A DAMA DE VERMELHO (THE WOMAN IN RED, USA, 1984) – Clássico dos anos 80, TWIR é o filme de maior sucesso de Gene Wilder, diretor e protagonista desta comédia construída por vários elementos temáticos. Um deles – e, talvez o mais relevante para mim – seja a homenagem à amizade, encapsulada na relação dos amigos de Wilder, Charles Grodin e Joseph Bologna. Claro que há nesta dinâmica o traço evidente do machismo (mesmo que estilizado) no apoio à infidelidade de Theodore (Wilde), porém, para além disso, sobressai uma sensação de entendimento e confiança só existente entre verdadeiros amigos. No mais, Wilder está impecável como um homem fascinado pela beleza feminina, sem perceber, a princípio, que atributos estéticos podem esconder – e escondem – certos valores altamente questionáveis. Atenção para a cena em que Grodin se finge de cego e faz um estrago num restaurante – simplesmente hilariante! O filme reflete a espetacularização da beleza feminina como mercadoria de consumo visual, idealizada pelo desejo masculino e potencializada pela cultura de massa dos anos 1980. A personagem de Kelly LeBrock funciona menos como um indivíduo complexo e mais como a materialização do desejo proibido, sem profundidade psicológica inicial. Na sociedade moderna retratada pelo filme (e impulsionada pela publicidade, profissão do protagonista Teddy), a cor vermelha atua como um gatilho semiótico de atração imediata, perigo e status. Kelly LeBrock vinha diretamente das passarelas, e o filme capitaliza sobre o conceito da supermodelo intocável, cujo valor reside puramente na simetria e na exuberância física hiper-realista. À medida que a trama avança, a obsessão cede lugar ao caos cômico, revelando o vazio da idealização masculina e a humanidade (ou as próprias falhas) por trás da fachada de deusa inalcançável. No cinema noir (anos 1940), a mulher atraente usava a beleza como arma política ou financeira mortal. Em 1984, essa ameaça é domesticada pelo consumo; ela não quer destruir o homem, ela é o troféu que ele deseja comprar. Ao contrário das vilãs clássicas que agiam ativamente, Charlotte (Kelly LeBrock) é um catalisador passivo. O conflito não nasce de suas ações, mas sim da projeção mental e da obsessão estética do protagonista, que trabalha com publicidade. Isso não é um detalhe aleatório: o filme mostra como a mente moderna foi educada a perseguir imagens estáticas e idealizadas, exatamente como cartazes de rua. A direção de Gene Wilder abusa de planos fechados, câmera lenta e enquadramentos fragmentados (pernas, lábios, olhos). Esse recurso cinematográfico reduz a mulher a uma soma de partes perfeitas a serem admiradas. Para o homem moderno da comédia, pelo menos nos anos 80, conquistar a "mulher perfeita" não é apenas um desejo sexual: funciona principalmente como um atestado de sucesso e poder diante de seu círculo de amigos e da sociedade. Trilha sonora de Stevie Wonder!!! Classic of the 80s, TWIR is the most successful film by Gene Wilder, director and protagonist of this comedy built by various thematic elements. One of them – and perhaps the most relevant for me – is the tribute to friendship, encapsulated in the relationship of Wilder's friends, Charles Grodin and Joseph Bologna. Of course, there is in this dynamic the evident trace of machismo (even if stylized) in the support of Theodore's (Wilde) infidelity, but, beyond that, a sense of understanding and trust only exists between true friends stands out. In addition, Wilder is impeccable as a man fascinated by feminine beauty, without realizing, at first, that aesthetic attributes can hide – and do hide – certain highly questionable values. Watch out for the scene where Grodin pretends to be blind and wreaks havoc on a restaurant – simply hilarious! The film reflects the spectacularization of female beauty as a visual commodity, idealized by male desire and enhanced by the mass culture of the 1980s. Kelly LeBrock's character functions less as a complex individual and more as the embodiment of forbidden desire, with no initial psychological depth. In the modern society portrayed by the film (and driven by advertising, the protagonist Teddy's profession), the color red acts as a semiotic trigger of immediate attraction, danger, and status. Kelly LeBrock came straight from the runways, and the film capitalizes on the concept of the untouchable supermodel, whose value lies purely in symmetry and hyper-realistic physical exuberance. As the plot progresses, obsession gives way to comic chaos, revealing the emptiness of male idealization and the humanity (or the flaws themselves) behind the unattainable goddess façade. In film noir (1940s), the attractive woman used beauty as a deadly political or financial weapon. In 1984, this threat is tamed by consumption; She does not want to destroy man, she is the trophy he wants to buy. Unlike the classic villains who actively acted, Charlotte (Kelly LeBrock) is a passive catalyst. The conflict is not born from his actions, but from the mental projection and aesthetic obsession of the protagonist, who works with advertising. This is not a random detail: the film shows how the modern mind has been educated to chase static and idealized images, just like street posters. Gene Wilder's direction abuses close shots, slow motion and fragmented framing (legs, lips, eyes). This cinematographic resource reduces the woman to a sum of perfect parts to be admired. For the modern comedy man, at least in the 80s, conquering the "perfect woman" is not just a sexual desire: it works mainly as a certificate of success and power in front of his circle of friends and society. Oldflix.
sábado, 25 de julho de 2026
5006 - A DAMA DE VERMELHO (1984)
A DAMA DE VERMELHO (THE WOMAN IN RED, USA, 1984) – Clássico dos anos 80, TWIR é o filme de maior sucesso de Gene Wilder, diretor e protagonista desta comédia construída por vários elementos temáticos. Um deles – e, talvez o mais relevante para mim – seja a homenagem à amizade, encapsulada na relação dos amigos de Wilder, Charles Grodin e Joseph Bologna. Claro que há nesta dinâmica o traço evidente do machismo (mesmo que estilizado) no apoio à infidelidade de Theodore (Wilde), porém, para além disso, sobressai uma sensação de entendimento e confiança só existente entre verdadeiros amigos. No mais, Wilder está impecável como um homem fascinado pela beleza feminina, sem perceber, a princípio, que atributos estéticos podem esconder – e escondem – certos valores altamente questionáveis. Atenção para a cena em que Grodin se finge de cego e faz um estrago num restaurante – simplesmente hilariante! O filme reflete a espetacularização da beleza feminina como mercadoria de consumo visual, idealizada pelo desejo masculino e potencializada pela cultura de massa dos anos 1980. A personagem de Kelly LeBrock funciona menos como um indivíduo complexo e mais como a materialização do desejo proibido, sem profundidade psicológica inicial. Na sociedade moderna retratada pelo filme (e impulsionada pela publicidade, profissão do protagonista Teddy), a cor vermelha atua como um gatilho semiótico de atração imediata, perigo e status. Kelly LeBrock vinha diretamente das passarelas, e o filme capitaliza sobre o conceito da supermodelo intocável, cujo valor reside puramente na simetria e na exuberância física hiper-realista. À medida que a trama avança, a obsessão cede lugar ao caos cômico, revelando o vazio da idealização masculina e a humanidade (ou as próprias falhas) por trás da fachada de deusa inalcançável. No cinema noir (anos 1940), a mulher atraente usava a beleza como arma política ou financeira mortal. Em 1984, essa ameaça é domesticada pelo consumo; ela não quer destruir o homem, ela é o troféu que ele deseja comprar. Ao contrário das vilãs clássicas que agiam ativamente, Charlotte (Kelly LeBrock) é um catalisador passivo. O conflito não nasce de suas ações, mas sim da projeção mental e da obsessão estética do protagonista, que trabalha com publicidade. Isso não é um detalhe aleatório: o filme mostra como a mente moderna foi educada a perseguir imagens estáticas e idealizadas, exatamente como cartazes de rua. A direção de Gene Wilder abusa de planos fechados, câmera lenta e enquadramentos fragmentados (pernas, lábios, olhos). Esse recurso cinematográfico reduz a mulher a uma soma de partes perfeitas a serem admiradas. Para o homem moderno da comédia, pelo menos nos anos 80, conquistar a "mulher perfeita" não é apenas um desejo sexual: funciona principalmente como um atestado de sucesso e poder diante de seu círculo de amigos e da sociedade. Trilha sonora de Stevie Wonder!!! Classic of the 80s, TWIR is the most successful film by Gene Wilder, director and protagonist of this comedy built by various thematic elements. One of them – and perhaps the most relevant for me – is the tribute to friendship, encapsulated in the relationship of Wilder's friends, Charles Grodin and Joseph Bologna. Of course, there is in this dynamic the evident trace of machismo (even if stylized) in the support of Theodore's (Wilde) infidelity, but, beyond that, a sense of understanding and trust only exists between true friends stands out. In addition, Wilder is impeccable as a man fascinated by feminine beauty, without realizing, at first, that aesthetic attributes can hide – and do hide – certain highly questionable values. Watch out for the scene where Grodin pretends to be blind and wreaks havoc on a restaurant – simply hilarious! The film reflects the spectacularization of female beauty as a visual commodity, idealized by male desire and enhanced by the mass culture of the 1980s. Kelly LeBrock's character functions less as a complex individual and more as the embodiment of forbidden desire, with no initial psychological depth. In the modern society portrayed by the film (and driven by advertising, the protagonist Teddy's profession), the color red acts as a semiotic trigger of immediate attraction, danger, and status. Kelly LeBrock came straight from the runways, and the film capitalizes on the concept of the untouchable supermodel, whose value lies purely in symmetry and hyper-realistic physical exuberance. As the plot progresses, obsession gives way to comic chaos, revealing the emptiness of male idealization and the humanity (or the flaws themselves) behind the unattainable goddess façade. In film noir (1940s), the attractive woman used beauty as a deadly political or financial weapon. In 1984, this threat is tamed by consumption; She does not want to destroy man, she is the trophy he wants to buy. Unlike the classic villains who actively acted, Charlotte (Kelly LeBrock) is a passive catalyst. The conflict is not born from his actions, but from the mental projection and aesthetic obsession of the protagonist, who works with advertising. This is not a random detail: the film shows how the modern mind has been educated to chase static and idealized images, just like street posters. Gene Wilder's direction abuses close shots, slow motion and fragmented framing (legs, lips, eyes). This cinematographic resource reduces the woman to a sum of perfect parts to be admired. For the modern comedy man, at least in the 80s, conquering the "perfect woman" is not just a sexual desire: it works mainly as a certificate of success and power in front of his circle of friends and society. Oldflix.