quarta-feira, 30 de setembro de 2015

2690 - WHIPLASH - EM BUSCA DA PERFEIÇÃO

WHIPLASH EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (WHIPLASH, USA, 2014) – Enxuto, tenso, angustiante, libertador, perfeito na sua proposta, WHIPLASH consegue fazer com que tudo – atores, roteiro, música – atinja, ao mesmo tempo, o máximo de potência e precisão. J.K. Simmons, no papel de Terence Fletcher, professor do mais prestigiado conservatório musical americano, tem um desempenho arrasador – o Oscar de ator coadjuvante que levou é mais que merecido. Sua performance, composta de inteligência e gestos minimalistas, misturando uma aparente suavidade com detonações imprevistas, nos leva a entrar no torvelinho emocional que vive o jovem protagonista (o também excepcional Miles Teller, no papel de Andrew Neiman). Um dos acertos do diretor e roteirista estreante Damien Chazelle é colocar a bateria no centro da história, sem se deixar seduzir pela sinuosidade sonora dos metais, por exemplo. Sentimos, então que ela é mesmo o motor de propulsão verdadeiro das bandas, ao mesmo tempo uma metáfora do coração pulsante, uma usina de força catalisando os sons e a atenção da plateia. Combinação singular de fúria e precisão, WHIPLASH nos envolve desde a primeira cena, em que Andrew detona o instrumento ao estilo do lendário Buddy Rich. Na vulcânica sequência final do filme, temos a certeza de que, entre muitas interpretações, a perfeição pode estar até mesmo no processo de obtê-la.


 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

2689 - SABOTAGEM

SABOTAGEM (SABOTAGE, USA 2014) – Filme tosco, com Arnold Schwarzenegger, e roteiro sem qualquer originalidade. Um grupo de agentes especiais, renegados depois de passarem como suspeitos de terem roubado 10 milhões de dólares, volta à cena liderados por Schwarzenegger, para provar que são inocentes. Já sabemos como isso acaba, não? Para piorar, a sequência final, num lugarejo no México, é de uma pobreza cinematográfica imperdoável.

domingo, 27 de setembro de 2015

2688 - LUCY


LUCY (LUCY, USA 2014) – Ver Scarlett Johansson em cena é sempre um prazer, mesmo que o roteiro deste filme de Luc Besson a vá transformando gradativamente num computador, ideia que se aproxima de ELA, de Spike Jonze, em que ela faz a voz do sistema operacional que seduz um indefeso Joaquin Phoenix e, claro, todos nós. Em LUCY, que acabo de rever, ela é uma periguete perdida em Honk Kong, que acaba virando mula de traficantes que querem mandar uma droga poderosíssima para a Europa. A história é mais que conhecida: o pacote, inserido cirurgicamente no seu abdômen, se rompe, e ela começa a fazer uso total da sua capacidade cerebral. Ela está linda, de início com a cara de assustada mais encantadora do planeta e, depois, tirando partido do seu olhar enviesado (veja aí do lado...), especialmente quando diz que consegue sentir a rotação da Terra e o fluxo de sangue nas suas veias – imagino que também poderia sentir o meu, pulsando, quando a vejo.  

terça-feira, 15 de setembro de 2015

2687 - TRUE BLOOD - 4.a TEMPORADA

TRUE BLOOD – 4.a TEMPORADA (TRUE BLOOD, 4TH SEASON, USA 2012) - Sookie se vê envolvida em um triângulo amoroso - dividida entre o vingativo Bill, o novo Rei Vampiro do Mississippi, e Eric, que não é mais o ex-viking que costumava ser. Liderado por uma carismática bruxa chamada Marnie, que ameaça impedir que qualquer pessoa, viva ou morta, fique em seu caminho, um grupo de poderosas bruxas procura seduzir Lafayette, Tara e Jesus com poderes do outro mundo. Jessica tenta se adaptar a uma vida doméstica, enquanto Jason se vê sozinho no território dos were-panthers, os lobisomens locais. Arlene e Terry chegam a um acordo sobre seu incomum bebê, e Alcide é pego pelas garras de uma antiga paixão. Esta temporada ficou mais centrada nas maldades de Marnie (Fiona Shaw, a Petunia, de Harry Potter).

2686 - NO OLHO DO TORNADO

NO OLHO DO TORNADO (INTO THE STORM, USA 2014) – Apesar dos efeitos razoáveis, o filme sobre a devastação provocada por um tornado F5 em uma região do interior dos EUA, sem querer fazer blague, é um desastre quase total. É sempre interessante constatar que existem pessoas que dedicam a vida a perseguir tornados e furacões e registrar seus efeitos destrutivos. TWISTER, de 1996, com a mesma temática, é um filme excelente, com bons diálogos e um roteiro bem amarrado, além de contar com a presença luxuosa de Philip Seymour Hoffman. Este INTO THE STORM tem diálogos sofríveis, além de um elenco que simplesmente não sabe atuar.  

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

2685 - SANGUE E VINHO

SANGUE E VINHO (BLOOD AND WINE, USA 1996) – Dois grandes atores – Jack Nicholson e Michael Caine – juntos numa espécie de noir moderno, envolvendo dois ladrões de joias. Ao roubarem um valioso colar de diamantes, a esposa traída de Alex Gates (Nicholson) entra na história e muda os planos da dupla. A notar: a presença de Jennifer Lopez, devidamente meio vestida de shortinhos durante a maior parte de suas cenas. Não é um grande filme, mas Caine dá um show.

domingo, 30 de agosto de 2015

2684 - GAROTA EXEMPLAR


GAROTA EXEMPLAR (GONE GIRL, USA 2014) – Como em ZODÍACO e A REDE SOCIAL, os trabalhos mais brilhantes da sólida carreira de David Fincher, em GE não há um único elemento, por ínfimo que seja, que tenha sido deixado ao acaso – tudo se une e se multiplica para criar textura, sentido e significado, de modo que o espectador não necessariamente registra de forma consciente, mas sem dúvida acrescenta ao cenário mental que está compondo. Ou seja, Fincher abusa, com critério, das escolhas acertadas, que vão do elenco – como desenxabido Ben Affleck e a sutil Rosamund Pike – à exímia trilha sonora de Trent Reznor, do Nine Inch Nails. Apesar de alguns twists previsíveis, o filme cumpre o que promete.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

2683 - LUNCHBOX

LUNCHBOX (THE LUNCHBOX, Índia, 2013) – Belíssimo filme que registra uma história curiosa: para quem não sabe, na Índia, a entrega de marmitas é um serviço de altíssima importância, em função da falta de tempo das pessoas para almoçar. Quando um erro ocorre neste intricadíssimo sistema de entrega, em Mumbai, cujo funcionamento rende uma sequência fascinante nesta estreia do diretor Ritesh Batra, a vida de uma jovem mal-amada pelo marido se ligará à de um viúvo solitário, Sr. Fernandes (o fabuloso Irrfan Khan). Ila (Nimrat Kaur) preparou uma comida especial, na tentativa de reacender a chama doméstica, mas que acaba, equivocadamente, na escrivaninha do Sr. Fernandes, que se deleita com o prato. Aí, acontece o fato que mais me encanta: junto com as marmitas, começarão a ir e vir bilhetes, que os dois trocam de maneira inicialmente formal e, depois, cada vez mais reveladora, sob a proteção do anonimato – até o dia em que um deles decide transpor esta distância. O que acontece, a partir daí, é lindo, suave e em aberto, bem de acordo com a maneira profunda com a qual os indianos tratam o amor e suas (im) possibilidades.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

2682 - VIDAS QUE SE CRUZAM

VIDAS QUE SE CRUZAM (THE BURNING PLAIN, USA 2008 ) – O título em português meio que entrega o roteiro: sim, é uma história de pessoas que, a princípio, não tem nada a ver com as outras, mas que, em determinado momento, se mostram inevitavelmente próximas. Charlize Theron (que gosta de personagens problemáticas), Kim Bassinger e Jennifer Lawrence formam o núcleo do qual se ramificam histórias onde pontificam cicatrizes, físicas e emocionais. Charlize, mesmo vivendo um personagem destruído internamente, domina o filme. É impressionante como ela é boa atriz. Ela e Jennifer carregam o peso do drama nas costas de suas histórias complicadas e com passados obscuros. Cheio de simbolismos – as cicatrizes dos personagens, a imagem do trailer em chamas na cena de abertura, a fotografia crua – o filme vai nos reservando surpresas, sem apelar para o sentimentalismo barato.

sábado, 8 de agosto de 2015

2681 - COMIC-CON 2015 - THE BIG BANG THEORY PANEL

       
COMIC-CON 2015 - THE BIG BANG THEORY PANEL (USA, 2015) – Painel da Comic-Con com os roteiristas da série, os criadores Chuck Lorre e Bill Prady, e Kunal Nayyar (Raj) e Mayim Bialik (Amy), como convidados. Eles falaram sobre a forma como os personagens são construídos e como desenvolveram as ideias para os episódios. Kunal estava hilário – eram dele a maioria dos comentários mais engraçados, inclusive fazendo piadas sobre si próprio, o que mostra um alto grau de maturidade. É interessante notar como Mayim fica diferente (muito mais bonita) quando não está caracterizada como Amy.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

2680 - UM CONTO CHINÊS

   
UM CONTO CHINÊS (UM CUENTO CHINO, Argentina, 2011) - Como um bom relato portenho, o filme começa em tom de melancolia. Roberto (Ricardo Darín, grandíssimo) tem uma loja pequena de ferragens, onde mora. Coleciona animais de vidro em miniatura (referência à THE GLASS MENAGERIE, de Tennessee Williams?) para a falecida mãe, dorme sempre no mesmo horário e evita como pode os avanços da filha de um amigo, apaixonada por ele. Ou seja, Roberto é um daqueles tipos quase misóginos, mas que apenas é um exemplo das pessoas que têm uma ancestral dificuldade para lidar com o mundo dos sentimentos. Um estranho caso com uma vaca que caiu do céu na China, porém, vai acabar com a crença de Roberto de que na vida não há acasos (será mesmo?). O chinês Jun (Ignacio Huang) chega a Buenos Aires sem falar uma palavra em espanhol; tem no braço apenas o endereço de seu tio que mora na Argentina. Quando se encontram por acidente, Roberto e Jun mal se entendem - e dessa situação Um Conto Chinês tira sua premissa. O mais interessante é a justaposição de dois personagens diametralmente opostos – Roberto fala sozinho, resmunga, repete sempre que a vida não tem sentido (não tem mesmo...), é um ser ontologicamente consciente de sua solidão cósmica e da impossibilidade de se comunicar plenamente com o mundo. Curiosamente, redescobre este caminho no convívio com uma pessoa que mal fala em função do sofrimento e de não terem um idioma em comum. Mais uma obra-prima do cinema argentino.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

2679 - OLHO AS NUVENS VAGABUNDAS

  RUBEM BRAGA – OLHO AS NUVENS VAGABUNDAS (BRASIL, 2014) – Documentário sobre RB, que é descrito através de suas crônicas, lidas por seus amigos mais próximos, na cobertura mítica no Leblon. Eleito um dos dez melhores documentários da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo na categoria Novos Diretores, em 2013, o filme traz depoimentos de artistas, admiradores e colegas de trabalho do poeta. Frequentadores de sua casa, eles narram suas lembranças das tardes e noites passadas ao lado do amigo no lugar favorito do espaço: o pomar plantado em sua cobertura. Zuenir Ventura abre o documentário, recordando uma crônica escrita para o amigo sobre seus momentos no famoso apartamento. Em seguida, Ziraldo lembra a passagem de personalidades como Otto Lara Resende, Vinicius de Moraes e Fernando Sabino pelos aposentos.


2678 - DUETS, VEM CANTAR COMIGO

DUETS, VEM CANTAR COMIGO - (DUETS, USA, 2000) – Este é um filme simples, sobre pessoas simples que procuram um sentido na vida. Por isso, é um dos que mais gosto. A procura existencial dos personagens converge para um concurso de karaokê (sim isso já foi uma febre), onde todos têm a oportunidade de, além de cantar, voltar a se encontrar consigo mesmos e avaliar os ganhos e as perdas de suas vidas. O clima meio road-movie é tão magnético que parece que estamos juntos na mesma história. Neste filme, descobri como Paul Giamatti é um excelente ator e como Gwyneth Paltrow, além de linda e talentosa, pode cantar divinamente. Veja aí embaixo:

2677 - UMA LIÇÃO DE AMOR

   UMA LIÇÃO DE AMOR (I AM SAM, USA 2001) – O título açucarado em português não diminui a força da história de Sam (Sean Penn, grandioso), um homem com a idade mental de uma criança de 7 anos que é pai de uma garotinha. O roteiro o põe diante da justiça americana, que não o considera capaz de criar a sua filha, especialmente quando ela atinge a idade canônica onde seu pai estacionou. A questão proposta pelo filme é simples. Uma pessoa com as limitações de Sam pode ser responsável por uma criança que, em breve, terá mais capacidade mental que ele? O fato é que a gente acaba se esquecendo desta questão, por causa da atuação comovente de Penn, especialmente quando contracena com a então pequena Dakota Fanning. Entre as inquirições sobre a perfeição física, mental e moral que a sociedade costuma injustamente cobrar, o filme, embora com algumas cenas meio forçadas para o lado sentimental, oferece um profundo mergulho nas considerações sobre o amor entre pais e filhos.

2676 - POSSESSÃO


POSSESSÃO (POSSESSION, UK, 2002) – Ser apaixonado por Literatura e ainda por cima encontrar Gwyneth Paltrow, em Londres, com o coração disponível, e ela se apaixonar por você, só em filme mesmo. Por isso, feliz do personagem de Aaron Eckart, que é um pesquisador atrás da história de amor entre um poeta vitoriano e uma mulher comprometida, que só passa a ser conhecida através das cartas que são descobertas. Sim, cartas antigas, que tal? Sei que, principalmente por causa disso, você adoraria. O filme, em si, é lindo, pelo tema, pelos instrumentos usados. E, claro, ainda há Gwyneth.

2675 - O MESMO AMOR, A MESMA CHUVA

O MESMO AMOR, A MESMA CHUVA (EL MISMO AMOR, LA MISMA LLUVIA, Argentina, 1999) – Na Argentina de 1980, Jorge (Ricardo Darín) é um jornalista que escreve contos românticos para uma revista. Ele é talentoso, uma promessa literária, mas receoso demais em mergulhar de vez no mundo da literatura. Numa noite tempestuosa, Jorge encontra Laura (Soledad Villamil), uma atriz que ganha a vida como garçonete, e fica fascinado ao vê-la na chuva. Eles se aproximam e vivem um romance durante um ano e meio. O namoro dos dois, que atravessa a Guerra das Malvinas, o fim da ditadura militar e o início do governo Alfonsín, se desgasta pela infidelidade dele e é rompido. No final dos anos 90, Jorge é um crítico de arte desiludido, corrompido, e Laura uma bem-sucedida produtora cultural e – como o próprio nome do filme entrega – eles se reencontram. O roteiro acompanha a história dos protagonistas por vinte anos e vai mostrando com extrema habilidade as transformações que os fatos sociais, fracassos e realizações fazem na história de cada um. Tanto personagens como situações são críveis demais e poderiam fazer parte da vida de qualquer pessoa. Esse é, talvez, o maior mérito do cineasta Juan José Campanella: fazer poesia do banal, do corriqueiro, e nos transportar para dentro de seus filmes. O filme é lindo, a começar pelo título. Em determinado momento, Jorge diz a Laura: “O amor não é linear...”. Esta verdade nos toma como um hausto de saudade, ainda mais quando vivemos num mundo tão infenso aos sentimentos que podem durar para sempre. A vida é mesmo constituída de desencontros, e devermos aprender com eles. Pois sempre pode haver um reencontro.

 


2674 - MARY TYLER MOORE, ÚLTIMA TEMPORADA

  MARY TYLER MOORE, 7.a TEMPORADA (MTM, LAST SEASON, USA 1997) – I must tell that watching this last season actually moved me inside. Definitely, I should say that MTM was one of the best shows on TV ever. The show perfectly poised between the traditional mainstream culture reflected in the television of the 1960s and the more farcical, cynical, sex-saturated depictions of young and not-so-young narcissists we have, today. It depicted the emerging paradox of American culture: growing freedom for women (and men) to shape their own lives, accompanied by a new sense of limits and a loss of optimism. In the show, Mary Tyler Moore plays Mary Richards, a well-integrated, genuinely nice, non-narcissistic character who is stuck with a less than ideal life, for a new, less optimistic, age. She works for a mediocre television station and, despite the fact that she is the best catch in America, she can't find a mate. The program also starred Ed Asner as Lou Grant, the outwardly hard-nosed and gruff news editor who is inwardly a pussy cat. The late Ted Knight played Ted Baxter, as the television anchor whose outward appearance as an airhead conceals absolutely nothing underneath. He is self-worshipping, superficial and has no idea of the meaning of many of the stories he relates on the air, all of which makes him a good symbol for the popular culture that was developing in America. Like Diana Christensen, played by Faye Dunaway, in the movie Network, he is television. Betty White plays Sue Ann Nivens, the man-hungry gourmet with a cooking program that is on the same network as the news show. She's Mary's opposite -- conniving, cynical, sarcastic -- just as Lou and Ted represent alternative forms of age and authority: image versus imagelessness, vacuousness versus substance, narcissistic self-absorption versus (more or less) altruistic adulthood. The newsroom, which is the main site of the action, along with Mary's studio apartment, is a kind of trap of banality, made more livable by the fact that Mary is able to bond with the men on her right and left, as if they are her family. Lou is her surrogate father; and Murray Slaughter, the news writer, her brother. Mundane Murray sits next to her, pounding out the words, turning the great and small events of the day into copy that will be butchered by Ted. If the newsroom is a family, then Ted is the idiot uncle and the only one who seems to be in his element. Sue Ann Nivens is the neighbor with an over-active social life. Mary Tyler Moore turned out to be the nexus for, and force behind, some of the best stuff on television. She co-starred on The Dick Van Dyke Show and, as noted, her MTM Enterprises was responsible for The Mary Tyler Moore Show; Rhoda and The Bob Newhart Show. In addition, it produced the program, Lou Grant, the finest drama ever created for television, which depicts journalists who try to solve social problems by telling the truth to the public. Above, you can watch the last show. 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

2673 - O TERCEIRO TIRO

 O TERCEIRO TIRO (THE TROUBLE WITH HARRY, USA 1955) – Este é um filme atípico de Hitchcock. É um belo exercício de humor negro, numa história que gira em torno da descoberta de homem morto, no alto de uma colina, numa cidadezinha do interior da Nova Inglaterra (a fotografia é lindíssima). Parte da graça do filme é que nada realmente acontece, como se o roteiro fosse tirado de um episódio de Seinfeld. A gente já tem uma dica genial do velho Hitch logo nos créditos iniciais: uma sequência de desenhos infantis contando exatamente o que vai se passar na história. Sem que percebamos de início, o roteiro vai nos levando por questões existenciais importantíssimas: vida e morte, juventude e velhice, culpa e inocência, verdades e mentiras, arte e pragmatismo – tudo isso nos é entregue com sutileza e elegância. Hitch, esperto, põe Shirley MacLaine, bem jovenzinha, no seu primeiro papel no cinema, juntamente com atores veteranos, como Edmund Gwenn e Mildred Natwick, esta última como Mrs. Gravely (sacaram a pegadinha do nome?). Shirley é uma viúva que se apaixona por um artista plástico Sam Marlowe (outra referência à literatura policial), interpretado por John Forsythe. Os personagens de Gwenn e Natwick também se aproximam romanticamente. É aí que Hitch mostra o amor nas duas extremidades da vida e faz isso com uma elegância e sensibilidade que andam faltando hoje em dia. Há todo um simbolismo nas cenas (vide a do chá) que, entre outras coisas, enriquece esta joia meio esquecida – injustamente – da filmografia do gênio britânico.   

quarta-feira, 29 de julho de 2015

2672 - LOBO

LOBO (WOLF, USA, 1994) Revisto hoje, LOBO ainda é um ótimo filme de suspense e mistério, que flerta com o horror clássico,  e que funciona muito bem, principalmente por contar com um protagonista como Jack Nicholson. Nenhum outro ator poderia dar, num filme supostamente sério, credibilidade a um personagem que, após ser mordido por um lobo, passa a se transformar em um, nas noites de luar cheia, claro. Curiosamente, a palavra “lobisomem” nunca é pronunciada na história. Carregando a mão no erotismo, sem apelar para a grosseria, Mike Nichols, diretor de A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (1967), procura fazer uma reflexão sobre as possibilidades de os instintos primais do homem aflorarem frente às castrações civilizatórias. Apesar de amaldiçoado com o estigma da licantropia, Will Randall (Nicholson) tem a sorte de encontrar Laura (Michelle Pfeiffer), carente, em meio a uma ingente crise existencial, e ela, claro, se apaixona por ele. Sujeito de sorte, não? É notável como Nicholson, sem alterar a voz e com um mínimo de maquiagem (embora lembre um pouco o Wolverine), consegue demonstrar suas reações, à medida que o lobo dentro dele vai se manifestando. Atenção para a cena em que ele declara seu amor por Laura – é um momento “a bela e a fera” emocionante. Se Nicholson acaba fazendo um ótimo lobo, Michelle Pfeiffer não poderia estar mais gata.  

terça-feira, 28 de julho de 2015

2671 - TRUE BLOOD - 3.a TEMPORADA

TRUE BLOOD, 3.a Temporada (TRUE BLOOD 3rd season, USA 2011) – Esta temporada começa com o sequestro de Bill por lobisomens. Os roteiristas vão dando dicas a respeito das reais intenções de Mr. Compton com Sookie, mas temos a nítida impressão de que, em muitos episódios, eles ficaram sem ter muito o que dizer. O resultado foi uma sequência de capítulos arrastados, sem o frisson da primeira temporada, principalmente. A inserção dos licantropos, a meu ver, ficou um pouco forçada. A genealogia de Sam Merlotte, exposta com a descoberta de sua família interesseira, pouco contribuiu para o espectador ficasse na mesma vibração das temporadas anteriores. Talvez seja melhor resolvida nas próximas histórias. Destaque para a bela Deborah Ann Woll, como Jessica.

2670 - DICIONÁRIO DE CAMA

DICIONÁRIO DE CAMA (THE SLEEPING DICTIONARY, USA 2003) em 1936, um oficial britânico, John Truscott, chega a Bornéu, na Ásia, região dominada pelos ingleses. Segundo os costumes locais, ele tem direito a um serviço inusitado: uma bela jovem é designada a dormir com ele, a fim de ensinar a língua local. Relutante a princípio, John acaba se apaixonando por Selima (Jessica Alba, uma força da natureza) e tem uma surpresa que altera seus planos. O filme é de uma simplicidade palmar, mas funciona, principalmente pela inocência da história e pela fotografia exuberante do cenário tropical. Excelente atuação de Bob Hoskins.

domingo, 26 de julho de 2015

2669 - SIMONE

SIMONE (SIMONE, USA 2002) Apesar do tom de quase comédia, o filme já chamava a atenção para o perigo das celebridades fabricadas pela indústria da fama em geral, um assunto que vem se tornando cada vez mais comum. Al Pacino é Victor Taranski, um diretor de cinema meio decadente que reencontra a fama ao utilizar um programa de computador para criar uma “atriz perfeita”. Surge, então, Simone, por quem todos parecem ficar automaticamente enfeitiçados, sem questionar, em nenhum momento, o que os leva a este grau de ensimesmamento. Curiosamente, a atriz que incorpora a Simone no filme, Rachel Roberts, nunca mais fez nada como atriz. É um filme subestimado pela crítica. Talvez seja redescoberto em algum momento.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

2668 - O TURISTA ACIDENTAL

O TURISTA ACIDENTAL (THE ACCIDENTAL TOURIST, USA 1988) Um dos clássicos dos anos 80, o filme é sobre Macon (William Hurt, soberbo), um escritor de guias de viagens que faz tudo para se manter longe do mundo dos sentimentos. Nem mesmo a tragédia de ter perdido o único filho num assalto, um ano antes, parece colocá-lo em contato com uma certa humanidade perdida. Sua esposa (Kathleen Turner) decide abandoná-lo, e ele vai morar com os irmãos. Neste ínterim, conhece Muriel (Geena Davis, esfuziante), uma treinadora de cães que, aos poucos, vai revitalizando a existência de Macon, mostrando a ele como funciona um amor de verdade. Num determinado momento do filme, Macon escreve, a respeito do que devemos levar na bagagem: “Menos é mais”. Esta fala reflete exatamente as atuações de William Hurt – ele é um ator de minimalismos, de longos silêncios, e é exatamente aí que ele demonstra seu talento. A história é sobre como as pessoas lidam com a perda, em todos os aspectos. A trilha sonora do grandíssimo John Williams é quase hipnótica e em total consonância com o roteiro de Frank Galati.

2667 - ALGUMAS VOZES

ALGUMAS VOZES (SOME VOICES, UK, 2000) É interessante ver Daniel Craig, antes da fama de James Bond, num papel que só confirma que ele é, de fato, um grande ator. Aqui, ele é Ray, um rapaz esquizofrênico que sai da clínica onde vivia, para morar com o irmão (David Morrissey, o Governador de THE WALKING DEAD). Os dois têm uma atuação impressionante, especificamente numa cena mais perto do fim do filme, na cozinha do restaurante onde trabalham. Não é um filme fácil – o que explica sua pouca repercussão – mas pode ser visto como uma história de reencontro, esperança e fraternidade.

2666 - FÚRIA

FÚRIA (TOKAREV, USA 2014) Sim, Nicolas Cage tem feito filmes muito ruins, mas neste ele foi além do tolerável. Porém, neste aqui, ele foi às fímbrias do perdoável. Seu personagem é um ex-policial que tem a filha sequestrada e assassinada e, por causa disso, jura vingança e vai atrás dos criminosos. O roteiro, como se vê, é um primor de falta de originalidade. Para piorar, tudo é mal feito, mal encenado, tudo ruim. O que aconteceu, Cage? Fúria sente quem perdeu tempo para assistir a esta história fraquíssima, com atuações idem.

2665 - HISTÓRIAS DE AMOR

HISTÓRIAS DE AMOR (LIBERAL ARTS, USA 2012) Este é um daqueles filmes que a gente começa a ver sem muita esperança, mas que acaba sendo uma boa surpresa. Jesse (Josh Radnor), depois de formado e já trabalhando em Nova Iorque, volta à universidade onde estudou, para a despedida do seu professor (Richard Jenkins, em outra curta, mas excepcional atuação). Ao chegar lá, conhece Zibby (Elizabeth Olsen, suave e encantadora), cuja alegria e maturidade precoce o fascinam. Jesse ama a literatura e, por causa de alguns reveses, perdeu sua paixão de viver (algo familiar aí, não?). O relacionamento com Zibby e algumas outras conexões encontradas no campus universitário o levam a fazer descobertas essenciais para que ele reencontre a alegria e a esperança. Atenção: na história, há cartas e livros, coisas que sempre nos interessam, não é?

2664 - TARDE DEMAIS

TARDE DEMAIS (BEAUTIFUL BOY, USA 2010) O filme faz um exercício notável no sentido de imaginar a tormenta a que um casal é lançado, depois de saber que seu filho foi o responsável pelo massacre de 21 pessoas na faculdade onde estudava, suicidando-se em seguida. Seguem-se as recriminações mútuas e as inescapáveis indagações – o que fiz, o que deixei de fazer, como não pude perceber. A abordagem é corajosa, pois o “school shooting” talvez seja o fenômeno sociológico americano de que o país mais se envergonha, em função do choque, do horror e da quase total falta de explicações para o fato tão comum quanto traumático. Em mais um desempenho superlativo, Michael Sheen detalha a desintegração de seu personagem, desde o momento em que recebe a notícia até o estágio quase infantil retratado na cena em que a esposa (Maria Bello, também numa grande atuação) o resgata do escuro de um quarto de hotel. O que se mostra mais doloroso, além, claro da tragédia em si, é a sobrevivência quase agonizante dos pais, agravada pela falta de respostas e, talvez, de esperança.  

quinta-feira, 23 de julho de 2015

2663 - PEQUENA MISS SUNSHINE

PEQUENA MISS SUNSHINE (LITTLE MISS SUNSHINE, USA 2008) Obra de referência do cinema indie, o filme toca num assunto fulcral para os americanos: os conceitos de “loser” e “winner”. Para isso, lança mão de um cenário comum a este tipo de produção– a família desestruturada, com todos os arquétipos consabidos: um pai chegado a delírios de grandeza, uma mãe sofrida, o filho desajustado, um avô serelepe e o cunhado depressivo. A filha mais nova, Olive (Abigail Breslin), que tem mania de concursos de beleza, parece ser a mais ajuizada. Repletos de simbolismos locais e universais, o filme, de certa forma, epitoma as frustrações afetivas da classe média, as expectativas em relação aos filhos, os conflitos da velhice e uma cada vez mais precoce adultícia. No elenco, Steve Carell, Toni Collete e Greg Kinnear.  

2662 - AMANTES

AMANTES (TWO LOVERS, USA 2008) Leonard (Joaquin Phoenix) vive no Brooklin e trabalha na tinturaria do pai, que tem planos para ele: casá-lo com a filha do sócio rico e, assim, resolver os problemas práticos e sentimentais ao mesmo tempo. Leonard se sente sufocado e está infenso a qualquer relacionamento amoroso – entende-se isso com mais profundidade, quando ficamos sabendo que a noiva o abandonara, levando-o a algumas tentativas de suicídio. Então, ele conhece uma vizinha, bela e misteriosa (Gwyneth Paltrow), e enxerga nela a possibilidade de se libertar deste imbróglio familiar. Joaquin Phoenix, mais uma vez, mostra que é um dos maiores atores da atualidade. Gwyneth Paltrow, linda e talentosa, é mesmo um sopro de liberdade.

2661 - PARA SEMPRE ALICE

PARA SEMPRE ALICE (STILL ALICE, USA/FRANÇA 2014) Há filmes menores que têm a sorte de contar com atores maiores. É o caso de STILL ALICE. Apesar da abordagem meio perfunctória do impacto da doença de Alzheimer em uma mulher relativamente jovem (Moore) e as reverberações nas pessoas de sua família, a história não engrena em termos de roteiro. A gente tem a sensação que o filme se retrai exatamente quando poderia mergulhar nas situações mais agudas quando a doença – e todo questionamento que ela suscita – se instala inelutavelmente. Não há, no roteiro, a devida exploração dos estágios da dissolução das lembranças, que o paciente acompanha ao mesmo tempo como vítima e espectador impotente. Claro que nada disso oblitera a atuação visceral de Julianne, que ganhou o Oscar deste ano, com todo o merecimento. A surpresa é a sensível e superlativa interpretação de Kristen Stewart (de CREPÚSCULO), especialmente quando contracena com Julianne, nas cenas em que mãe e filha se reencontram numa dimensão existencial.