terça-feira, 28 de março de 2017

2924 - O CLÃ

   
A família perfeita?
 O CLÃ (EL CLAN, Argentina/Espanha, 2015) – Mais um excelente filme argentino, dirigido por Pablo Trapero, um dos mais vigorosos talentos portenhos, que filma com incisão cirúrgica, no sentido de derrubar defesas e instigar uma reflexão incômoda a respeito da natureza humana. Arquímedes Puccio (o estupendo Guillermo Francella) é um pai de família respeitável que, clandestinamente, ajudava o regime dos militares que se instalara no país desde de 1976 com o sequestro dos inimigos do governo. Puccio percebe que a atividade ainda tinha uma possibilidade inexplorada: exigir resgate em dinheiro, sem nenhuma intenção de devolver a vítima aos familiares. O caso – verídico – causou comoção entre os argentinos e se constitui num registro importante do período mais trágico da ditadura naquele país. Guillermo Francella é realmente um grandíssimo ator. Aqui, ele faz um personagem completamente diferente do doce Leon, de O AMOR NÃO TEM TAMANHO, e impressiona pela intensidade com que se entrega a uma figura aterrorizante que vivia sob uma fachada burguesa aparentemente inofensiva. Grande filme, grandes atuações e uma história contada magistralmente.  

segunda-feira, 27 de março de 2017

2923 - O LAGOSTA

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    O LAGOSTA (THE LOBSTER, UK e França, 2015) - A história não é nada convencional e, por isso mesmo, deliciosa e inquietante: no futuro, as pessoas são proibidas de viverem sozinhas. Caso permaneçam solteiras, são logo encaminhadas a um hotel especial. Lá podem permanecer por até 45 dias e, neste período, são incentivadas de toda maneira a encontrar um novo parceiro para toda a vida entre os próprios hóspedes. Se não conseguirem, são transformadas em um animal – qualquer animal – que a própria pessoa escolhe e, a partir de então, vive solta na natureza. A lagosta do título original é o animal escolhido por David (Colin Farrell), que acaba de chegar ao hotel. O roteiro – originalíssimo – é uma alegoria crítica às regras que a sociedade nos impõe sobre como devem ser os relacionamentos amorosos, uma visão surreal sobre um mundo pós Tinder. As atuações propositalmente mecânicas dos atores ajudam a mostrar a linha tênue entre o real e o absurdo, num mundo em que os relacionamentos amorosos são frequentemente reduzidos à simples observação de interesses e tipos. De certa forma, nada muito diferente do que se vê hoje em dia. É uma ótima oportunidade de reflexão sobre a fragilidade dos laços afetivos num mundo em que o exibicionismo e a superficialidade parecem ter se tornado valores mais importantes.  

domingo, 26 de março de 2017

2922 - TERCEIRA PESSOA

    TERCEIRA PESSOA (THIRD PERSON, USA, 2013) – Paul Haggis (de CRASH) novamente nos traz histórias que se entrelaçam gradativamente, até um desfecho que poderia ser menos previsível. Sem querer dar spoilers, o título do filme já nos indica o caminho que os personagens vão tomando ao longo da trama. Porém, foi issso mesmo que chamou minha atenção – não é um daqueles filmes de fácil assimilação, mas tem, no elenco nomes importantes como Liam Neeson, Olivia Wilde, Adrian Brody e James Franco, o que, no mínimo, cria uma grande expectativa. Na verdade, as atuações ficam um pouco limitadas pelo roteiro que, a certa altura, desanda um pouco, indefinindo personagens e situações. Especialmente, no terço final, tem-se a impressão de que a pressa falou mais alto e tudo teria que ser explicado rapidamente, o que  aconteceu precariamente. Este derradeiro trecho, mal executado, não compromete muito o filme, mas deixa a impressão do que poderia ter sido e não foi, numa visão “manuelbandeirianamente”. A bela Olivia Wilde amadureceu como atriz, embora suas cenas mais memoráveis sejam as que corre nua pelos corredores do hotel onde se hospeda. 

2921 - AVE CÉSAR!

Scarlett Johansson
   
      AVE, CÉSAR! (HAIL, CAESAR!, USA, INGLATERRA, JAPÃO, 2016) – Esta produção dos irmãos Coen é uma sátira aos gêneros escapistas de Hollywood, em que o processo de produção cinematográfico é abordado com um olhar corrosivo, desmitificando astros frívolos, starlets de ar inocente e diretores com afetados sotaques europeus. Há uma atmosfera nonsense que perpassa todo o filme, o que deixa mais evidente a nem tão ultrapassada engrenagem hollywoodiana de produzir e destruir produções e personalidades. George Clooney interpreta o ator canastríssimo Baird Whitlock com os dois pés no deboche, enquanto Scarlett Johansson faz uma estrela de musicais aquáticos, no estilo Esther Williams. AVE CÉSAR! não é para todos os gostos, mas pode ser interpretado como uma declaração de amor ao cinema e às figuras, falsas ou não, que o fazem.


sexta-feira, 24 de março de 2017

2920 - STAR TREK: SEM FRONTEIRAS

STAR TREK: SEM FRONTEIRAS (STAR TREK BEYOND, USA, 2016) – Há um certo ar retrô neste terceiro filme da série, no que diz respeito à trama e a suas reviravoltas. Tudo isso serve de injeção nostálgica na veia afetiva dos fãs antigos e recentes, o que transforma STB num daqueles reencontros que lavam a alma. Os efeitos estão ótimos: é emocionante ver a Enterprise bem de perto, com todos os seus detalhes, ancorando num imenso deck espacial, ao redor do qual uma espécie de Terra 2 resplandece em cores e sons. Porém, falta ao filme o toque artístico de J.J. Abrams, pois o diretor Justin Lin (da franquia VELOZES E PERIGOSOS, putz!) não consegue segurar o peso emocional de uma edição de STAR TREK. Temos um Kirk (Chris Pine) mais contido e um Spock (Zachary Quinto) mais hamletiano do que nunca. No entanto, Simon Pegg (Scotty) é que tem a atuação mais marcante, especialmente nos diálogos afiados trocados com McCoy (Karl Urban). São emocionantes as homenagens a Leonard Nimoy e a Anton Yelchin, o oficial de comunicações Checov, morto em junho de 2016.

quinta-feira, 23 de março de 2017

2919 - TWO AND A HALF MEN - TEMPORADA 10

   
 TWO AND A HALF MEN – 10TH TEMPORADA (USA, 2012) – Se na temporada anterior – em que Ashton Kutcher substitui Charlie Sheen – ainda havia laivos de comicidade, especialmente quando os roteiros exploravam o histrionismo físico de Alan (Jon Cryer, hilário), nesta, tudo se perde. Era para ter parado na anterior. A décima edição mostrou que não havia mais o que expandir no universo de TAHM. À exceção de um episódio realmente engraçado – quando Alan e Lindsey chamam Walden para um ménage – esta temporada foi um enorme constrangimento e frustração para quem achava que a entrada de Kutcher ainda daria fôlego à série. Se na sua estreia ele ainda se saiu bem, apesar do ator sofrível que sempre foi, agora, sua canastrice e falta de talento ficaram mais que evidentes. Para piorar, temos o pior episódio da fase pós-Charlie: Alan e Walden estão em Nova Iorque, numa cena que se transforma em um grotesco musical da Broadway. Foi embaraçoso ver o ótimo Cryer participar de uma sequência tão pobre artisticamente e, sobretudo, sem a mínima graça, que apenas ajudou a enterrar ainda mais uma das melhores séries da TV. Além de Cryer, Ryan Stiles, o sensacional Herb, foi responsável pelos (poucos) momentos engraçados da temporada (veja cena abaixo).    

terça-feira, 21 de março de 2017

2918 - A LENDA DE TARZAN

    
 A LENDA DE TARZAN (THE LEGEND OF TARZAN, USA 2016) – O roteiro desta nova versão do “homem da selva” criado por Edgar Rice Burroughs em 1912 aborda a crueldade colonial na África, mais especificamente no Congo, para onde o lorde Greystoke (Alexander Skarsgard), então aclimatado e aristocratizado em Londres, retorna, em companhia de sua esposa Jane (Margot Robbie, linda de nocautear) e de George Washington Williams (Samuel L. Jackson). Christoph Waltz repete saborosamente mais um vilão de sua galeria de tipos teutônicos. De certa forma, o filme não engrena, mesmo nas cenas de ação – o uso de CGI atrapalha o ritmo e o charme da floresta se perde ao longo da narrativa. Tudo é meio previsível e sem emoção. GREYSTOKE, com Christopher Lambert, de 1984, é bem superior, embora Andie MacDowell, a Jane desta produção, nem de longe chegue aos pés de Margot Robbie.   

segunda-feira, 20 de março de 2017

2917 - SULLY O HERÓI DO RIO HUDSON


   SULLY, O HERÓI DO RIO HUDSON (USA, 2016) – Clint Eastwood retrata, aqui, o evento que mexeu com o imaginário dos nova-iorquinos, em 2009: o comandante Chesley “Sully” Sullenberger III, pousa, emergencialmente, um Airbus com 155 pessoas a bordo, no Rio Hudson, depois de as turbinas terem sugado um bando de aves que atravessaram sua rota de voo. Qualquer fato que envolva acidentes aéreos, em Nova Iorque, “aprés” o 11 de setembro, tem uma dimensão gargantuesca – e é este aspecto, juntamente com as dúvidas que as autoridades aeronáuticas lançaram sobre a decisão do piloto, que se constitui o eixo principal de SULLY. Eastwood conduz magistralmente a narração do pouso forçado e do processo de heroificação do comandante Sully (interpretado por Tom Hanks com a serenidade e a segurança do personagem real), que culmina numa eletrizante sequência de julgamento, onde o “fator humano” assume contornos essenciais e muito mais importantes do que qualquer avaliação tecnológica.   

2916 - INVASÃO ZUMBI

     
INVASÃO ZUMBI (TRAIN TO BUSAN, Coreia do Sul, 2016) – No meio do trajeto entre Seul e Busan, pai e filha percebem uma certa agitação no seu entorno. Súbito, se dão conta de as pessoas vão se transformando em zumbis e instaurando pânico nos vagões. Apesar da insistência no tema – hoje espalhado por várias plataformas – este filme traz novidades, especialmente na apresentação dos zumbis: com suas posturas retorcidas, com membros e o pescoço em ângulos anormais e o som fantasmagórico que produzem, o vigor e a grandeza do ataque fascinam, ao mesmo tempo que nos mantêm ligados o tempo todo. O desenvolvimento dos personagens está muito acima da média para um filme deste gênero. A criatividade e ousadia do diretor Sang-ho Yeon fazem deste filme uma exceção à produções apressadas de Hollywood. Sem a abordagem “cool” de THE WALKING DEAD, este TTB concentra suas forças no medo súbito que uma pandemia deste porte provoca nas pessoas.  

segunda-feira, 13 de março de 2017

2915 - CAPITÃO FANTÁSTICO

    
 CAPITÃO FANTÁSTICO (CAPTAIN FANTASTIC, USA, 2016) – CF é um filme pequeno e modesto, mas que acaba impressionando exatamente por esta falta de pretensão: é a história de um pai (Viggo Mortensen, magnífico) que cria, sozinho, os filhos, no meio do mato, pensando na educação deles como uma missão suprema, mesmo que com valores e conceitos na contramão do que é considerado “normal”. Ben Cash (Mortensen) é um radical anti-sociedade de consumo que dá aos filhos toda a disciplina – quase espartana, diga-se – necessária para o aprendizado de literatura clássica e moderna, história e atualidades, física e atualidades. Um fato os fará a ter um contato com a sociedade moderna, e o diretor Matt Ross aproveita para tirar daí a hilaridade – e reflexão - esperada deste tipo de choque cultural. CF resgata a impressão do mundo como algo vasto esperando ser explorado, de uma beleza instigante que sobressai aos olhos infantis e adolescentes (lembrei algumas vezes de A COSTA DO MOSQUITO, com Harrison Ford) e é uma crítica aos valores da sociedade de consumo. Além, claro, de exaltar a figura de Noam Chomsky, citado várias vezes por Ben. O grandíssimo Frank Langela está excelente, numa atuação marcante, como o sogro de Ben e seu crítico mais feroz.  

domingo, 12 de março de 2017

2914 - TWO AND A HALF MEN - TEMPORADA 9

     
TWO AND A HALF MEN, 9TH SEASON (USA, 2011) – Esta é a temporada que marca a entrada de Asthon Kutcher no lugar de Charlie Sheen. Revendo, agora, depois do impacto inicial – quando a atuação de Kutcher nunca me convenceu – reconheço que ele até que se sai bem, dentro do escopo do seu papel (meio bobo, diga-se) e por causa da expectativa de substituir o carisma do antigo astro. De qualquer forma, continuo achando-o mau ator, limitado e com um timing meio forçado para comédia. No entanto, depois dos primeiros episódios, ele encontra um equilíbrio cômico com Alan (Jon Cryer, mais do que nunca, hilário) e vai compondo seu Walden Schmidt de forma aceitável. Por outro lado, Cryer brilha com todo o seu histrionismo nas situações mais absurdas, com total domínio de cena e sem medo do ridículo. Seu personagem, de certa forma, se liberta da órbita de Charlie, muda sua linha de composição (passa a ser um conselheiro amoroso para Walden) e se entrega aos absurdos que inventa para continuar a morar na casa de Malibu. Atenção para o episódio “Not in my mouth”, em que Lindsay (Courtney Thorne-Smith), namorada de Alan, passa mal no avião de Walden, a caminho de Londres. Escatologicamente memorável. 

2913 - PAI E FILHAS

   
 PAIS E FILHAS (FATHERS AND DAUGHTERS, USA 2015) – Russel Crowe é um escritor, ganhador do Pulitzer, que luta para manter a guarda da filha pequena, depois de começar a ter surtos psicóticos por causa do acidente que matou sua mulher. Amanda Seyfried faz o papel da filha, 27 anos depois, em cenas que vão se intercalando para construir a história emocionante de seu relacionamento com o pai e as consequências na sua atual. Crowe, mais uma vez, arrasa com uma atuação emocionante, e Amanda dá uma dimensão de ternura e cumplicidade à influência paterna na construção de sua percepção do mundo.

sexta-feira, 3 de março de 2017

2912 - PASSAGEIROS

   
  PASSAGEIROS (PASSENGERS, USA 2016) – O mecânico Jim Preston (Chris Pratt) acordou antes da hora. Ele é uma das 5000 pessoas que viajam congeladas numa gigantesca nave, num percurso que levará décadas, para chegar a um planeta e estabelecer uma nova colônia, longe da superpopulação terrestre. Que fazer? Nada lhe dá qualquer informação sobre seu súbito despertar. Ele só dispõe da companhia de um barman androide (Michael Sheen, numa atuação deliciosa), com cuja interação Jim tenta entender (sem sucesso) o predicamento em que se encontra. Lá pelas tantas (vocês verão por que), aparece a escritora Aurora Lane, harmoniosamente acomodada no corpo perfeito de Jennifer Lawrence, para tirá-lo da solidão cósmica que até então vivera na colossal espaçonave. Rapaz de sorte, hein? Pois é, mas a dinâmica com Aurora se mostra menos fácil do que ele esperava. Ele tem que conquistá-la, e esse processo quase que acontece de modo perfeito, se não fosse a forma com que o diretor norueguês Morten Tyldum (do ótimo O JOGO DA IMITAÇÃO) sucumbiu ao drama romântico, se inclinando perigosamente para o roteiro açucarado que tanto prejudica o sangue quanto a fruição de uma história simpática e realizada com grande apuro técnico.   

quarta-feira, 1 de março de 2017

2911 - MANCHESTER À BEIRA-MAR

    
 MANCHESTER À BEIRA-MAR (MANCHESTER BY THE SEA, USA 2016) – O Oscar de Melhor Ator deste ano foi bem entregue a Casey Affleck – ele tem um desempenho devastador como Lee Chandler, um homem consumido pelo luto, que tem dentro de si uma dor imensa que ele domina pelo mutismo e aparente alheamento do mundo que o cerca. Com a morte do irmão, ele se vê como o guardião do sobrinho de 16 anos, mas não se sente confortável nesta missão. É aí que se redimensionam o sofrimento ingente que o consome (revelado numa cena dilacerante) e suas pontes com o passado, em flashbacks quase imperceptíveis que o diretor Kenneth Lonergan insere de modo cru, mas totalmente pertinente ao universo de Chandler. O mais impressionante na atuação de Affleck é a forma com que ele confere eloquência a um personagem praticamente inarticulado, cuja voz, inaudível, é ao mesmo tempo um sussurro e um choro contido. Atenção para a sua cena na delegacia – é algo para não se esquecer jamais. É um filme sobre como a tristeza pode ensinar lições valiosas que nos escapam na alegria transitória. 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

2910 - JASON BOURNE

    
JASON BOURNE (USA, 2016) – A retomada de Matt Damon ao personagem e de Paul Greengrass à direção fazem deste quarto episódio canônico da série (descarte O LEGADO BOURNE, com Jeremy Renner) um eletrizante thriller de ação, com tudo que o cinema de alta qualidade pode oferecer. Sequências de tirar o fôlego e a atuação mesmerizante de Damon são as grandes atrações de JB. Damon dá a Bourne uma dimensão mais madura, mais ressentida e devastadoramente mais desencantada, o que reflete a trajetória em busca da sua identidade e das verdadeiras circunstâncias que o transformaram num agente dotado de tal letalidade. A estética de ação criada por Greengrass, mas apurada nesta edição, dá um ritmo alucinante ao roteiro que enfoca os usos e abusos que as agências de inteligências praticam, nem sempre com ética e bom senso. JASON BOURNE é um filme magnífico, como um ator magnético e carismático, cuja atuação magistral é uma das razões para o cinema ser tão apaixonante.  

2909 - A CHEGADA

   
 A CHEGADA (ARRIVAL, USA, 2016) – Esta obra-prima do diretor Dennis Villeneuve não é uma ficção científica no sentido mais comercial e palatável do termo – não espere encontrar batalhas intergaláticas, aliens estereotipados, lasers e coisas do gênero. Tudo aqui é mais cerebral, mais intimista, muito mais para 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO e do genial INTERESTELAR, do que STAR TREK ou WARS. Doze naves alienígenas aparecem em todo o planeta, gerando medo e desconfiança. Precisa-se saber do que se trata. Mas como sabê-lo? Os gigantes de meio quilômetro de altura estão suavemente flutuando perto do chão, quase um chamado para serem tocados, e não parecem ser agressivos. A forma é de uma elipse negra, sem arestas nem saliências, lembrando, à primeira vista (vista?) uma enorme lente de contato – já seria isso uma pista importante: teriam eles chegado para nos ensinar a ver melhor? É necessário que se estabeleça uma comunicação. A Dra. Louise Banks (Amy Adams, perfeita no papel), professora e linguista, é convocada pelo exército para que se inicie algum tipo de diálogo com os alienígenas através de um idioma comum. A partir daí, desperta nela – e em nós – uma curiosidade existencial que traz uma série de indagações sobre o real motivo da visita. Em vez da costumeira pirotecnia a laser, o maior obstáculo é a comunicação – ou a falta dela. Villeneuve, em sua carreira, demonstra uma versatilidade de gêneros: INCÊNDIOS, o sensacional O HOMEM DUPLICADO e SICÁRIO são exemplos da sua abrangente concepção direcional. Em todos, uma característica: ele não mastiga nada para os espectadores e tem na reviravolta narrativa sua marca registrada, sempre com domínio total dos aspectos técnicos como fotografia, direção de arte, trilha sonora e montagem. O roteiro brilhante tangencia vários temas, sendo que o principal é o da não linearidade do tempo. Isto já fica evidente nos “flashbacks” que ocorrem a Louise, mas que, no fundo, podem ser também “flashforwards”, na medida em que ela começa a entender a escrita circular dos aliens, uma espécie de holograma que é a própria representação do filme. Há uma simetria “kubrickiana” na representação das naves alienígenas, como o monolito de 2001 - UMA ODISSEIA... que, tal como a espada de Dâmocles, paira sobre a humanidade confusa e indecidida. O fato mais relevante da história é este: é necessário que seres de outro planeta venham nos advertir que, se não aprendermos a nos comunicar entre nós mesmos, a humanidade terá o destino da destruição. É quase inaceitável que, com toda a tecnologia atual, caracterizada como a era da comunicação, os humanos tenham tanta dificuldade de ouvir e de serem ouvidos, de trocar ideias, de se colocar no lugar do outro, sem agressão ou intolerância. O filme de Villeneuve é uma aula sobre a civilidade, o altruísmo e, sobretudo, sobre a importância de exercer a linguagem com perfeição, pois ela pode ser a arma mais poderosa deste e de outros mundos. 
     

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

2908 - A QUALQUER CUSTO

    
Ben Foster e Chris Pine
A QUALQUER CUSTO (HELL OR HIGH WATER, USA 2016) – O diretor David Mackenzie (do estupendo OS SENTIDOS DO AMOR) trouxe, mais uma vez, a propulsão narrativa e a dramaticidade do faroeste, num roteiro contemporâneo, amplificando a cultura e a geografia do Oeste do Texas, onde portar uma arma (e atirar com ela) é um fato tão comum como beber uma cerveja num dos muitos bares da região. Chris Pine e Ben Foster são dois irmãos de personalidades opostas que roubam bancos em sequência, até despertar a atenção de um xerife à beira da aposentadoria (Jeff Bridges, em atuação antológica), que passa a persegui-los para que sejam o troféu do desfecho de sua carreira. A amplidão das paisagens do meio oeste americano é de uma beleza estonteante e ajuda a emoldurar um dos melhores filmes deste ano, tanto que teve quatro indicações ao Oscar, inclusive a de Melhor Ator Coadjuvante, para Bridges.  

       

2907 - A SENHORA DA VAN

    
Maggie Smith e Alex Jennings
 A SENHORA DA VAN (THE LADY IN THE VAN, Inglaterra, 2015) -O dramaturgo Alan Bennett transformou sua experiência pessoal com uma septuagenária sem teto que passou quinze anos morando numa van em frente à sua casa, em Londres, em uma peça de sucesso e neste filme dirigido por Nicholas Hyter. Claro que a grande razão para este êxito é a atuação de Maggie Smith como a senhorita Shepherd (tanto no teatro quanto nas telas) que, aos 81 anos, domina as atenções com sua voz esganiçada, seu jeito altivo, irascível, mas também inteligente e autoritário. É primoroso também o trabalho de Alex Jennings no papel de Bennett, que vive dialogando com uma projeção sua, num recurso que costura suas divagações sobre como lidar com a hóspede involuntária que, ao fim, redimensiona sua relação com a própria mãe. É uma boa oportunidade de ver o humor ácido e singular dos ingleses aplicado em situações tanto cotidianas quanto inesperadas.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

2906 - NO CORAÇÃO DO MAR

   
  NO CORAÇÃO DO MAR (IN THE HEART OF THE SEA, USA, 2015) – Dirigido por Ron Howard (APOLLO 13, UMA MENTE BRILHANTE e RUSH), de maneira clássica e épica, o filme relata a já conhecida história escrita por Herman Melville, sobre o ataque que o navio Essex sofre por uma incomum baleia-branca que o persegue com uma deliberação inatural, até fazê-lo em pedaços. São angustiantemente belas a cenas de ação no mar, colocando em lados opostos a obstinação da tripulação, que gradativamente é aniquilada, e os gigantes marinhos que, ao se defenderem da caça predatória e insana, representam também o absurdo de uma batalha que, ao fim, todos saem perdendo. É impactante a cena em que uma grande porção de mar fervilha de cachalotes, fonte do óleo que, no século XIX, iluminava o mundo. Destaque para Chris Hemsworth, como o imediato Owen Chase e para o maravilhoso Brendan Gleeson, como um dos oito homens que voltaram do périplo e que, anos mais tarde, reconta a saga para um jovem Melville (Ben Whishaw), então um escritor modesto, mas com faro para uma boa história.      

2905 - CONTÁGIO - EPIDEMIA MORTAL

    
 CONTÁGIO EPIDEMIA MORTAL (MAGGIE, USA, 2015) – A piada é inevitável: o gênero de filmes de zumbis ainda vive. Quem embarcou na onda, desta vez, foi Arnold Schwarzenegger e, diga-se, com uma feliz escolha de roteiro. MAGGIE não é exatamente como seus congêneres, como quer sugerir o título forçador de barra em português – conta a história de Maggie (Abigail Breslin), infectada por um vírus que, em breve, vai transformá-la em uma morta-viva. O que há de diferente aqui é a relação com seu pai (Arnoldão) que, amoroso ao extremo, fica ao seu lado o tempo todo, nunca a deixando desamparada e minimizando a discriminação da sociedade em relação a filha doente e deprimida. O fator zumbi aqui é o menos importante – Maggie poderia estar em qualquer outra situação em que, potencialmente, fosse marginalizada. O mais importante do roteiro é o foco no amor de um pai capaz de tudo para proteger a filha da morte social antecipada. Arnold Schwarzenegger tem, possivelmente, o melhor papel da sua vida, numa atuação contida, sofrida e extremamente convincente. Algo parecido com que aconteceu com o parceiro Stallone, em CREED.      


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

2904 - LION, UMA JORNADA PARA CASA

  
Dev Patel, perfeito
 LION, UMA JORNADA PARA CASA (LION, USA 2016) – Um garoto de cinco anos perdido nas ruas frenéticas de Calcutá, a milhares de quilômetros de casa, passando por todos os perigos desta aventura involuntária (e, mais impressionante ainda, escapando deles), até ser adotado por um casal australiano para, 20 anos depois, mergulhar no mistério de quem ele seria, de onde teria vindo e do que teria acontecido com sua mãe e seu irmão, obsessão a qual ele demoraria outros cinco ou seis anos ainda para solucionar.. É assim, baseado numa história real, que o diretor Garth Davis nos traz um dos filmes mais emocionantes dos últimos tempos. Sim, LION é um filme sentimental para pessoas sentimentais, e não há nada de errado nisso. Mostra, com delicadeza e sensibilidade, como, às vezes, os indivíduos mais frágeis são capazes das maiores proezas por causa de sua obstinação e resiliência. A primeira parte do filme trata, com maestria, de como Saroo (o encantador e solar Sunny Pawar) se perde do irmão e tem que lutar contra todo um ambiente hostil de uma cidade desumana para sobreviver. Em uma cena linda, Saroo imita os gestos de um rapaz que toma sopa num restaurante – a esta altura, já estamos totalmente envolvidos com uma história magistral pela maneira como ela registra o turbilhão por que passa Saroo. Aos 25 anos, o estupendo Dev Patel vive o personagem que descobre em si a vontade de reencontrar a família perdida e se põe a procurá-la pelo Google Earth. As emoções que perpassam Saroo nesta etapa de sua vida ganham uma força incomum na interpretação cativante de Patel. LION comove porque nos traz para dentro de uma busca que todos, de uma forma ou de outra, fazemos dentro de nós mesmos. 

2903 - VOLCANO, A FÚRIA

    
   VOLCANO, A FÚRIA (VOLCANO, USA 1997) – Mais um exemplo de um filme-catástrofe que é realmente um desastre, em todos os seus aspectos. Os clichês do gênero, quando bem usados, podem funcionar perfeitamente, mas o diretor Mick Jackson (de O GUARDA-COSTAS, com Kevin Costner) parece que resolveu se limitar à situações mais comuns neste tipo de roteiro: um pai-herói ((Tommy Lee Jones) tentando salvar a filha, enquanto rios de lava tomam conta das ruas de Los Angeles, para o espanto de seus habitantes. Já vimos isso em algum lugar, não? Convenhamos, o real desastre natural, aqui, é um roteiro repleto de imprecisões científicas e lugares-comuns que nos fazem perguntar como tiveram coragem de lançar um filme assim.  

2902 - ALÔ, ALÔ, TEREZINHA!

   ALÔ, ALÔ, TEREZINHA! (BRASIL, 2009) – Apesar dos prêmios que recebeu, o documentário sobre o Chacrinha é decepcionante. Focalizando o mundo cão dos bastidores do programa, dá uma relevância duvidosa às fofocas envolvendo as chacretes e os candidatos a cantor que foram desclassificados pela buzina do Velho Guerreiro, tudo em tom de escárnio, na maior parte das vezes. De qualquer forma, é uma oportunidade de rever o fenômeno de comunicação que foi o programa do Chacrinha durante tantos anos.

2901 - UM NOITE NO MÉXICO

   
UMA NOITE NO MÉXICO (A NIGHT IN OLD MEXICO, USA 2013) – O grandíssimo Robert Duvall é Red, um rancheiro que vai ao México com seu neto e se vê envolvido com um dinheiro roubado, numa “road trip” cheia de reviravoltas. Robert Duvall é um desses atores que valorizam todo personagem que lhes é dado, tornando-o, às vezes, muito maior do que o filme em que estão. É provável que este seja o caso aqui – o roteiro faz lembrar o PERFUME DE MULHER, com Al Pacino, embora sem a mesma pujança. Mas Duvall mostra que é um ator comprometido com a verdade de seu personagem, um velho cowboy urbano para quem a aposentadoria não é uma opção. No elenco, ainda temos, Angie Cepeda, a melhor exportação da Colômbia em muitos anos.  

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

2900 - HORAS DE DESESPERO

  
 HORAS DE DESESPERO (NO ESCAPE, USA, 2015) – A família de Jack Dwyer (Owen Wilson) vai para um país na Ásia, onde ele vai ocupar uma posição profissional numa companhia americana. Acontece que eles chegam exatamente quando estoura um golpe de estado e passam a ser perseguidos pelos opositores do regime, que são contra o controle dos recursos hídricos que esta empresa americana pretende exercer no país. A partir daí, Jack, a esposa e as duas filhas se põem a fugir de todas as maneiras da ira dos revoltosos, todos com um figurino de terroristas e chefes de gang. Pierce Brosnan, num papel meio forçado, coloca sua experiência como ex-James Bond a serviço da proteção da família Dwyer. NE é um bom thriller de ação, com ritmo intenso, que põe o espectador no meio da confusão, sem tempo para respirar. Wilson está bem como o pai de família capaz de qualquer coisa para proteger a mulher e as filhas, embora o roteiro exagere, em alguns momentos, nas situações de heroísmo.   

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

2899 - A OUTRA

A OUTRA (THE OTHER BOLEYN GIRL, USA, 2008) – O centro da história é a briga de duas irmãs, Ana e Maria Bolena (Natalie Portman e Scarlett Johansson) pela atenção de Henrique VIII (Eric Bana), o rei da Inglaterra. Não há espaços para personagens multifacetados aqui – Ana é má, Maria é boa e o rei é um viciado em sexo que parece envergonhado de, digamos, não sossegar o facho. As irmãs foram convencidas por seu pai e tio ambiciosos a aumentar o status da família tentando conquistar o coração do rei. Elas são levadas à corte e logo Maria conquista o monarca, dando-lhe um filho ilegítimo. Porém isto não faz com que Ana desista de seu intento, buscando de todas as formas passar para trás tanto sua irmã quanto a rainha Catarina de Aragão (Ana Torrent). Natalie Portman, de fato, se sobressai no seu papel de vilã, mas a beleza e a suavidade de Scarlett, seu contraponto dramático, ajuda muito na construção da sua persona.

2898 - CREED

     
CREED (CREED, USA, 2015) – O diretor e roteirista Ryan Coogler mergulha de cabeça no sentimentalismo com CREED, mas o resultado não poderia ser melhor, principalmente porque conta com Sylvester Stallone revisitando o personagem que lhe deu fama, Rocky Balboa. Aqui, idoso e aposentado, Balboa se transformou num poço de meiguice que, apesar da reticência inicial, topa treinar o filho bastardo de Apollo, Donnie (o elétrico Michael B. Jordan), que o procura com o boxe no sangue. O filme reproduz o “modus operandi” do clássico de 1976: a afeição genuína entre o lutador e seu treinador, a namorada que humaniza ainda mais o protagonista, a luta que o projeta para a fama e o ambiente proletário da Filadélfia. Aliás, as cenas de luta são uma verdadeira obra de arte. A do primeiro desafio de Donnie, com dois rounds filmados em uma tomada só, sem cortes, é de entrar para a história do cinema. Para completar, CREED também é uma justa homenagem a Stallone, cuja obstinação e autenticidade, menos que talento dramático, o colocaram definitivamente como uma das figuras mais icônicas das telas. 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

2897 - O NEVOEIRO

   
Laurie Holden, Jeffrey DeMunn e Frances Sternhagen
 O NEVOEIRO (THE MIST, USA 2007) -  Adaptação de uma história de Stephen King, adaptada e dirigida por Frank Darabont (produtor executivo de THE WALKING DEAD): um nevoeiro misterioso aparece numa cidadezinha do interior (há coisas que só acontecem em cidadezinhas do interior dos Estados Unidos), o que leva um grupo de pessoas a se trancar num supermercado, para fugir do ataque de criaturas supostamente alienígenas. Uma das leituras possíveis do roteiro é que, em algumas situações, o verdadeiro inimigo, mais do que uma ameaça externa, é aquele que está do nosso lado (Trump deveria ver este filme). Isso porque os conflitos mais sérios eclodem exatamente entre o grupo acuado, onde pontifica uma religiosa fanática (a estupenda Marcia Gay Harden), que açula os ânimos ao instar o grupo a acreditar que tudo o que está acontecendo é uma vingança divina. No elenco, o ótimo Toby Jones, Andre Braugher, Frances Sternhagen (a mãe de Cliff, em CHEERS) e três futuros famosos de THE WALKING DEAD – Laurie Holden, Jeffrey DeMunn e Melissa McBride.  
  

2896 - DEXTER - TERCEIRA TEMPORADA

Michael C. Hall e Jimi Smits
DEXTER – TERCEIRA TEMPORADA (DEXTER, THIRD SEASON, USA, 2008) – Esta terceira temporada se concentra num fato novo na vida do serial-killer mais adorável do planeta: alguém quer ser tornar seu melhor amigo. Este alguém é Miguel Prado (Jimi Smits, excelente), um magistrado que, em tese, referendaria a noturna atividade extracurricular de Dexter, ao perpetrar, ele mesmo, alguns “projetos socialmente higienizadores” na grande Miami. Desta forma, Miguel usa seu relacionamento com Dexter como um aprendizado das técnicas de eliminação asséptica que nosso herói tão bem domina e que é magistralmente apresentada quando vemos, em um dos episódios, como se “acaba” uma amizade. Paralelamente, Dexter descobre que vai ser pai e sua ligação com Rita se intensifica, ao mesmo tempo que o faz descobrir a possibilidade de uma vida “mais normal”. As participações do seu finado pai ficam cada vez mais interferentes, o que me levou a considerar uma influência hamletiana na ligação anímica dos dois: de fato, o nível de consciência de Dexter (assim como em Hamlet) se amplifica na medida que seu pai o questiona nas situações mais agudizadas da história, trazendo-o, eventualmente, à trilha da razão. Sim, DEXTER é, entre outras coisas, um exercício prevalência da razão sobre a emoção, o que torna as atitudes do personagem uma irresistível oportunidade para o autoconhecimento. Sócrates haveria de aprovar esta maiêutica dexteriana.