quinta-feira, 13 de novembro de 2014

2441 - MAZZAROPPI

(BRASIL, 2012) - Fenômeno histórico do cinema nacional, Amácio Mazzaropi (1912 – 1981) é, em parte, um mistério. A popularidade do comediante era proporcional a sua discrição pessoal: até hoje, pouco se sabe sobre sua intimidade, da homossexualidade à fortuna que acumulou ao longo de quase 40 anos de carreira no cinema. Ainda que se concentre mais em seu trabalho do que em questões de foro íntimo, o documentário Mazzaropi ajuda a desvendar o homem que, segundo pesquisadores, pode ter vendido 200 milhões de ingressos nos cinemas – em uma época em que o Brasil não tinha 100 milhões de habitantes. Trata-se do primeiro longa dirigido pelo crítico paulista Celso Sabadin. Seu personagem era sempre o mesmo: um caboclo indolente, conformado e desengonçado, com os dentes cariados e a camisa xadrez fechada até o pescoço. Ao homem por trás dele, no entanto, apesar do preconceito dos bem-nascidos, não faltava astúcia e uma ampla e perspicaz visão de mercado.
 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

2440 - O SHOW DE TRUMAN

(THE TRUMAN SHOW, USA 1998) - Tudo neste filme excepcional nos leva a refletir sobre a natureza da verdade. Pode-se começar com o nome do personagem principal, vivido por Jim Carrey, Truman. Percebem? Truman, ou "true man"? Ele é um vendedor de seguros. Vender seguros? Nada mais diametralmente oposto ao argumento do filme, no qual Truman vive numa imenso cenário, cercado de atores comandados por um diretor responsável pela transmissão do show do título. Toda esta premissa nos remete ao ceticismo gnóstico de Jean Baudrillard. A secreta gnose do seu pensamento: a busca pela “pura aparência”. Se a realidade é uma ilusão e todos os discursos das ciências e das mídias são mobilizados para simular um efeito de realidade que crie uma aparência de sentido às instituições políticas, econômicas e sociais, então a nossa “última chance” é a “pura aparência”: combater a aparência que simula sentido com outra aparência, tão ilusória quanto a “realidade” que nos cerca. O filme “Show de Truman” talvez seja aquele que mais didaticamente apresenta esta estratégia fatal que explodiria os efeitos de realidade dos discursos dominantes. A liberdade criticada pelo filme não está somente no fato de o personagem principal estar enclausurado em um reality show. Também há uma crítica com relação à liberdade amorosa, à liberdade de ir e vir, dentre outras; inclusive há também uma crítica à religião como um todo, como se fosse algo que restringisse a liberdade do ser humano. Com muita inteligência, o diretor Peter Weir coloca Seahaven – uma “ilha” na qual Truman vive – o cenário do maior reality show que o mundo já viu. Nota-se que o nome da ilha significa “Paraíso do mar”. Nesse “ paraíso ersatz”, uma só pessoa é a estrela, o personagem principal (e o único que não sabe que é personagem, pois vive sua vida de forma real). O resto todo são atores, participantes do programa. Lá, tudo é mentira. Os amigos de Truman, a esposa, o emprego, a cidade. “Não há nada de falso no próprio Truman”. Essa frase é de Christof, o criador do programa, o criador de tudo. Obviamente, não pode haver nada de falso em Truman. Por quê? Porque ele, como já dito, é o único que vive uma vida real, em que não é personagem. Além disso, seu nome: Truman: em inglês = True + man, que, ao traduzir para o português: verdade + homem, ou seja, Trumam = o homem verdade, o homem verdadeiro, o verdadeiro homem. Interessante notar que toda a desconfiança por parte de Truman se dá no início do filme, com a queda de uma luminária, que seria parte do cenário do programa, correspondente à estrela Sirius. Vejam, uma “luz” traz iluminação para Truman, e, assim, traz também o início do “conhecimento”, da verdade. a crítica à religião, ou melhor, à Deus. O nome do criador do programa é Christof, que, em inglês, pode ser decomposto em: Christ + of. Traduzindo para o português = Cristo + de, ou seja, de Cristo, de Deus. Programa de Deus ou programação de Deus. Nesse viés, o mundo de Deus é um mundo de mentiras e, somente se livrando dele, como Truman faz no final do filme, é que se consegue atingir a liberdade, a verdade, enfim, é que se consegue ser um homem de verdade. Uma vida verdadeira, uma vida mais livre envolve muitas dificuldades, muitos sofrimentos. Perceber a ilusão é o primeiro passo. Depois, aos poucos, vem os outros, igualmente difíceis. Assim, Truman se livra de sua vida de mentiras. E todos comemoram: o povo do bar, as senhoras do sofá de casa, o homem na banheira e os dois vigias. Por fim, o programa acaba. É o fim da transmissão. Com isso, um dos seguranças diz: “Não tem mais nada para ver”. E vão mudar de canal. Ou seja, não foi somente Truman que se livrou de sua prisão. Todos os telespectadores também se libertaram de quase trinta anos de programa.
Percebe-se, assim, que existe um mundo mais verdadeiro, um mundo mais livre. Mas é preciso ter luz, é preciso conhecer, é preciso, enfim, ter olhos de ver e ouvidos de ouvir. Claro que também se pode abordar o MITO DA CAVERNA, de Platão, através das alegorias do enredo: só "rompendo" as ilusões sombrias da caverna onde vive, que o homem pode chegar ao conhecimento da realidade. Também podemos entender que Shakespeare tinha razão, ao dizer que "o mundo é um palco, e nós, apenas atores". Eu não lembrava que Holland Taylor, que faz a mãe de Charlie e Allan, em TWO AND A HALF MEN, está no filme. A bela e talentosa Laura Linney faz a esposa de Truman. O filme é uma clara metáfora de nossa situação no mundo, pois enfatiza que o cenário falso em que vivemos também é o cenário que a mídia constrói notícias, política, propaganda e relacionamentos como ilusões teatrais.





 
 
 
 
 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

2439 - ONZE HOMENS E UM SEGREDO

(OCEAN'S ELEVEN, USA 2001) - Rever este filme é sempre um prazer, por mais que o tempo passe. Se comparado ao excelente OCEAN'S ELEVEN original, com Frank Sinatra, este é dez vez melhor, das atuações ao roteiro, das locações ao clima de verdadeira amizade que transparece em cada cena. Raramente se viu um grupo de atores famosos tão à vontade, fazendo tudo profissionalmente, mas com evidente prazer de estar juntos, se divertindo e quase convidando o espectador para participar da história com eles. Regido com maestria pelo gênio Steven Soderbergh, tudo parece funcionar perfeitamente neste filme. Os cortes de cena, os diálogos engraçados, as locações feéricas de Las Vegas - sim, há um plano mirabolante e fascinante de roubar três enormes cassinos da cidade - vão se superpondo de maneira quase hipnótica, sempre ao som de "A little less conversation", com Elvis Presley. George Clooney está perfeito, assim como Brad Pitt e Andy Garcia. Mas, ainda temos Carl Reiner, Don Cheadle, Matt Damon e Julia Roberts. Puro deleite para quem gosta de cinema e de uma história bem contada. Tecnicamente, Onze Homens mistura elementos do clássico Golpe de mestre (1973) com o ágil Snatch (2001). Do primeiro, copia toda a preparação detalhada do grande golpe. Do segundo, reutiliza recursos de edição e montagem, de velocidade e trilha-sonora, como num videoclipe. O resultado agrada, logicamente, pela energia que sai dos astros. Soderbergh deixa o ritmo cair levemente durante o clímax e o desfecho, mas nada que prejudique. Nesse ponto, o espectador já mantém uma ligação forte com a trama, com os astros e com suas personagens.  
 

domingo, 9 de novembro de 2014

2438 - GODZILLA (2014)

(GODZILLA, USA 2014) - O primeiro Godzilla surgiu no Japão, em 1954, como uma elegia aos mortos pela bomba de Hiroshima. A partir daí, o bichano ressurgiu em várias produções, lutando contra todo tipo de monstro (brigou feio até com King Kong, num filme assim assim da década de 60), sempre com uma característica marcante: a gente sempre achava que ele seria o vilão das histórias, mas, no fim, era ele que acabava resolvendo a parada, destruindo um outro monstro bem mais sinistro). Neste filme, os efeitos são excelentes, não há como negar, mas há dois desastres que nem Godzilla pôde evitar: um roteiro bem ruinzinho, que passa quase uma hora e meia às voltas com um conflito familiar que nada traz de relevante à história, pois, convenhamos, num filme de Godzilla, a gente quer mesmo é ver o monstro em ação e não pais se que se separam dos filhos para, depois, se reconciliarem com eles. Outro desastre: o pior de todos os protagonistas de todos os filmes até então feitos na face de Terra, Aaron Taylor-Johnson (de KICK-ASS, 1 e 2), foi incapaz de qualquer expressão facial além da única que parece ter, estando ele brincando com o filho em casa, ou diante da carantonha de Godzilla. Talvez o pessoal dos efeitos especiais pudesse ter feito alguma coisa para que este rapaz parecesse estar minimamente atuando. A fraca Elizabeth Olsen também não convence e poderia muito bem ter sido, juntamente com Aaron Taylor-Johnson, uma das razões pelas quais Godzilla quer destruir o mundo.   
 

2437 - HOPE SPRINGS

(HOPE SPRINGS, USA 2003) - Quando o artista plástico Colin Ware (Colin Firth) descobre que o amor da sua vida e noiva Vera (Minnie Driver), uma sedutora e sofisticada mulher sem escrúpulos, vai casar com outro homem, decide viajar para a América, mais precisamente para Nova Inglaterra, para a pequena cidade de Hope para se dedicar exclusivamente à sua arte e esquecer tudo o resto. Então, como sempre acontece neste tipo de filme, ele encontra Mandy (Heather Graham, mais que linda), uma encantadora e divertida mulher por quem - claro - ele se apaixona – até Vera aparecer de surpresa e embaralhar tudo. Pois bem, qual o problema do filme? Embora eu goste muito do Colin Firth, ele apenas repete aquele ar de britânico abobalhado e confuso ao entrar em contato com a cultura americana, como se, hoje em dia, com o mundo todo conectado, um estrangeiro pudesse se sentir como que pisando num planeta alienígena ao visitar outro país - cuja língua é a mesma, diga-se de passagem. Ao rever o filme, fiquei pensando que, talvez, Hugh Grant pudesse ter feito o papel, embora provavelmente corresse os mesmos riscos. Outra falha no roteiro: fica difícil de acreditar que uma mulher se apaixone instantaneamente pelo personagem de Firth, um dos mais desenxabidos da carreira do ator. Este personagem, pasmem, ainda é alvo de disputa, quando a ex noiva cruza o Atlântico, para reatar o relacionamento. Para piorar, dois excelente atores, Mary Steenburgen e Oliver Platt, estão completamente subaproveitados.  
 

2436 - 2 COELHOS

(BRASIL, 2012) - Surpreendente filme escrito e dirigido por Afonso Poyart, com ação vertiginosa, descaradamente inspirada nos blockbusters americanos. Até aí, nada demais: tudo é muito bem feito, das perseguições de carro pelas ruas de São Paulo às ações dos personagens, sempre conectados à alta voltagem de um roteiro que atira para todos os lados: referências ao universo pop, reviravoltas incessantes, montagem em alta velocidade, slow motion a mancheias, grafismos, trilha sonora ao estilo de videoclipe, trama com estrutura não linear e um texto de qualidade que, em alguns momentos, evoca Tarantino, sempre flanqueando a crítica social, política, urbana, ou o quer que cruze o caminho dos protagonistas, Fernando Alves Pinto (sobrinho do Ziraldo), Alessandra Negrini, Caco Ciocler e Marat Descartes. O filme é um mais que bem-vindo desvio da mesmice do cinema brasileiro da atualidade que, ultimamente, parece obcecado por egotrips de comediantes sem graça e pela cópia ruim das novelas da Globo.   
 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

2435 - ROBOCOP (2014)

(ROBOCOP, USA 2014) - Infelizmente, José Padilha não acerta nesta nova versão do filme de 1987. Apesar do notável apuro técnico, o roteiro não ajuda, e a gente tem a sensação, por vezes, de que o diretor de TROPA DE ELITE não conseguiu transpor para Hollywood sua concepção vitoriosa do filme sobre o BOPE. Além disso, há algumas sequências que ficaram mal resolvidas. Por exemplo, a passagem do acidente que vitimou o policial Murphy e sua transformação no tira meio biônico parece que foi feita meio às pressas, sem o cuidado que deveria ter. O ROBOCOP do holandês Paul Verhoeven foi revolucionário a seu tempo e é eletrizante até hoje. Acabou se tornando um ícone da cultura pop, principalmente por ser uma das tiradas mais satíricas, audaciosas e contundentes sobre o estado de coisas americano que Hollywood jamais patrocinara.
 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

2434 - INDEPENDENCE DAY

2433 - A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY

(THE SECRET LIFE OF WALTER MITTY, USA 2013) - Ben Stiller protagoniza e dirige este filme encantador, colocando-se, assim, na trajetória de uma carreira brilhante e se consolidando como o comediante mais bem-sucedido da atualidade. Ele é um ator muito interessante, porque projeta uma persona que abrange uma mistura de frustração, ansiedade e insegurança, misturada a uma ingenuidade que encanta empaticamente. No filme, Stiller é o responsável pelos negativos da fotos de capa da revista Life e se vê na busca daquela foto perfeita para o último número da edições em papel, já que a publicação vai passar a ser online. É daí que vem a perspectiva interessante do roteiro: Mitty é um sujeito tímido, que nunca sai de seu trajeto casa-trabalho-casa e, de repente, se vê enfrentando os maiores perigos e vivendo inimagináveis aventuras, para continuar fazendo seu trabalho.  
 

sábado, 25 de outubro de 2014

2432 - O ACOMPANHANTE

(THE WALKER, USA 2007) - Este é um filme sobre a capital americana, isto é, sobre o poder e suas ramificações nos subterrâneos da alta sociedade, aquela que possui um, digamos, sistema de valores conveniente aos seus interesses. Não é um filme político, no sentido estrito do termo. Começa tudo por Carter Paige 3º (Woody Harrelson, excelente), filho e neto de poderosos, cuja atividade principal consiste em acompanhar senhoras de políticos. Por ser homossexual, é o ideal quando o marido não pode ir. E ainda mais ideal quando o marido não deve ir - já que pode ser o aliado perfeito para as escapadas das esposas dos poderosos. O que pode parecer apenas uma história de crime e de escândalo, mostra muito mais do que pretende. Atenção para a participação luxuosa de Lauren Bacall.
 

2431 - O VIRGEM DE 40 ANOS

(THE 40-YEAR OLD VIRGIN, USA 2005) - Apesar de gostar muito de Steve Carell, este filme é muito ruim. O título autoexplicativo - é apelativo (será que as pessoas ainda acham graça nisso?) - já nos dá a ideia dos desastrados eventos que constituem o roteiro fraquíssimo e totalmente desenxabido. As situações são, no mínimo, constrangedoras. Um filme para esquecer.   
 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

2430 - AMIGOS INSEPARÁVEIS

(STAND-UP GUYS, USA 2012) - Esta comédia dramática que junta um trio espetacular (Al Pacino, Christopher Walken e Alan Arkin), na verdade, é uma homenagem à carreira dos três, em particular, e à geração da Nova Hollywood dos anos 1970, de modo geral. Val (Pacino) é solto depois de passar 20 anos na cadeia por se recusar a entregar seus parceiros criminosos. Ele então encontra seu melhor amigo Doc (Walken) e o velho companheiro Hirsch (Arkin) para uma longa jornada noite adentro, incluindo excessos de velocidade, remédios e mulheres. O passeio tem tom de despedida, porém, porque Doc recebeu do chefão mafioso local a missão de matar Val. Aqui, como De Niro, Pacino faz o tipo inconsequente que, talvez por pressentimento, sabe que precisa aproveitar os minutos como se fossem os últimos. Já a Walken cabe o ingrato papel de impedir que o amigo se machuque. Que Walken seja o encarregado de matar o personagem de Pacino é um interessante e irônico elemento que move adiante o roteiro do estreante Noah Haidle. Além de ser um filme com um ritmo particular,  quase uma crônica de costumes, STAND-UP GUYS é também uma rara comédia com senso de vergonha - como se os personagens de Pacino e Walken se agarrassem, acima de tudo, à chance de mostrar às plateias mais jovens como a dramaturgia pode ter camadas mais profundas de intensidade. O humor meio involuntário vem das situações, da dinâmica polarizada dos dois, e dessa tentativa frequentemente frustrada de evitar vexames diante do mundo dos jovens. Hoje em dia, parece que restaram a esses atores mais velhos poucas alternativas. Há os filmes de época e as adaptações teatrais/literárias, os francos pastelões e os filmes "bucket list" de terceira idade. No entanto, estes grandes atores encontram uma terceira via bem interessante nesta produção. Consegue evitar as armadilhas de Hollywood - ninguém neste filme está tentando "reencontrar a alegria de viver" - e não tem medo de enfrentar a morte. Basta ver a franqueza com que Pacino diz a uma mulher no filme que o pai dela está morto. Há um desprendimento ali que o diretor sabe usar a seu favor, neste filme que parece comum, que, ao mesmo tempo, possui um brilho raro, mas apenas aos olhos mais atentos. E, claro, há sempre que se exaltar a presença magnética de Pacino, em todas as cenas. Ali está boa parte do melhor da história do cinema, um ator que epitoma talento imenso e uma emoção selvagem que atualmente não se encontra mais.
 

2429 - UM TIME SHOW DE BOLA

(METEGOL, Argentina, Espanha, 2013) - Esta animação de Juan José Campanella (O SEGREDO DOS SEUS OLHOS) prova que, quase que só com animadores do continente, um orçamento de 20 milhões de dólares e um roteiro muito apurado, é possível realizar uma produção que rivaliza em técnica, arte e diversão com o que produzem os estúdios como Pixar e Dreamworks. O filme é maravilhoso e enfoca algumas idiossincrasias dos argentinos que talvez só possam ser compreendidas pelos olhos mais atentos: a empáfia no trato social, o endeusamento dos ídolos de várias áreas, principalmente a do esporte e a malandragem portenha, sempre com um pé no trágico que a vida, em suas nuances, pode revelar. Gol de placa! 
 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

2428 - O HOMEM DE GELO

(THE ICEMAN, USA 2012) - Michael Shannon (Boardwalk Empire, O Homem de Aço) vive Richard Kuklinski, assassino favorito de todas as sete famílias do crime da Costa Leste dos EUA. Segundo sua própria estimativa, o "Homem do Gelo" assassinou mais de 200 homens (o filme fala em "apenas" mais de 100) e se orgulhava de sua variedade técnica. Ele era conhecido por congelar os corpos de suas vítimas, o que atrapalhava investigações policiais por encobertar a hora da morte. O Kuklinski de Shannon é um homem de poucas palavras, mais balbucia e rosna do que fala com seus empregadores e vítimas. Ainda que não se torne exatamente sociável, a situação muda dramaticamente quando está com sua família. Em sua atuação, o protagonista apenas relaxa o semblante, como se o amor pela esposa (Winona Ryder, ruim, como sempre) e as duas filhas, que não desconfiam de coisa alguma, fosse uma redenção para os atos de violência. O assassino sequer extrai qualquer prazer em seus atos. É meramente um trabalho - e ele o faz com método e competência, além do rosto de pedra. O bom elenco inclui David Schwimmer (o Ross de Friends, como um assassino de bigode e rabo-de-cavalo, mas que continua se parecendo com Ross, mesmo sendo um bandido), Ray Liotta (o mafioso Roy Demeo) e Chris Evans (O CAPITÃO AMÉRICA). Kuklinski foi um assassino cruel e violento, mas ao mesmo tempo mantinha uma vida social exemplar. Sua família e vizinhos acreditavam que ele era um pequeno empresário e não tinham ideia do que Richard realmente fazia. Michael Shannon mostra que é um grande ator.
 
 
 

2427 - NINFOMANÍACA - VOLUME 1

(NYMPHOMANIAC: VOL.I, Dinamarca, França, UK, Bélgica, 2013) - Este filme polêmico de Lar von Trier não tinha nada para ser polêmico. Só mesmo a hipocrisia da "consciência oficial" poderia se chocar com uma história que inventa uma nova maneira de escandalizar com o sexo explícito: torná-lo entediante, vazio e inútil. É exatamente assim que Trier vai conduzindo a saga de Joe (Charlotte Gainsbourg, sua atriz-grife), desde a adolescência - quanto mais pesado e explícito fica o sexo, mais se reduzem suas já escassas propriedades eróticas, todas a um passo do tédio e do entorpecimento. A meu ver, foi esta a intenção do diretor, e ele consegue seu objetivo. Além disso, ele ainda aponta para uma abordagem pouco comum no rol de apreciações dos críticos da pós-modernidade: o uso do sexo instrumental que transforma este universo sensorial numa espécie de anestesia erótica, em que o sexo mostrado no filme fica vazio e superficial, ao mesmo tempo que se mostra inútil e, pasmem, desinteressante. Esta desconstrução mostra o valor do choque nas mãos de um cineasta que sabe muito bem o quer dizer, sem muitos rodeios e, na visão dos mais pudicos (sim há-os), ofendendo, insultando, pervertendo. Atenção para a ótima cena com Uma Thurman, fazendo a mulher traída que invade a casa da amante, com os filhos, e para a excelente Stacy Martin, que faz a Joe mais novinha.
   

2426 - O LENÇO AMARELO

(THE YELLOW HANDKERCHIEF, USA 2008) - Produção pouco conhecida com atores e direção de primeira, uma história envolvente e emocionante, que acabou sendo um dos filmes mais bonitos deste ano, para mim. Tudo começa como nos já tradicionais road movies americanos: dois jovens (Kirsten Stewart e Eddie Redmaine) saem num conversível antigo e dão carona a um homem misterioso (William Hurt, mostrando que é um dos maiores atores de todos os tempos), ex presidiário e que sente uma excruciante saudade da mulher que ama, já que não a viu nos seis anos que esteve na prisão. A maneira como Hurt constrói o personagem, quase em silêncio, transmitindo todo o seu sofrimento pelo olhar apenas, é uma preciosidade. Que grande ator! O roteiro peca um pouco ao caracterizar, de modo repetitivo, os traços de "losers", rótulo que o americano gosta de dar para todos que não conseguem atingir o sucesso aristocrático de uma sociedade cruel e elitista. Um dos melhores filmes do ano, para mim.
 

2425 - À TODA PROVA

(HAYWIRE, USA Irlanda, 2011) - Uma das características de Steven Soderbergh é reunir um enorme elenco em um projeto, no mínimo, inovador. Em À TODA PROVA aparecem em pequenas participações os astros Antonio Banderas, Ewan McGregor e Michael Douglas. Mas não é só de grandes atores que Soderbergh sobrevive. Gina Carano, lutadora de MMA (a prova de que o ser humano não é tão racional assim), faz sua estreia no cinema em um impressionante filme de ação. Ela impressiona pela veracidade das cenas, pela boa atuação e, principalmente, pela beleza muito mais estonteante que o resultado de qualquer golpe que ela possa desferir. Poucas vezes a proposta do gênero consegue causar surpresa, mas é exatamente com essa premissa que todo o filme se apresenta. Sem muitas concessões ao espectador, aos poucos os entraves do roteiro são revelados, sempre depois de uma sequência alucinante de luta, fuga, perseguição ou qualquer outra característica possível para descrever o iminente perigo que a agente Mallory (Carano) está correndo.      
        

2424 - CONTE COMIGO

(YOU CAN COUNT ON ME, USA 2000) - Laura Linney é, na minha opinião, uma das maiores atrizes do cinema americano. Neste filme, ela é Samantha, a mãe solteira solteira de Rudy (o adorável Rory Culkin), e trabalha num banco modesto, em uma cidadezinha mais modesta ainda, ao norte do estado de Nova Iorque. Com a chegada do irmão Terry (Mark Ruffalo, magnífico) e a marcante influência que ela passa a ter sobre Rudy, ela começa a refletir sobre sua vida, sua relações familiares e afetivas. O comportamento rebelde de Terry abala a estrutura das vidas de Samantha e Terry de um modo profundo e definitivo. As atuações dos três são excelentes, e o filme emociona o espectador mais atento aos dramas específicos dos protagonistas.  
 

domingo, 19 de outubro de 2014

2423 - O VERÃO DA MINHA VIDA

(WAY, WAY, BACK, USA 2013) - Steve Carell é um dos meus atores favoritos. Neste filme, ele tem um papel completamente diferente dos que costuma fazer: é um sujeito arrogante, que trata mal o filho adolescente da namorada (Toni Collette, mais uma vez fazendo uma mãe problemática, como em UM GRANDE GAROTO). A família vai para uma cidade de praia, nas férias de verão. Com problemas de relacionamento, Duncan (Liam James, que fez o filho de John Cusack e Amanda Peet, em 2012) faz amizade com um funcionário de um parque aquático (o ótimo Sam Rockwell) e começa a construir uma autoestima que o fará se posicionar diante da mãe frágil e do padrasto autoritário. O filme é simpático, despretensioso e leva, mais uma vez, a repensarmos como tratamos os jovens que nãos e adaptam ao mainstream. Ah, curiosamente, a belíssima Amanda Peet tem um papel bobo, que em nada acrescenta ao roteiro. Mas ela é linda... 
 

2422 - CAN'T STAND LOSING YOU - SURVIVING THE POLICE

(CAN'T STAND LOSING YOU, USA 2012) - Documentário sobre a trajetória do guitarrista do Police, Andy Summers, desde seu primeiro contato com o instrumento, até o reencontro com os antigos companheiros, na grande turnê mundial de 2007. Andy não esconde a rivalidade com os membros da banda, principalmente com Sting, a quem se refere, em alguns momentos, com certo desdém, totalmente injustificado, diga-se. Alguns bons momentos de entrevistas e backstage.  
 

2421 - MEU MARCIANO FAVORITO

(MY FAVORITE MARTIAN, USA 1999) - A única razão para rever este filme é Elizabeth Hurley, lindíssima no papel de uma repórter de TV que, junto com Jeff Daniels, se vê às voltas com um marciano perdido na Terra, o excelente Christopher Lloyd. Embora seja uma merecida homenagem ao seriado homônimo da década de 60, estrelado por Ray Walston (que faz uma participação no filme), com bons atores, o filme fica muito abaixo das expectativas, tanto no roteiro quanto nos efeitos especiais fraquinhos.  
 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

2420 - THE WALKING DEAD (1a. TEMPORADA)

(THE WALKING DEAD, USA 2010) - Esta primeira temporada justifica, a meu ver, toda a fama que o seriado vem tendo nos últimos anos. Num estilo soap opera zumbi, a história é mesmo envolvente, apelando muito mais para o perfil psicológico dos personagens do que para a bizarrice do universo dos "walkers". E foi exatamente disso que mais gostei: o roteiro enfoca como seria um mundo pós-apocalíptico, no qual os zumbis seriam uma metáfora das doenças epidêmicas que podem acabar com a humanidade. Vem bem a calhar com as notícias mais recentes sobre o Ebola. Também fiquei curioso para ver como o britânico Andrew Lincoln se sairia no papel de um chefe de polícia do interior dos EUA. Eu já o conhecia por causa de um papel relativamente pequeno, mas importante, em SIMPLESMENTE AMOR, de 2003, que é um filme que adoro. Os episódios da segunda temporada mantêm o ritmo, além de aprofundar traços dos personagens que sobreviveram à sanha dos "geeks" (sim, a palavra "zumbi" nunca é usada no seriado).
 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

2419 - THOR, O MUNDO SOMBRIO


(THOR, THE DARK WORLD, USA 2013) - Com um roteiro muito mais bem alinhavado do que o do filme anterior e com a direção segura de Alan Taylor (GAME OF THRONES), o filme funciona bem como fantasia misturada à ficção científica, com direito a rasantes de uma espécie de caça alienígena sobre o reino de Asgard. Chris Hemsworth prova que pode ter uma atuação dramática de qualidade, além do uniforme de super-herói. Nem todos os raios de Asgard conseguiram fazer Natalie Portman deixar de estar apagada - ela simplesmente desaparece em cena. Por outro lado, quem brilha é Kat Dennings, a baixinha de TWO BROKE GIRLS, que é muito mais bonita e sexy do que Natalie - e tem timing de comédia. O cenário futurista, às vezes, polui um pouco, mas dá para ver até o fim.  O filme é uma ensandecida mistura de referências, não apenas ao Universo Marvel, mas também à cultura pop em geral. Prefiro o Homem de Ferro, mas Thor, com este filme, conquistou créditos na minha percepção das adaptações cinematográficas dos quadrinhos. 
 

2418 - A GUERRA DO FOGO

(LA GUERRE DU FEU, França, USA, 1981) - Um dos filmes mais emblemáticos dos anos 80, AGF começa com um fato marcante: algo como 80 mil anos atrás, uma tribo perde seu maior bem: a fagulha, a partir da qual, todos os dias, acende o fogo. Alguns voluntários, então, saem pelas paisagens dramáticas do Paleolítico à cata de uma reposição para a preciosidade. São atacados por tribos antropófagas, fogem de animais, passam fome, até que encontram uma representante de gente bem mais avançada do que eles, que lhes ensina a produzir fogo, a rir (manifestação que eles desconheciam), entre outras coisas. O diretor Jean-Jacques Annaud, de O NOME DA ROSA e SETE ANOS NO TIBET, acerta num gênero difícil que já comprometeu o trabalho de outros que nele se aventuraram.
 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

2417 - CINDERELA EM PARIS

(FUNNY FACE, USA 1957) -  CEP um filme sensível, um musical simples e ingênuo em que um olhar mais apurado e imaginativo pode observar detalhes interessantes para um aprofundamento, principalmente no cenário da geração beat. Aqui, a “gata borralheira” é Jo Stockton (Audrey Hepburn) uma intelectual dos anos 50 e o papel do fotógrafo (Fred Astaire) é uma homenagem a um dos maiores nomes da fotografia, Richard Avedon. Com o pretexto de mostrar a transformação de uma moça simples em uma modelo de sucesso, o filme de Stanley Donen aponta para várias abordagens do panorama cultural dos fins dos anos 50: a influência do Existencialismo de Sartre, a crescente importância da moda como instrumento de conquista social, já prenunciando a nossa era do exibicionismo explícito, o estilo beatnik nos cafés parisienses, nos cavanhaques e nos trajes, além da inevitável comparação de costumes entre a América e o Velho Continente. O grandíssimo Fred Astaire aparece como uma pluma nos números de dança, em que ele, mais do que qualquer outro, foi o grande nome, dentro do universo cinematográfico. A imagem de Audrey Hepburn sempre esteve associada à noção de elegância, classe e estilo. Sua doçura e encanto a tornaram signo universal, e referência na moda e na aparência feminina. Mas, o “efeito Cinderela” foi algo marcante e definitivo para sua pessoa, não apenas em sua carreira em Hollywood, mas também em sua própria história como mulher e atriz. No filme, Jo é seguidora da doutrina Enfaticalista, baseada na empatia, onde a pessoa deve projetar sua imaginação até sentir o que o outro sente. É se colocar no lugar do outro. Isto funcionará para a relação de cumplicidade entre ela e a editora e entre ela e seu amor. A filosofia, que romantizada em um “entendimento múltiplo”, resulta no fim dos conflitos da trama. A menina, avessa à moda e suas futilidade, se harmoniza naturalmente à alta-costura. Ah, o personagem de Audrey, Jo, trabalha, inicialmente numa livraria. Isto diz tudo, não?
 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

2416 - UM ÁLIBI PERFEITO

(REASONABLE DOUBT, USA 2014) - O filme gira em torno de Mitch (Dominic Cooper), um advogado bem sucedido, casado e que acaba de se tornar pai. Certa noite sai para beber com os amigos e na volta pra casa ao invés de pegar um taxi, como havia combinado com a esposa, ele volta dirigindo e atropela um homem desconhecido. Desesperado ele apenas liga para a ambulância e foge. Mas depois fica sabendo que outro homem esta sendo acusado em seu lugar, Clinton (Samuel L. Jackson). Bom thriller, com atuações convincentes e boas lembranças das ruas de Boston.
 
 
 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

2415 - INVOCAÇÃO DO MAL


(THE CONJURING, USA 2013) - Por causa do lançamento do "prequel" ANNABELLE, revi A INVOCAÇÃO DO MAL, para checar alguns pontos que me fugiram quando assisti ao filme pela primeira vez. O mais importante deles é a forma como o diretor James Wan evita o formalismo dos filmes de terror de hoje e nos coloca, a cada cena, diante do imponderável. A montagem do filme usa o número de portas em cada quarto para nos desnortear, e a multiplicidade de ângulos (câmera ora no teto, ora de ponta-cabeça) e de perspectivas (câmera sobre o ombro da mãe, do pai, das filhas, é gente demais num lugar que já não parece grande o suficiente) termina de fazer o trabalho de nos apavorar, sem, contudo, fazer apologia ao susto fácil. Ah, e ainda há os olhos azuis da bela Vera Farmiga. A propósito, ela está em O JUIZ, com Robert Downey Jr. Ao voltar para a cidade onde cresceu, o personagem de Downey Jr. reencontra uma antiga paixão, vivida por ela. Sortudo este sujeito...
 
 
 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

2414 - A GAROTA DA CAPA VERMELHA

(RED RIDING HOOD, USA 2011) - Esta versão anabolizada de Chapeuzinho Vermelho tem Amanda Seyfried no papel principal é uma boa tentativa de dar ao conto dos Grimm uma perspectiva mais sombria do que aquela que a história original já possuía, mas não consegue manter o clima o tempo todo, principalmente nas cenas em que o lobo aparece. A metáfora sexual fica, aqui, com um ar pouco original, quando lembramos do excelente A COMPANHIA DOS LOBOS, de Neil Jordan. De qualquer forma, o filme tem seu charme, principalmente por causa da presença de Amanda Seyfried.
 

2413 - CÍRCULO DE FOGO

2412 - ANTES DO AMANHECER


(BEFORE SUNRISE, Áustria, Suíça, EUA, 1995) - O diretor Richard Linklater e os atores Julie Delpy e Ethan Hawke criaram uma trilogia que acompanha os encontros e desencontros de um casal ao longo de duas décadas. Aqui, eles se conhecem num trem em Viena e decidem passar a noite passeando pela cidade. Julie está muito além do nível conhecido da capacidade de encantar as pessoas - este filme, como os outros dois subsequentes, é totalmente dela. Sua presença toma conta de todas as cenas, e não há como resistir ao seu charme e inteligência. Ela nos leva pelas ruas de Viena com uma intimidade surpreendente que emociona e faz a gente pensar que, de fato, pode mesmo existir pessoas assim, tão lindas, por dentro e por fora. Quem não se apaixonar junto é porque não tem coração.