olhar frio
e magnético, um domínio total da voz em perfeito conúbio com o texto, cada cena
com ele é uma surpresa, uma montanha russa de emoções tão díspares, que nos
perdemos no prazer de ver um grande ator exercendo seu ofício em total
plenitude. Chris Reeve, geralmente esquecido nas resenhas – a não ser quando
está sob a capa do Super-Homem – também tem destaque, principalmente ao dar ao
seu personagem doses equânimes de ambição, confusão, medo e compaixão. No
entanto, o desfecho é constrangedor de tão pedestre e, de certa forma,
compromete a linha narrativa da história.