quarta-feira, 25 de outubro de 2017

2967 - O BENFEITOR

Gere, magnético
    O BENFEITOR (THE BENEFACTOR, USA 2015) – Produção de evidente baixo orçamento protagonizada por Richard Gere, que faz um milionário que, consumido pela culpa de um acidente no passado, faz tudo para compensar a filha recém-casada. O filme se perde no seu objetivo: fica-se sem saber se a intenção era o drama revisionista ou um olhar sobre as reminiscências que povoam a terceira idade. De fato, estes filmes “pequenos” parecem, muitas vezes, não ter como competir com determinadas séries muito mais elaboradas em termos de roteiro e que prendem a atenção do público. Neste caso, embora Gere esteja competente, como sempre, sua história não atinge o coração do espectador, como deveria ser o esperado. Assim como no emocionante TIME OUT OF MIND (2014), Gere esbanja um timing dramático que imediatamente capta o sentimento solidário de quem o vê. Destarte, ele é o único motivo de se chegar aos créditos finais.   

terça-feira, 24 de outubro de 2017

2966 - A GAROTA DO ADEUS

Mason e Dreyfuss
    A GAROTA DO ADEUS (THE GOODBYE GIRL, USA 1977) – Richard Dreyfuss ganhou o Oscar de Melhor Ator por este papel nesta comédia que, depois de tantos anos, perdeu seu viço. Se, na época, a história de uma bailarina desempregada (Marsha Mason), com uma filha de 10 anos, sublocando um quarto no seu apartamento para um ator iniciante (Dreyfuss) tinha algum charme, agora, ela soa muito datada, com situações que a sociedade passou a ver com muito mais naturalidade, sem as estranhezas características dos anos 70. Dreyfuss realmente está de corpo e alma ao personagem que, fisicamente, tem muito a ver com o Matt Hoper, o oceanógrafo de TUBARÃO (1974). 

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

2965 - BLADE RUNNER: O CAÇADOR DE ANDROIDES

   
A cena definitiva...
   BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDROIDES (BLADE RUNNER, USA 1982) – Mistura de ficção do século XXI com os filmes noir de detetive dos anos 40, o filme de Ridley Scott resultou numa visão de uma distopia ácida que, mesmo depois de tantos anos, ainda impressiona pelas questões existenciais que levanta. O espetacular desenho de produção mostra a visão de Scott para uma Los Angeles em 2019 (daqui a dois anos!!!), sombria e iluminada por neon, com ruas superpovoadas sobre as quais cai uma chuva ácida contínua e se transformou num paradigma para filmes do gênero desde então. Repleto de simbolismo, BLADE RUNNER gerou muito debate sobre religião, clonagem, ética, poluição, eugenia, relações sociais etc. A versão do diretor tem cenas adicionais, deixou de fora a narração em off de Ford e o final feliz imposto pelo estúdio. Rever a cena em que Roy (Rutger Hauer) acaricia uma pomba e diz a famosa fala (inventada por ele próprio), ainda é de um impacto enorme: “E todos estes momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva...”. Obra-prima, um dos pontos mais altos do cinema de ficção científica. 

domingo, 22 de outubro de 2017

2964 - ASSASSINO A PREÇO FIXO

Statham a preço fixo
ASSASSINO A PREÇO FIXO (THE MECHANIC, USA 2011) – Nada de novo no roteiro: THE MECHANIC é apenas um veículo para que Jason Statham dê vazão ao personagem que ele repete com prazer e também com razoável eficiência – o matador profissional, frio, safo, inabalável diante de qualquer perigo. O fato é que Statham é mesmo um ator para este tipo de papel, que não requer qualquer pilar dramático para que tudo funcione de maneira mediana, mas a contento do público a que se destina. Ele fez o mesmo em ADRENALINA e em CARGA EXPLOSIVA. Portanto, se é um genérico de James Bond ou não, o que importa é que Statham vai levando sua carreira sem maiores cobranças e entregando um produto não muito sofisticado, mas com um nicho comercial garantido na indústria do cinema contemporâneo. 

2963 - A PENÚLTIMA DONZELA

Mossy e Djenane Machado
      A PENÚLTIMA DONZELA (BRASIL, 1969) – Típico exemplar dos filmes “jovens” que pululavam no cenário do cinema nacional, no fim dos anos 60, A PENÚLTIMA DONZELA traz os elementos que refletiam os roteiros de tantos outros filmes da época: os preconceitos sexuais em discussão em plena classe média carioca da zona sul, rapazes que só queriam transar e meninas “liberadas” fazendo um discurso progressista em relação aos costumes, um painel que reúne aspectos difusos da comédia erótica, sem ir a fundo (sem trocadilho) na discussão sobre um tema batidíssimo: o choque de gerações. No elenco, Carlo Mossy (dublado por Reginaldo Faria!), Adriana Prieto e Paulo Porto. 

sábado, 21 de outubro de 2017

2962 - IT WAS FIFTY YEARS AGO TODAY! THE BEATLES: SGT. PEPPER & BEYOND

     
 IT WAS FIFTY YEARS AGO TODAY! THE BEATLES: SGT. PEPPER & BEYOND (UK, 2017) – Documentário sobre o álbum lançado há 50 anos, com entrevistas da época e algumas atuais, mas que, curiosamente, não traz uma música sequer do SGT. PEPPER. De qualquer forma, o material é bem interessante, com um enfoque no papel inicial de Brian Epstein na formação da banda, até a sua morte súbita, enquanto os Beatles estavam viajando com o Maharish. Ainda há uma parte sobre o começo e fim da empresa APPLE. Está abaixo do filme de Ron Howard, mas ainda é um “must-see” para os fãs do quarteto. 

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

2961 - DEXTER - TEMPORADA OITO

 
Dexter - o personagem foi maior que a série
      DEXTER – TEMPORADA 8 (DEXTER, SEASON 8, USA 2013) – A última temporada de Dexter ficou bem abaixo das expectativas, como já indicavam as anteriores. De fato, a série teve seu ponto mais alto no quarto ano, quando Dexter enfrentou Trinity, seu inimigo mais terrível. Os roteiristas resolveram fechar o arco dramático da história inserindo uma neuropsiquiatra, Dra. Vogel (Charlotte Rampling), que explicaria a origem do código que norteava nosso amado serial killer, o que, a meu ver, “matou” a história, pois, assim como a Força de STAR WARS, há elementos que não devem ser explicados, sob pena de elidir a mágica. Sim, no início, Dexter encantava pelo inusitado das suas motivações, algo que não era definido (apesar do Código), mas que aceitávamos tacitamente, como parte imanente de um personagem tão fascinante. Os episódios desta temporada foram irregulares, sendo que nenhum merece destaque, a não ser o último, negativamente. Quando ainda restava em nós algum laivo de esperança de que a série, pelo menos no seu “series finale”, recuperasse um pouco da força que se dissipou nos últimos anos, o que se viu foi um episódio apressado, com várias pontas soltas e com situações não apenas pouco críveis, mas beirando o absurdo. É compreensível que se tenha expectativas muito altas em relação a uma série que começou de forma tão sensacional, mas nada justifica um aparente descaso com um desfecho que poderia ter sido a redenção dramática que todos esperavam. Talvez, os roteiristas (sempre eles!) tivessem a seguinte mensagem em mente: sobreviver àqueles que ama poderia ser o maior castigo para Dexter, se é que ele precisava mesmo ser castigado. Ou seria ele incapaz de acabar com a própria vida, mesmo depois de ter tirado tantas outras? Ou seja, ao sobreviver, ele talvez tenha se autopunido da pior forma possível. Num mergulho mais psicanalítico, será que alguém quis passar uma nota sutil ao chamar o furacão que assola Miami de Laura, e no qual Dexter busca um fim/retorno/salvação com o mesmo nome da sua mãe (Laura Moser)? O fato é que a série alcançou seu pináculo na quarta temporada, e foi exatamente isso que a enfraqueceu nas seguintes. A melhor coisa que pode acontecer com uma série é terminar no auge, como aconteceu com a FAMÍLIA SOPRANO – DEXTER teve uma sobrevida meio desenxabida, como um corpo que resiste apenas com ajuda de aparelhos. De qualquer forma, Michael C. Hall foi simplesmente perfeito na composição de um personagem extremamente difícil – afinal, fazer de um psicopata o personagem central da trama e torná-lo simpático ao público é um desafio e tanto que Hall venceu com brilhantismo. Talvez um episódio extra pudesse mostrá-lo matando os maiores vilões das últimas temporadas: os roteiristas.


  






quinta-feira, 19 de outubro de 2017

2960 - ANIMAIS NOTURNOS

Amy Adams, num ensaio sobre a beleza e a feiura represada
      ANIMAIS NOTURNOS (NOCTURNAL ANIMALS, USA 2016) – Tom Ford, além de diretor, é designer e magnata da moda. Tal currículo o faz ter um apreço exacerbado pela estética, quase como uma obsessão que, contida, emerge, aqui e ali, quando menos se espera. É assim que ele apresenta ANIMAIS NOTURNOS: como um desfile de sentimentos e impressões que, a cada mudança de roupa/cena/personagem, explode no cultivo do belo, do simétrico, do “clean” total, do perfeito, do rarefeito. É exatamente aí que ele joga com uma certa ambiguidade – na beleza aparentemente equilibrada da vida da galerista Susan Morrow (Amy Adams, excelente), escondem-se feiuras que o tempo tratou de reprimir. Quando recebe um livro escrito pelo ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal) e começa a lê-lo, Susan vai percorrendo um caminho que a deixou anestesiada pela culpa. Os tons narrativos vão se superpondo, como tecidos diáfanos sob a roupagem principal. Gosto, sobretudo, de filmes que têm livros como elementos da história. E é através da leitura de Susan que os fantasmas, dela e de Edward, reaparecem dando novo significado à história interrompida de suas vidas. É um filme que se equilibra entre a abordagem cerebral e o açulamento das emoções represadas pela culpa e a vingança. O espetacular Michael Shannon aparece como um policial cujo oblíquo código moral dá ao roteiro – e aos personagens - uma válvula de escape inesperada.     


  


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

2959 - RICHARD LINKLATER: O SONHO É O DESTINO

   
 RICHARD LINKLATER: O SONHO É O DESTINO (RICHARD LINKLATER: DREAM IS DESTINY, USA 2016) – Muito bom documentário sobre  carreira de Linklater, desde o começo, no cinema indie, no Texas, até a realização de BOYHOOD, sua grande obra de sucesso. Assim como no excelente documentário sobre Steven Spielberg, aqui se vê a paixão de Linklater pelo cinema desde a infância e o processo de amadurecimento do seu ofício. Há muitas cenas em que ele aparece analisando flash-backs da sua própria vida, o que nos ajuda a entender uma jornada que produziu alguns trabalhos excelentes – como a trilogia ANTES DO PÔR DO SOL – e outros menos notáveis. 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

2958 - ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM

Redmayne, apagado, numa história idem
   ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM (FANTASTIC BEASTS AND WHERE TO FIND THEM, Inglaterra, USA, 2016) – Este spin-off do sucesso de Harry Potter, roteirizado pela própria J.K. Rowling, apresenta, do início ao fim uma pletora de (bons) efeitos visuais, mas derrapa numa história flébil, com personagens tão perdidos e estranhos quanto as criaturas que Newt Scamander (Eddie Redmayne, totalmente sem inspiração) traz dentro de uma mala, quando chega a Nova Iorque, nos anos 20. É claro que os elementos visuais vão dando sustentação ao filme, mas a premissa de que criaturas mágicas estão causando os mais diversos prejuízos à cidade se esvazia rapidamente. Eddie Redmayne passa a maior parte do tempo ininteligível – tem-se muita dificuldade para entender o que ele fala. Certamente, ele nem o diretor David Yates (de quatro dos oito filmes da série Harry Potter) acharam o tom certo para o personagem. E ninguém explica por que ele foi expulso de Hogwarts, embora sua sensaboria já esclareça o fato. Assim, ANIMAIS FANTÁSTICOS se arrasta, como um navio à deriva. Fantástico? Em nada. Animais? Muitos, mas quase todos desenxabidos e desinteressantes. Os destaques vão para o padeiro rechonchudo Jacob Kowalski (Dan Fogler) e para Colin Farrell, excelente como Percival Graves, chefe da Divisão de Segurança Mágica. É um filme que promete muito, porém entrega muito pouco também, pois, apesar de todo o aparato técnico que dá vestimenta a uma história fraca, fica-se com a forte impressão de que faltou mesmo mágica.


  


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

2957 - CONFISSÕES DE UMA GAROTA DE PROGRAMA

Sasha Grey, sem qualquer talento
  CONFISSÕES DE UMA GAROTA DE PROGRAMA (THE GIRLFRIEND EXPERIENCE, USA, 2009) – De fato, ainda hoje, fica meio difícil entender o que Steven Soderbergh quis com este filme sobre uma garota de programa Chelsea, (Sasha Grey), em Nova Iorque, tendo como pano de fundo a campanha eleitoral de 2008. O filme é monótono, e as atuações parecem todas engessadas (seria de propósito?), principalmente a da protagonista, que, na época, alcançou relativo sucesso na indústria pornô. Fica claro que, fora deste segmento, ela realmente não sabe atuar. O roteiro se perde em análises da economia americana e em reflexões que Chelsea produz entre um programa e outro, mas sem qualquer aparente objetivo. O título em português é meio apelativo, já que, “The girlfriend experience” é o serviço de acompanhante no qual a mulher, além do sexo, tem que fazer-se de namamorada, num contexto social.  





domingo, 15 de outubro de 2017

2956 - SPIELBERG


  SPIELBERG (USA, 2017) – Documentário da HBO sobre a vida e obra de Steven Spielberg. Além de imagens inéditas dos primeiros filmes caseiros do responsável por “E.T., o extraterrestre” e farto arquivo dos bastidores de suas filmagens desde os anos 1970, boa parte jamais mostrado ao público, a diretora Susan Lacy teve livre acesso aos interlocutores criativos mais constantes do diretor (John Williams, Martin Scorsese, George Lucas, Francis Ford Coppola, Brian de Palma, Leonardo DiCaprio, Tom Hanks, Tom Cruise) e à família Spielberg. O filme começa e termina com cenas de “Lawrence da Arábia” (1962) e a revelação do retratado de sonhar desde cedo em fazer um cinema que resgatasse as emoções por ele sentidas ao ver os filmes de sir David Lean (1909-1991). Lacy segue de perto a trajetória do homem responsável tanto por “Tubarão” (1975), o filme mais lucrativo da história do cinema em seu lançamento, quanto “O mundo perdido - Jurassic Park” (1997), que abriu as portas para a revolução tecnológica do cinemão contemporâneo. E busca mostrar que ninguém alterou tanto os rumos de Hollywood quanto Spielberg. Especialmente ao domar, como o amigo George Lucas (“Star wars”), o experimentalismo de seus parceiros de geração, apelidados de “Jovens Turcos” por virarem do avesso o mainstream, para o entretenimento com viés assumidamente adolescente e de potencial comercial muito maior.










sábado, 14 de outubro de 2017

2955 - O GRANDE DITADOR

 
Gênio, sempre...
      O GRANDE DITADOR (THE GREAT DICTATOR, USA 1940) – Chaplin obrigatório. É relevante notar que, na época da produção do filme, Hitler não era percebido como uma grande ameaça. Por isso, o filme ganhou ainda mais destaque depois de seu lançamento, mesmo porque Hollywood, então, não se envolvia com conflitos da política internacional. É uma sátira social ousada e extremamente eficiente, com sutilezas dignas de gênio. Ne elenco, Paulette Goddard – esposa de Chaplin na época. Destaque para a dança que o personagem que emula Hitler faz com o globo terrestre e o discurso final, exortando as pessoas a construírem um mundo melhor. Obra-prima, em todos os sentidos.



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

2954 - SEINFELD BEFORE SEINFELD

Jerry Seinfeld, genial como sempre
      SEINFELD BEFORE SEINFELD (USA, 2017) – Programa especial com Jerry voltando ao Comic Strip, em Nova Iorque, onde começou sua carreira, em 1976. Apesar de algumas piadas requentadas – quem assistiu à série vai lembrar de várias histórias que ele repete aqui com a mesma desenvoltura de sempre. É mesmo impressionante a capacidade de Seinfeld extrair o risível e o absurdo das situações mais cotidianas. Há duas boas tiradas. A primeira é sobre as pessoas canhotas (left-handed people) – “I’m left-handed. Left-handed people do not lie that the word left is so often associated with negative things: Two left feet, left-handed compliment, what are we having for dinner — leftovers. You go to a party, there’s nobody there, where did everybody go? They left”. Dá até para ouvir a voz de Jerry, não? Depois, a história é sobre o uso das preposições em inglês. Fica sem tradução, mas é excelente numa aula de inglês. 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

2953 - NO FIM DO TÚNEL

Sbaraglia, estupendo
    NO FIM DO TÚNEL (AL FINAL DEL TÚNEL, Argentina/ Espanha, 2016) – Saudações, mais uma vez, ao cinema de língua espanhola, principalmente o dos nossos vizinhos do Sul. É impressionante o número de produções de altíssima qualidade originadas destas duas nações. Minha admiração pelo cinema argentino cresce a cada dia. No filme em questão, o extraordinário Leonardo Sbaraglia, é Joaquim, um tetraplégico solitário cujo tempo é passado consertando computadores, que vive num casarão, ao lado de um banco. Logo, descobre que ladrões estão fazendo um túnel por baixo de sua casa, para assaltar a agência. Neste meio tempo, uma dançarina de boate, que tem uma filha autista, aluga um quarto na sua casa. Joaquim descobre o plano dos criminosos e, a partir daí, o filme do diretor Rodrigo Grande assume ares de thriller de suspense hitchcockiano, repleto de imagens tensas perpassadas por intrigas, mistério e violência. Tudo isso num único cenário, na maior parte do tempo, realização que sempre me provoca imensa admiração. De certa forma, o drama vivido por Joaquim é kafkiano, a partir do momento em que começa a ouvir vozes no porão da casa, até descobrir o plano que está prestes a acontecer. Um filme imperdível!


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

2952 - UM MILHÃO DE ANOS ANTES DE CRISTO

Se isso era a pré-história, quem precisa da pós-modernidade?

UM MILHÃO DE ANOS ANTES DE CRISTO (ONE MILLION YEARS B
. C., USA 1966) – Curiosa produção da Hammer (a centésima) sobre a vida na pré-história, envolvendo tribos de trogloditas e, claro, uma só de mulheres, tendo Raquel Welch logo à frente. Os efeitos especiais ficaram a cargo do mestre Ray Harryhausen. Revendo este filme agora, me dou conta de que este, O PLANETA DOS MACACOS, THE OMEGA MAN, os filmes de James Bond, entre outros, marcaram toda uma geração que, sem internet, DVD ou streaming, desenvolveu um sentimento indelével de amor ao cinema. Raquel Welch com seu biquíni de peles acabou virando uma das imagens mais duradouras da sétima arte (o pôster está no emocionante UM SONHO DE LIBERDADE), como não poderia deixar de ser. Ainda impressiona, devo dizer. Claro que não há acurácia histórica – homens não conviveram com dinossauros -, mas quem se importa? Raquel Welch estava lá. Puro entretenimento que se tornou combustível para a imaginação, em todos os sentidos. 




terça-feira, 10 de outubro de 2017

2951 - O CHAMADO 3

Johnny Galecki
      O CHAMADO 3 (RINGS, USA 2017) – Este é um bom exemplo de um roteiro para lá de reciclado e que, desta forma, perdeu totalmente sua significação ao logo desta terceira edição da história da tal fita k-7 (sério?), que determina a quem a assiste a sua própria morte em sete dias. Há supostos atrativos no elenco, como Johnny Galecki, o Leonard de THE BIG BANG THEORY, e Vincent D’Onofrio. Mas nada funciona. A premissa “assista ao vídeo, atenda o telefone e tenha sete dias para morrer” se desgastou depois 12 anos do primeiro filme, e o que assusta aqui é a falta de originalidade de uma história que tenta sobreviver através do aniquilamento de uma franquia que deveria ter parado na primeira produção. Já vimos este filme. 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

2950 - JOGO PERIGOSO

  
Carla Gugino, presa ao papel de esposa
 JOGO PERIGOSO (GERALD’S GAME, USA 2017) – Baseado num romance de Stephen King, a história começa com um casal (Carla Gugino e Bruce Greenwood) tentando apimentar sua vida sexual, numa casa isolada perto de um lago: ele a algema na cama e, logo a seguir, morre inesperadamente, deixando a esposa presa e exposta a alucinações com o próprio marido e com personagens de sua vida na infância. O diretor Mike Flanagan aproveita bem as limitadas possibilidades de um set único – o quanto em que Jessie (Carla Gugino) está presa – para explorar diversos aspectos psicológicos que vão de manifestações mentais de opressão a flashbacks que tentam jogar luzes à trama. A narrativa não perde seu ritmo em momento algum, navegando por diversos elementos do roteiro com habilidade, usando quase todo aspecto visual disponível e um constante sentimento de imprevisibilidade para manter o espectador atento.  






domingo, 8 de outubro de 2017

2949 - UM FIM DE SEMANA DIFERENTE

Clive Owen, soberbo, mais uma vez
   UM FIM DE SEMANA DIFERENTE (THE CONFIRMATION, USA 2016) – Aparentemente, mais um filme sobre um pai divorciado que, ao passar o fim de semana com o filho, se reaproxima dele. Sim, mas só que não. Antes de tudo, Clive Owen está no elenco, como o pai alcoólatra, desempregado que, até então, tem uma relação meio distante do filho. E Owen, claro, é obrigatório, embora seja um ator subestimado. Sua presença em cena é alguma coisa que não se vê normalmente no cinema. Neste filme, sobretudo, ele dá uma nova dimensão ao já surrado papel de pai separado, sem esperanças, vivendo à margem do bom mocismo ianque. Os fatos que acontecem no fim de semana com o filho são meramente pretextos para que os dois se redescubram em afinidades inesperadas e entendimentos que superam as expectativas. Nossas, inclusive. Há, também, no roteiro, uma crítica sutil à igreja católica. THE CONFIRMATION é um daqueles filmes “coming of age”, que retratam ritos de passagem, realizado com sensibilidade, sem qualquer laivo de sentimentalismo, tão comum em filmes deste tipo. Lembre-se: Clive Owen é obrigatório.  

sábado, 7 de outubro de 2017

2948 - UM CONTRATEMPO

 
Uma obra-prima, enfim!
   UM CONTRATEMPO (CONTRATIEMPO (Espanha, 2016) – Thriller de suspense policial de encher os olhos, CONTRATEMPO é uma daquelas pepitas de ouro cinematográfico que não se pode deixar de ver. Perdido no extenso rol da Netflix, é um filme de enredo originalíssimo, com elenco competente e twists genialmente concebidos. Os ângulos de câmera, a trilha sonora (que lembra Hermann), a narrativa inesperada, tudo muito acima dos clichês a que Hollywood nos acostumou, mostrando a excelência do cinema espanhol que, assim como o Argentino, são magníficos em termos de roteiro e realização. Não há qualquer cena desperdiçada, a edição é estupenda e a história, em si, é tão perfeitamente elaborada, que nos permite uma revisão constante, como o mesmo regozijo, numa aventura cerebral notável. Ademais, a fotografia deslumbrante dos cantões da Espanha é praticamente um convite para uma viagem imediata.   

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

2947 - FRANKENSTEIN (1931)

O criador e a criatura
    FRANKENSTEIN (USA, 1931) O filme é parte da icônica franquia dos monstros da Universal, iniciada com o O CORCUNDA DE NOTRE DAME. Boris Karloff acabou dando vida (ou meia vida, vá lá) à criatura do Dr. Henry Frankenstein (Colin Clive) e garantido para si próprio a imortalidade da composição de um dos maiores personagens da literatura gótica. As influências do Expressionismo alemão estão evidentes desde a primeira cena, em um cemitério, durante um enterro: os planos médios que percorrem os membros da família enlutada contrastam com os closes nos rostos de Henry e de seu assistente, e isso já os coloca no imaginário dos vilões, embora esta abordagem esbarre numa hermenêutica mais ética do que epistêmica. O desenho cenográfico é primoroso: o laboratório de Henry é um lugar inóspito e escuro, representando as consequências deletérias que seu experimento poderia causar, ao mesmo tempo que também é uma alegoria da insanidade que o acomete gradativamente. Assim o horror de FRANKENSTEIN não está no explícito, mas nas ações subentendidas através das falas e dos longos silêncios entre as cenas. 







quarta-feira, 4 de outubro de 2017

2946 - INSEPARÁVEIS

    
   INSEPARÁVEIS (INSEPARABLES, Argentina, 2016) – Apesar de realizado com esmero e reverência ao original, esta versão portenha do clássico francês INTOCÁVEIS (2011) acaba ficando em desvantagem no cotejo (inevitável) com o original. O diretor Marcos Carnevale (do ótimo CORAÇÃO DE LEÃO) apenas repete, literalmente, cena por cena, o filme protagonizado por Omar Sy, cujo papel, aqui, é feito por Rodrigo de La Serna de forma exagerada e pseudamente engraçada. O que em Omar Sy ficou natural e cativante, em La Serna resultou numa atuação meio forçada, sem brilho e quase caricatural. Por outro lado, Oscar Martinez (de RELATOS SELVAGENS) está corretíssimo no papel do milionário paraplégico e entrega uma atuação segura e digna, como a de François Cluzet, no filme de Olivier Nakache. Não temos Paris, mas ganhamos belas sequências de Buenos Aires e uma sensação inefável de que seria melhor não ter realizado esta refilmagem. Mas o cinema argentino tem crédito e, mesmo pecando pela falta de originalidade nesta produção, ainda está a milhares de milhas qualitativas do nosso paupérrimo cinema nacional. O problema é que caiu na armadilha de uma corrente do cinema contemporâneo de realizar remakes quase idênticos aos filmes originais. Até mesmo Gus Van Sant, que refez PSICOSE quadro a quadro, e Michael Haneke, que chegou a refilmar, “shot by shot”, um filme que ele mesmo havia feito (VIOLÊNCIA GRATUITA), só para lançá-lo nos EUA, cometeram a mesma heresia cinematográfica. INSEPARÁVEIS pode funcionar para quem não viu o filme francês. Se não for o caso, esqueça, pois Omar Sy e François Cluzet são mesmo intocáveis.  






terça-feira, 3 de outubro de 2017

2945 - OBAMA E MICHELLE

Parker e Tika Sumpter
     OBAMA E MICHELLE (SOUTHSIDE WITH YOU, USA, 2016) – O filme retrata o início do relacionamento de Obama e Michelle, em Boston, de forma bem-humorada e leve, como deve ter sido na vida real. Parker Sawyers e Tika Sumpter personificam o futuro primeiro-casal com charme e ternura. Uma das qualidades do roteiro é mostrar as características dos personagens num período muito curto de suas biografias. Michelle trabalha na mesma empresa de advocacia que Obama e, exatamente por isso, tem receios de começar um romance. Ela sabe que pode ser julgada pelo relacionamento, principalmente pelo fato de ser uma mulher negra tentando conquistar seu espaço. Já Obama consegue mostrar o talento para lidar com as mais inesperadas situações e conquistar o coração da futura primeira-dama dos Estados Unidos.



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

2944 - KAMCHATCKA

   
Darín, magnífico
  
KAMCHATCKA (Argentina, 2002) – Ricardo Darín é obrigatório. Neste emocionante relato de uma família que foge dos horrores da ditadura portenha, em 1976, ele brilha junto como o menino Matías Del Pozo, como Harry, sob cujo ponto de vista a história é contada. O filme é mais uma das preciosidades que o cinema argentino nos oferece, enquanto aqui no Brasil continuamos a fazer filmes de quinta categoria, sem qualquer laivo de qualidade artística. Cada produção portenha eleva o nível de um cinema que tem em Darín seu expoente máximo. Este filme é uma homenagem aos que caíram durante os anos de chumbo que o golpe impôs à população e especialmente às almas mais sensíveis, como Harry. Mais uma vez: a cena final é de abalar os corações, pela beleza e simplicidade dramática.  

domingo, 1 de outubro de 2017

2943 - O SOBREVIVENTE

Zahn e Bale, emocionantes
O SOBREVIVENTE (RESCUE DOWN, USA 2006) – Mais uma impressionante atuação de Christian Bale (Céus! Como ele ainda não ganhou um Oscar?). Aqui, ele é um piloto da força aérea americana que, abatido durante a guerra no Vietnam, é capturado e torturado por vietcongs. O diretor Werner Herzog apresenta uma história de sobrevivência emocionante, baseada no relato do piloto Dieter Dengler, que viveu (e sofreu) a experiência na vida real. A cinematografia da selva é de tirar o fôlego, dada a força das imagens feitas nas locações na Tailândia. Bale, mais uma vez, põe seu corpo a serviço do personagem – a impressão que se tem é que este vai ser o último papel, em função da intensidade de sua entrega. Outro destaque é Steve Zahn, seu companheiro de prisão, que divide com Dengler, o limite entre a insanidade da guerra e a esperança quase impossível da fuga.