quinta-feira, 5 de julho de 2012

1359 - ABBOTT E COSTELLO MEET THE KILLER BORIS KARLOFF

ABBOTT E COSTELLO MEET THE KILLER BORIS KARLOFF (USA 1949) - este é um dos mais engraçados filmes da dupla. Costello é Freddie, um camareiro de um hotel onde houve um assassinato, e todas as evidências, claro, recaem sobre ele. Ajudado pelo detetive do lugar, Casey (Abbott), Freddie galvaniza todas as cenas, sempre tirando o máximo de cada situação. Nota-se, claramente, de onde os roteiristas brasileiros de TV da década de 60 e 70 copiaram o modelo. Karloff faz apenas uma rápida aparição, totalmente desnecessária para a trama, mas importante para a comercialização do filme. Nas poucas cenas em que dar o ar da graça está, de fato, muito engraçado, com um visual meio Herculano Quintanilha (é aí que a gente percebe de onde Janete Clair tirou algumas de suas ideias...)

1358 - O DIABO A QUATRO

O DIABO A QUATRO (BRASIL, 2004) - de Alice de Andrade. O filme foca a conexão, nem tão preconceituosa assim, entre Copacabana e o mundo das prostitutas que, sozinhas ou sob a proteção do proxeneta mais próximo, representam muito do glamour noturno da Princesinha. Os elementos da violência urbana compõem o cenário: o bairro está repleto de trombadinhas e garotos de rua que sabem que não têm futuro e policiais corruptos que vendem proteção e exploram os miseráveis. Há a dondoca de classe média (papel de Chris Couto) e o político oportunista (Ney Latorraca, infelizmente num papel pequeno para seu talento). O grande destaque do filme, no entanto, é Maria Flor. Mesmo ainda insegura como atriz, já começava a mostrar lampejos daquela sutileza sensual que viria a ser uma das suas maiores e mais apreciadas características. E se há uma atriz, no escopo ontológico da anima feminina, que consiga levar um filme nas costas (no corpo, na boca, nos olhos...), ela é Maria Flor, que bate no liquidificador dos quadris um suco denso, onde boiam pedaços carnudos de apelo sexual e farelos saborosos de ingenuidade. No filme, esbanja, felinamente e fellinianamente, uma pletora de sentimentos que vai além do próprio personagem, amalgamando-se como uma versão dupla da menina-mulher pós-moderna, ao mesmo tempo decidida e frágil. Mesmo engatinhando na carreira, Maria Flor é muito mais competente do que seu companheiro de cena, o sofrível Marcelo Faria. No mais, é uma oportunidade de ver o contraste entre a Copacabana diurna, com sua rotina quase provincial e o bairro que ferve à noite, com suas prostitutas fazendo ponto nas esquinas feéricas e os inferninhos prometendo as delícias da carne. Em dólar, claro.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

1357 - POR UNS DÓLARES A MAIS


POR UNS DÓLARES A MAIS (PER QUALCHE DOLLARO IN PIÙ, ITÁLIA, ESPANHA E ALEMANHA, 1965) - o segundo filme da trilogia que Clint Eastwood fez com Sergio Leone sobreviveu ao tempo e ainda é um western vigoroso, com uma fotografia notável e uma trilha sonora soberba, sob a batura de Ennio Morricone. A decupagem do diretor italiano ainda é uma aula de cinema: ele consegue costurar com precisão as longas panorâmicas poeirentas com a música de Morricone, como se criasse, a cada sequência, uma nova leitura da cena anterior. O personagem de Clint, vestido com um poncho e sempre com uma cigarrilha pendendo da boca, acabou virando um dos ícones pop da década de 60, tamanha a força interior que o ator emana. Ele compartilha a tela com Lee Van Cleef, cuja ótima atuação não apenas ressuscitou sua carreira no cinema, como garantiu seu retorno no último filme da trilogia. Lee Marvin ia fazer este papel, mas pediu muito alto. Esta segunda edição é um grande exemplo de como as imagens cinematográficas podem se tornar um símbolo maior e mais perene como o próprio filme que as origina.

sábado, 30 de junho de 2012

1356 - ASAS DO DESEJO

ASAS DO DESEJO (WINGS OF DESIRE, ALEMANHA 1987) - de Wim Wenders. Este é um filme para quem tem dificuldade de sentir. Um dos maiores filmes de todos os tempos, equilibra na sua narrativa poética, questões existenciais de uma forma delicada e incisiva. A grande atuação de Bruno Ganz é memorável. Atenção para a fotografia em preto e branco realçando uma árida Berlim um pouco antes da queda do Muro. A participação de Peter Falk, como ele mesmo, é um toque surreal - e magistral - do grande diretor. É para rever sempre. Ver e pensar este filme é um dos maiores prazeres que alguém pode desfrutar na vida. Os desdobramentos de cada sequência reverberam na alma como pedra num lago calmo, naturalmente. É um convite a quem vive no casulo da própria busca, em qualquer tempo.

1355 - DESEJO E PERIGO

Wang Jiazhi (Wei Tang) é uma jovem chinesa que entra na faculdade durante o período de ocupação japonesa, na 2ª Guerra Mundial. Lá ela participa de um grupo de teatro patriótico, tornando-se rapidamente a artista principal. Entretanto os planos do grupo são mais ambiciosos. Eles decidem assassinar o sr. Yee (Tony Leung Chiu Wai), um colaborador do lado japonês. Wang, então, se transforma em Mak, a fictícia esposa de um mercador. Sua função é se tornar amante do sr. Yee, para facilitar a ação do grupo. Apesar de longo, o filme é uma preciosidade do diretor Ang Lee, com contornos poéticos e dramáticos que transformam a história em uma espécie de embriaguez onírica que envolve quem a assiste. É o único filme que vi no qual as cenas de sexo estão totalmente em consonância com o roteiro. Primoroso!

1354 - STAR TREK, O FILME

JORNADA NAS ESTRELAS, O FILME (STAR TREK, THE MOTION PICTURE, USA 1979) - de Robert Wise. O melhor deste filme é a reunião, num longa-metragem, do elenco original da série dos anos 60. Por outro lado, os efeitos, mesmo para a época, me parecem toscos demais, assim como a história compromete muito em função da dificuldade de resolução de algumas sequências do roteiro.

1353 - ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO

ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO (ALIEN, USA 1979) - de Ridley Scott. Hospedeiro do argumento mais original dos filmes que mostram alienígenas escondidos em naves espaciais, esta obra-prima de Scott ainda mostra força para se manter como um dos melhores filmes do gênero que mistura terror com ficção científica. Apesar dos efeitos especiais precários, a condução das cenas e o crescente suspense fazem do filme um festival de sustos que o espectador degusta como a um vinho raro. O elenco também faz a diferença. São todos ótimos atores, com destaque para Sigourney, John Hurt e Tom Skerrit.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

1352 - 2012


2012 (2012, USA 2009) - finalmente, Roland Emmerich conseguiu o que já sugeria em O Dia Depois de Amanhã e Independence Day: acabar com o mundo, tal qual o conhecemos. Partindo da premissa do apocalipse predito no calendário Maia, segundo o qual o mundo acabará em dezembro de 2012, ele procurou um enredo mostrando um painel que mistura o materialismo exarcebado dos países ricos, a vitimização do terceiro mundo, o conflito entre ciência e política, a iconoclastia em relação aos monumentos mais emblemáticos da Terra e o martírio solidário do presidente negro dos EUA diante de um tsunami que destroi a Casa Branca. Os efeitos são excelentes e sua realização é detalhada nos extras do Blu-Ray, em que o trabalho de Emmerich é exaltado com certo exagero. Atenção para a presença linda e radiante de Amanda Peet. O personagem de John Cusack sobrevive ao fim dos tempos e ainda a reconquista, o que dá a todos a esperança de que amanhã sempre poderá ser muito melhor.

terça-feira, 26 de junho de 2012

1351 - MICHAEL JACKSON: A VIDA DE UM ÍCONE


MICHAEL JACKSON: A VIDA DE UM ÍCONE (MICHAEL JACKSON: THE LIFE OF A AN ICON, USA 2011) - documentário sobre a vida de MJ, com entrevistas com a família e os amigos, realizado e narrado por seu amigo David Gest. A produção é muito bem feita e tem como aspecto original o fato de novamente trazer à cena pública cantores e produtores da Motown que fizeram grande sucesso nos anos 60, mas que acabaram esquecidos, muito por causa do apartheid musical da época, que polarizava o cenário musical entre O R&B e o pop em geral, incluindo o rock. Atenção para a entrevista-bomba de La Toya, condenando o irmão pelo suposto crime sexual com crianças, o extenuante julgamento e o melancólico capítulo final, com a morte do ídolo.

sábado, 23 de junho de 2012

1350 - CONFIAR


CONFIAR (TRUST, USA 2010) - dirigido por David Schwimmer, o Ross de Friends, o filme tinha tudo para ser meio clichê, um pouco apelativo, sem muita profundidade. De fato, não foge muito do drama já conhecido do assédio sexual e da pedofilia, especialmente em tempos de Internet. A mensagem é clara e sem muita originalidade, embora verdadeira: não se pode confiar nos relacionamentos on-line, como os que começam em chats, pois nada é o que parece. Na história, os pais de uma adolescente descobrem que ela foi vítima de um ataque sexual perpetrado por um homem de meia-idade que se fazia passar por adolescente. O ótimo Clive Owen interpreta o pai e sua atuação é, de fato, digna do seu talento. No entanto, o filme para aí: as outras atuações são pífias, bem como certas situações do roteiro. Um exemplo disso é a aproximação da menina com o homem, feita meio às pressas, sem convencimento algum.

1349 - TOY STORY

(TOY STORY, USA, 1995) - não foi à toa que John Lasseter, da Pixar, conseguiu a fama de ser um dos pioneiros da animação. Diretor e roteirista, Lasseter lançou Toy Story no momento que o CGI começava a engatinhar e fez uma pequenas obra-prima, para crianças e adultos. O roteiro é um primor de simplicidade: um cowboy de brinquedo fica com ciúmes quando seu dono, Andy, ganha de presente um astronauta, que passa ser o seu preferido. O filme é lindo e merecedor de todas as homenagens.




quinta-feira, 21 de junho de 2012

1348 - TRAIÇÃO EM HONG KONG

BOARDING GATE (FRANÇA 2007) - confuso no roteiro e impreciso nas atuações, o filme pretende ser um thriller de suspense que tem como pano de fundo uma ardente história de sexo e manipulação. No fim, não consegue ser nada disso. O bom Michael Madsen está completamente perdido num papel raso que nem a mão de um bom diretor poderia ajudar. Isto não se aplica a Olivier Assayas, que também assina o roteiro e construiu uma história pretensamente frenética, guiada pela sensualidade agressiva e exótica de Asia Argento, filha de um diretor de fato, Dario Argento. Assayas faz o filme em torno dela, como um mesmerizado espectador. Asia, uma versão latina de Uma Thurman, não tem lá musculatura dramática para levar um filme sozinha, mas é um daqueles rostos que magnetizam, se tiverem à sua disposição um bom roteiro e um diretor com alguma noção, o que não é o caso aqui.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

1347 - PROMETHEUS


(PROMETHEUS, USA 2012) - o britânico Ridley Scott marcou dois golaços no campo cinematográfico, com dois clássicos de ficção científica - Alien - O Oitavo Passageiro (1979) e Blade Runner (1982). Para quem gosta do gênero, Scott é uma espécie de divindade, especialmente por ter concepções originais, enquanto seus seguidores só conseguiram filmes clonados e reciclados de suas ideias. Agora, com "Prometheus", ele procura dar um prólogo para "Alien" e, ao mesmo tempo, tangenciar as premissas do antológico "Blade Runner". Este novo filme ainda exige um tempo de assimilação para se tornar um marco, como os outros dois, mas não há como negar que estamos diante de um espetáculo visualmente elaborado e intelectualmente estimulante, que flerta com a gênesis humana e as questões ontológicas pertinentes ao tema. O problema intrínseco de ter realizado uma obra seminal, como "Alien", é a dificuldade de fugir aos parâmetros cênicos do original. Portanto, lá estão os sustos, as gosmas, a invasão tentacular do ser desconhecido, os membros da equipe que inocentemente tentam contato com o incógnito, ou seja, todo o arcabouço da história cuja protagonista, Tenente Ripley, rompeu com o machismo heroico dos pioneiros do espaço. A vertente feminista continua agora, com Noomi Rapace e Charlize Theron nos papeis de mais destaque. Neste primeiro momento, não achei os personagens de Michael Fassbender e de Charlize Theron à altura de seus intérpretes: os dois são atores talentosos demais para se limitarem a atuações literalmente robóticas (leve pisada na bola de Scott que, no entanto, tem crédito na casa). Há quem vá achar o filme muito pretensioso, em função de sua abordagem filosófica, cosmológica e teológica, beirando o hermetismo conceitual que costuma ser a armadilha de tais roteiros. Aí, talvez, esteja o ponto nodal da trama: a mistura da curiosidade pelo desconhecido com a fascinação pelo impossível. A criatura primeva - os humanos? os aliens? - realmente causa ojeriza, mas esta repulsa faz parte de um discurso narrativo global que não é apenas prazeroso, mas cujo prazer potencial depende da confirmação da existência do monstro como ser que viola, desafia e problematiza as classificações culturais e metafísicas vigentes. Esperava mais do filme e de Scott, que muito prometeu, mas pouco cumpriu.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

1346 - TWO AND A HALF MEN - QUINTA TEMPORADA

TWO AND A HALF MEN, QUINTA TEMPORADA (USA 2008) –esta temporada tem episódios memoráveis. Um deles é uma paródia do C.S.I., no qual um corpo é encontrado na cama de Charlie, e a polícia passa a procurar o assassino. Em outros, Charlie se reinventa como cantor de músicas para crianças. Um muito engraçado é quando Alan se submete a um teste de um novo remédio e começa a sentir o que ele acha serem os efeitos colaterais. Nesta temporada, Robert Wagner faz o namorado de Evelyn. 

1345 - O SEGREDO DAS VIÚVAS

O SEGREDO DAS VIÚVAS (LOVE NEST, USA 1951) – o roteiro é igual a muitos das sitcoms da década de 50: casal compra um prédio antigo, cheio de problemas estruturais e inquilinos supostamente engraçados, que causam confusões inesperadas. Nada, porém, que chegue ao nível de I Love Lucy ou The Dick Van Dyke Show, com Mary Tyler Moore. O que chama  atenção neste filme é a participação de Marilyn Moore, ainda longe da fama, meio escondida entre o elenco de apoio. No entanto, aí é que se vê como ela tinha msmo nascido para a lente da câmera e para o estrelato, apesar de ter sido uma atriz mediana: nas suas poucas cenas, ela brilha tão intensamente que a gente logo se esquece da protagonista – a nem tão bonita assim June Haver – e começamos a esperar que ela apareça na cena seguinte. Numa das sequências, ela aparece de biquini, o que obrigou o diretor Joseph M. Newman a fechar o set durante a gravação, devido à comoção compreensivelmente causada.

1344 - GLADIADOR

GLADIADOR (GLADIATOR, USA 2000) – de Ridley Scott. Eis um filme que ficou melhor ainda em Blu-Ray: a primeira – e impressionante – batalha cresceu em dramaticidade e impacto, além, claro, das magníficas cenas no Coliseu, que assumiram uma grandiosidade enebriante com a dosagem titânica de linhas em alta definição. Agora, tenho um pouco mais de paciência com Joaquin Phoenix e reconheço que, como Commodus, ele realmente personifica o Mal elevado à maxima potência, embora estereotipe em algumas cenas. Não há como não se emocionar com as derradeiras atuações de Richard Harris e Oliver Reed. Outra coisa: é uma bela história que sublima os clichês do gênero, misturando ótimos efeitos e diálogos enxutos, para reforçar a intenção de Scott de recriar uma Roma antiga mais realista. E, acima de tudo, há Russel Crowe, um ator tão visceral e tão arrebatador em suas performances, que nos põe a dialogar com ele, em cada cena que aparece.

domingo, 10 de junho de 2012

1343 - O RITO

O RITUAL (THE RITE, USA 2011) – o filme segue, de certa forma, o mesmo ritual dos filmes de exorcismo: um padre novato, cético, claro, conhece um bem mais velho (o grande Anthony Hopkins), que o convence da existência do demônio e o inicia na prática do expurgo dos maus espíritos. O personagem de Alice Braga não tem muito sentido e fica entre o politicamente correto e a intenção de passar mensagem alguma. Rutger Hauer tem uma participação pequena, mas marcante. E é de se lamentar que não se tenha dado mais espaço para Maria Grazia Cuccinota, a bela italiana do poético O Carteiro e o Poeta. Creio que o roteiro não se sustentaria sem a presença dramática de Hopkins que, convenhamos, mereceria filmes melhores. 

1342 - DEIXE-ME ENTRAR

DEIXE-ME ENTRAR (LET ME IN, USA 2010) – o diretor americano Matt Reeves repetiu, quase que quadro a quadro, a produção sueca “Deixa Ela Entrar”, de 2008. O que pode parecer falta de originalidade é, de fato, um sinal de reverência ao diretor Thomas Alfredson, que pilotou o original com grande talento. Só assim se pode entender uma refilmagem tão reflexa, que praticamente refaz quase tudo, apenas se limitando às adaptações necessárias ao entorno americano. Quem viu o filme sueco pode cotejar as duas produções, sendo que a original tem um tom ligeiramente mais sombrio. Este é um bom exemplo de como a ficção de horror exerce seu fascínio no publico, ao caracterizar o personagem principal (a menina Abby) como um ser impuro, reconhecidamente fora da ordem natural das coisas tal como ela é estabelecida por nosso esquema conceitual: Abby é a imagem da inocência. Apenas a imagem. No resto, tudo muito igualzinho. Podia até se chamar “Deixa-me Refilmar”. 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

1341 - TODA FORMA DE AMOR

TODA FORMA DE AMOR (BEGINNERS, 2011) – perto dos 40 anos, Oliver (Ewan McGregor, estupendo) perde a mãe e seu pai anuncia que vai se assumir “gay”. Estes fatos o atingem e forma devastadora, o que vai dar início a uma resconstrução pessoal tendo como contraponto a felicidade libertária do pai. Christopher Plummer que, aos 82 anos, tornou-se o ator mais velho a receber o Oscar, tem uma atuação emocionante e inspiradora, sublinhando com sutilezas as alegrias recém-descobertas, a partir do momento que saiu do armário e passa a ter contato com a beleza desajeitada da autodescoberta. No entanto, é o escocês Ewan Mcgregor a alma do filme, no papel do filho que começa a se descobrir muito menos corajoso que o pai, especialmente diante da possibilidade de ser feliz com a francesa Ana (Mélaine Laurent, de Bastardos Inglórios). A percepção do passar do tempo se agudiza dramaticamente quando um fato inesperado abrevia esta fase de descoberta do próprio pai. E atenção para Arthur, o cachorro de Oliver. 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

1340 - UM CONTO CHINÊS

UM CONTO CHINÊS (UM CUENTO CHINO, ARGENTINA, 2001) o filme é uma dessas joias que, felizmente, o cinema portenho vem nos oferecendo há alguns anos. É incrível como os argentinos desenvolveram a capacidade de contar com simplicidade, bons diálogos e ótimos atores uma história cotidiana que em mãos menos hábeis não teria o mesmo resultado. “Um Conto Chinês” prima pelo bom humor e pela capacidade de se fazer bom cinema com donaire, sem efeitos de câmera publicitária como gostam os diretores brasileiros, e para grandes plateias. E eles ainda têm a sorte de contar com patrimônio nacional, que é Ricardo Darín, sustentando sozinho esta comédia dramática do diretor Sebastián Borensztein. Enxuto no tom, austero na encenação, simples mas preciso na execução e primorosamente escrito, o filme se alinha a uma corrente que vem ganhando corpo no cinema argentino: competência no drama sentimental (sem os arroubos tradicionalmente trágicos em excesso que caracterizam a “anima” portenha), no realismo  intransigente, na vocação memorialista e no experimentalismo. Aqui, o choque de culturas ganha novos contornos ao colocar frente a frente, num golpe do destino, um chinês perdido em Buenos Aires e o metódico e rabugento dono de uma pequena loja de ferragens, vivido com brilhantismo por Darín. É deste encontro inusitado que vai aflorar um resgate marcante com emoção perdida nos desvãos das vidas de duas pessoas tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão idênticas na capacidade de experimentar a própria dor. 

1339 - ARMADILHA DO DESTINO

ARMADILHA DO DESTINO (WRECKED, USA 2010) – este é um daqueles filmes que começa pelo fim: no meio de um bosque, um homem (Adrien Brody) acorda dentro de um carro, após um acidente que provoca a morte dos outros ocupantes, e, muito machucado, não se recorda de nada. Então, tenta sair das duas prisões – a primeira são as ferragens do próprio carro e a segunda, a solidão da floresta. Aos poucos, as lembranças vão voltando. É um roteiro difícil, principalmente para o protagonista, pois ele tem que praticamente atuar sozinho, com pouquíssimas falas. O que salva o filme é precisamente é a atuação correta e sensível de Brody que, por sinal, vem se esforçando para conseguir bons papeis, desde que conseguiu o Oscar, em 2002, por seu trabalho em O Pianista. 



1338 - O PODER E A LEI

O PODER E A LEI (LINCOLN LAYWER, USA 2011) - Michael Haller (Matthew McConaughey, surpreendentemente bem no papel) um advogado criminal que procura o seu grande caso para o sucesso mas que no entanto vai aproveitando as oportunidades que lhe aparece para ganhar algum dinheiro defendendo toda a espécie de clientes. Sem se esforçar muito aceita na maior parte das vezes casos fáceis de ganhar algum dinheiro simples tais com motoqueiros, prostitutas, vigarista, motoristas bêbados e traficantes de droga, de forma a garantir o seu ganho do dia-a-dia, pois para este advogado a lei raramente é sobre a culpa ou inocência - é sobre a negociação e a manipulação. Às vezes é até mesmo sobre a justiça. Mas certo dia o grande caso da sua vida aparece e tudo aparenta que vai mudar o ruma da sua carreira, defender um rico playboy que se meteu num grande problema, porque acaba por ser acusado de violação e tentativa de assassinato de uma prostituta. 
Aparentemente o que parecia a Michael mais um caso fácil onde podia ganhar grandes somas de dinheiro fácil, acaba por descobri que afinal não mergulhou no mar de rosas, mas que tudo acaba por muda de figura quando na realidade ele descobre que este caso lhe transforma a vida num louco e perigoso jogo de sobrevivência. Descobre que o cliente mente e encobre uma verdadeira intriga chegando mesmo a identificar que poderá haver ligação com um anterior, estranho e misterioso caso passado pelas suas mãos, cujo ex-cliente compre pena de prisão. Para escapar sem ser queimado, ele deve implementar cada estratégia, despiste, e instinto como sua fiel arma para poder desta vez salvar sua própria vida e de sua família. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

1337 - O MISTÉRIO DA RUA 7


1.      MISTÉRIO DA RUA 7 (VANISHING ON 7TH STREET, USA 2010) - O filme partilha dessa mesma premissa moral com uma novidade: a mescla do subgênero ficção científica pós-apocalipse com o terror. O resultado é um surpreendente encontro entre a religião e o pensamento ecologicamente correto que encobre a velha estrutura clichê moralista da narrativa hollywoodiana: quebra-da-ordem-e-retorno-a-ordem, isto é, a punição dos personagens que ousam quebrar a ordem moral, política, social e, no caso desse filme, o pensamento ecologicamente correto. O filme inicia até com uma interessante sacada metalinguística. O projecionista Paul (John Leguizamo) exibe a comédia mais recente de Adam Sandler enquanto folheia um livro sobre demônios antigos. Entediado, critica o filme como previsível desde o início. De repente as luzes se apagam e todos no cinema desaparecem, deixando para trás suas roupas, com exceção de Paul que estava com uma lanterna.Nas próximas sequências vemos outros três personagens (o repórter de TV Luke - Hayden Christensen – a fisioterapeuta Rosemary – Thandie Newton – e o quase órfão James – Jacob Latimore) que sobrevivem em refúgios de luz enquanto todos vão desaparecendo ao redor. Os dias estão ficando mais curtos e a escuridão mais longa. Logo percebem que há em meio à escuridão  vozes e vultos ameaçadores, seres de origem desconhecida à espera de que as luzem se apaguem para sumirem com as pessoas desse mundo. Mas em “Mistério da Rua 7” temos uma novidade: a entrada do discurso ecológico como uma nova base moderna para o fundamentalismo moral. O subgênero cinematográfico com temas apocalípticos parece adotar a temática ecológica para criar um novo tipo de moralismo onde todas as catástrofes do planeta (tsunamis, terremotos, nova era glacial etc.) seriam decorrentes dos pecados humanos. Tecnologias “sujas” (química-industrial) como decorrência direta da mentalidade suja e decadente da humanidade. O fundamentalismo ecológico encontra-se com o puritanismo moral.

1336 - QUO VADIS

QUO VADIS (QUO VADIS, USA 1951) - Após três anos em campanha, o general Marcus Vinicius (Robert Taylor) retorna à Roma e encontra Lygia (Deborah Kerr), por quem se apaixona. Ela é uma cristã e não quer nenhum envolvimento com um guerreiro, mas apesar de ter sido criada como romana Lygia é a filha adotiva de um general aposentado e, teoricamente, uma refém de Roma. Marcus procura o imperador Nero (Peter Ustinov) para que ela lhe seja dada pelos serviços que ele fez. Lygia se ressente, mas de alguma forma se apaixona por Marcus. Enquanto isso as atrocidades de Nero são cada vez mais ultrajantes. Quando ele queima Roma e culpa os cristãos, Marcus salva Lygia e a família dela. Nero captura os todos os cristãos e os atira aos leões, mas no final Marcus, Lygia e o cristianismo prevalecerão. O grande barato deste filme é a atuação de Peter Ustinov como o ensandecido Nero. 

1335 - STAR TREK

STAR TREK (STAR TREK, USA 2009) - James Tiberius Kirk é um adolescente rebelde de Iowa sempre em busca de emoções, um líder por natureza à procura de uma causa. Spock cresceu no planeta Vulcano, excluído por ser metade humano. Ele é um aluno engenhoso e o primeiro de sua raça a ser aceito na Frota Estelar. Em sua busca para descobrir quem realmente são e o que têm a oferecer ao mundo, Kirk e Spock logo tornam-se competitivos cadetes em treinamento. Com estilos drasticamente opostos, um movido por paixão, o outro, por lógica, tornam-se adversários, fazendo de tudo para estar entre os escolhidos da mais avançada nave já criada, a U.S.S. Enterprise.

terça-feira, 22 de maio de 2012

1334 - PADRE

PADRE (PRIEST, USA 2011) thriller pós-apocalíptico que tem como cenário um mundo alternativo, no qual vampiros e a humanidade lutam entre si há séculos. O ótimo Paul Bettany faz um padre que é obrigado a viver numa cidade completamente controlada pela Igreja, até que tem que entrar em ação contra os vampiros que seqüestraram sua sobrinha. É o tipo do filme “nem aqui nem lá”, se é que me entendem. Não? Pois é, talvez seja um filme para não ser levado a sério mesmo, apesar da presença de um ator muito bom, como Bettany – e de sorte, pois é casado coma Jennifer Connely. 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

1333 - SHAME

SHAME (SHAME, INGLATERRA 2011) – não fosse o diretor Steve McQueen também um artista plástico, “Shame” não seria o que é: um filme como uma escultura, uma instalação mais ou menos permeável à interação com o espectador, uma tela onde convivem tintas fortes e angustiantes. Toda a narrativa do filme gira em torno de Brandon, magnificamente interpretado por Michael Fassbender, um personagem que é a própria personificação do que há de mais paradoxal no ser humano. Brandon é um viciado em sexo. Não alguém que gosta de sexo, ou que apenas faz muito sexo, mas alguém patologicamente dependente de sexo. Mais que um atalho escapista, sexo, para ele, é um ritual de auto-humilhação e degradação, como se sua vida não representasse nada e fosse um vazio niilista que, numa metáfora ousada, mais se aproxima de um buraco negro, num processo autofágico que assusta, de tão real. Brandon está numa bolha – todos os dias, a mesma rotina: metrô, trabalho, sexo, drinques em locais “descolados” em Manhattan e mais sexo. Sempre imerso numa solidão cósmica que parece não acabar, mesmo com a chegada de sua irmã (Carey Mulligan), outra solitária, porém mais conectada com a vida, seja pela música ou pelos desencontros amorosos. Numa cena, Brandon vai vê-la cantar “New York, New, York”, cuja letra parece refletir o mundo cruel e competitivo da grande cidade: numa ideologia neoliberal, só não vence quem não tem competência para isso. Mas o que é “vencer”? O que é essa necessidade brutal que nos faz correr ansiosos para o futuro, enquanto a vida só está no presente? Brandon está mergulhado até a raiz dos cabelos cuidadosamente penteados com gel nesta corrida maluca e acometido por um vício que, paradoxalmente, envolve o outro, mas só desenvolve o isolamento social e psíquico. Isso fica claro quando se encontra com Marianne, uma colega de trabalho e, inesperadamente, brocha – este é o ponto de inflexão decisivo de “Shame”, pois qualquer rachadura na redoma de sua vida o faz tremer e perder a suposta segurança que o mantém vivo. Marianne não é uma prostituta ou uma mulher que ele não verá no dia seguinte, mas sim uma mulher com todas as qualidades amoráveis que ele não consegue ver e que acredita em relacionamentos. Ao não conseguir ter sexo com a mulher de quem se aproxima de forma um pouco mais consistente, o personagem entra em uma espiral que o leva a uma catarse profunda. Só esta reflexão justifica assistir ao filme que, entre outras coisas, lida com habilidade incomum e corajosa, com as incoerências que tanto abominamos em nós e nos outros, mas que – não há como negar – é matéria inerente à constituição existencial do homem pós-moderno. Sem aprontar soluções, o filme coloca Brandon, na última sequência do filme, de volta ao cenário da primeira cena, impecavelmente vestido, dando em cima da mesma passageira. Um cartaz, dentro do trem, dá um toque ao mesmo tempo irônico e intrigante, porém bem consonante como o ritmo da selva de pedra e aço: “Improving, don’t stop” (“Melhorando, não pare”). Talvez aí esteja a sutil solução – ou o começo dela – para gente como Brandon, em todas as partes do mundo. 

sábado, 12 de maio de 2012

1332 - EU SOU O NÚMERO QUATRO

EU SOU O NÚMERO QUATRO (I AM NUMBER FOUR, USA 2011) - aula de matemática - nove alienígenas fugiram do planeta Lorien, onde eram conhecidos por números, para se esconder na Terra. O objetivo era se esconder dos Mogadorians, inimigos que precisam eliminar todos eles - e na ordem certa - para que poderes especiais não possam ser usados contra eles no futuro. A caçada já começou e os números Um, Dois e Três já foram assassinados. O número Quatro vive disfarçado entre os humanos, como John Smith (Alex Pettyfer), ajudado por seu protetor Henri (Timothy Olyphant) na tranquila cidade de Paradise, em Ohio. Enquanto descobre seus novos poderes, Smith conhece a estudante Sarah Hart (Dianna Agron) e se apaixona por ela, colocando em risco a vida de ambos e o futuro de sua raça, porque o inimigo já o localizou. A sua sorte é que a número Seis (Teresa Palmer) também o encontrou e ela pode ajudar na batalha. Há uma série de coisas mal explicadas no roteiro deste filme fraco, baseado numa premissa sem sentido – daí os furos, pois fica muita coisa sem explicação. Alguns efeitos razoáveis e uma bela atriz, Diana Agron, de Glee.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

1331 - A SUPREMA FELICIDADE

A SUPREMA FELICIDADE (BRASIL, 2011) – Arnaldo Jabor volta a filmar, depois de 25 anos. Necessariamente, um bom diretor não perde a mão, se deixar de botar a mesma na massa cinematográfica por tanto tempo, mas esta retomada me deixou um pouco perdido em relação ao que o filme realmente se relacionava. Há um certo descompasso entre a proposta memorialista/nostálgica e a tentativa de emular a estética felliniana. Notei uma teatralidade forçada nos diálogos – muito talvez porque Jabor venha sendo muito mais um escritor do que um diretor de cinema nos últimos tempos. A verborragia dos personagens os descaracteriza da humanidade que o diretor/autor pretendeu, quando costurou sua colcha de retalhos das lembranças de sua vida durante os anos 40 e 50. A edição retalha com mão muito pesada o espaço temporal do filme em um vai-e-vem que só prejudica a evolução do personagem central. Há, entretanto, algumas luzes que prendem a atenção e que, não por acaso, são oriundas mais das atrizes do que dos seus personagens: Maria Flor sequestra nossa atenção em apenas duas cenas, e Tammy Di Calafiori, que começa apenas como um clone de Marilyn Monroe e, na cena seguinte, num dos raros bons diálogos do filme, faz o espectador se dar conta de que está diante de uma atriz que promete. 

terça-feira, 1 de maio de 2012

1330 - ADRENALINA 2

ADRENALINA 2 (CRANK: HIGH VOLTAGE, USA 2009) – se o primeiro filme até que tinha uma boa premissa – homem envenenado precisa estar sempre “pilhado” para que o veneno não o mate - , esta sequência descamba para o esculacho geral, na trama que conta como Chev Chelios (Jason Statham) sobreviveu à queda de um helicóptero (!) e teve o coração roubado, literalmente, por uma gangue chinesa, que queria o órgão para ser implantado num chefão mafioso. Pois é, nada mais louco, não? Acontece que, neste tipo de filme, não dá para sermos lógicos ou coerentes. O que vale é o conceito, e basta aceitar que uns podem gostar e outros não. Nada de mergulhos radicais em interpretações mirabolantes sobre o que o diretor quis dizer. Embarca-se na trama como se entra numa montanha russa, esperando apenas sustos e excitação visual. É isso que o filme propõe, e nada mais devemos esperar dele. A simpática Amy Smart volta ao papel da esposa de Chelios e dá ao filme charme e a sensualidade que os aficionados pelo gênero também apreciam. Uma surpresa; David Carradine aparece numa cena rápida, como um chinês idoso, numa referência clara a Kung Fu.