quarta-feira, 7 de outubro de 2026

5060 - A NOITE DOS DESESPERADOS (1969)

 


A NOITE DOS DESESPERADOS (THEY SHOOT HORSES, DON’T THEY? USA, 1969) – O filme de Sydney Pollack, é uma das mais contundentes críticas cinematográficas ao mito do sonho americano. Ambientado durante a Grande Depressão dos anos 1930, o longa utiliza uma maratona de dança como metáfora de uma sociedade que transforma o sofrimento humano em espetáculo e que divide as pessoas entre "vencedores" e "perdedores" de forma cruel e simplista. A personagem Gloria Beatty, interpretada por Jane Fonda, é o centro ideológico da narrativa. Diferentemente dos demais participantes, ela não alimenta ilusões sobre o futuro. Sua visão é amarga, cínica e profundamente lúcida. Gloria compreende que a competição não é um caminho para a ascensão social, mas uma armadilha criada para explorar os desesperados. Enquanto muitos concorrentes enxergam a maratona como uma oportunidade de mudança de vida, ela percebe que todos são apenas entretenimento para uma plateia que consome o fracasso alheio como diversão. Sua famosa postura pessimista não decorre de uma deficiência moral ou psicológica, mas da consciência de que o sistema está viciado desde o início. Nesse sentido, Gloria representa o indivíduo que deixou de acreditar na narrativa meritocrática americana. O concurso de dança reproduz a lógica do sonho americano: todos começam teoricamente com as mesmas oportunidades. Apenas um casal vencerá. O sucesso é apresentado como fruto exclusivo do esforço individual, enquanto o fracasso é atribuído à falta de resistência ou competência. Porém, o filme desmonta essa premissa. Os participantes enfrentam fome, esgotamento físico, humilhação pública e manipulação dos organizadores. A competição é desigual e construída para produzir sofrimento. Pollack sugere que o sonho americano funciona da mesma forma: promete prosperidade universal, mas depende da existência de uma maioria derrotada para validar o sucesso de uma minoria. O filme também critica a classificação simplista entre winner e loser, tão presente na cultura norte-americana. Na lógica da maratona, quem permanece na competição é considerado forte, quem desiste é considerado fraco. O vencedor é celebrado, ao passo que o derrotado é esquecido. Mas Pollack mostra que essa distinção é artificial. Os competidores não são diferentes moralmente. São pessoas vulneráveis submetidas a circunstâncias extremas. Gloria é vista pelos demais como uma "loser". Ela não sorri, não demonstra entusiasmo e não acredita na competição. Entretanto, paradoxalmente, é a personagem que enxerga a realidade com maior clareza. Já muitos dos participantes mais otimistas se tornam vítimas justamente porque acreditam no jogo. O filme sugere que a sociedade capitalista tende a transformar condições estruturais em questões morais: quem vence seria naturalmente superior; quem perde seria responsável pela própria derrota. Pollack rejeita essa interpretação. Ao contrário das protagonistas clássicas de Hollywood, Gloria não busca redenção nem crescimento pessoal. Ela não acredita em finais felizes. Sua existência é marcada pela percepção de que está presa em um sistema sem saída. Essa característica torna a personagem revolucionária para o cinema americano do final dos anos 1960. Jane Fonda constrói uma mulher que não aceita as mentiras reconfortantes da cultura dominante. Por isso, Gloria não é apenas uma derrotada. Ela é uma figura de resistência intelectual. Sua recusa em aderir à ficção do sucesso individual a transforma numa espécie de profeta trágica. O significado do final O desfecho radical do filme culmina numa denúncia devastadora da lógica winner/loser. Quando a vida perde o sentido dentro de um sistema que reduz os indivíduos à utilidade e ao desempenho, a própria ideia de vitória torna-se vazia. A famosa frase que dá título ao filme ("atiram nos cavalos, não atiram?") estabelece uma analogia direta entre os cavalos exaustos de uma corrida e os seres humanos destruídos pela competição incessante. Não há vencedores verdadeiros na maratona. Nem mesmo quem ganha escapa da degradação moral e física produzida pelo espetáculo. A Noite dos Desesperados é uma poderosa desconstrução do sonho americano. Através de Gloria, Jane Fonda encarna a consciência crítica de uma sociedade que promete mobilidade, felicidade e sucesso, mas frequentemente entrega exploração, exclusão e desespero. A grande ironia do filme é que a personagem considerada uma "loser" é justamente a única capaz de perceber a mentira por trás do jogo. Pollack inverte a lógica tradicional: o verdadeiro fracasso não está em perder a competição, mas em acreditar que ela era justa desde o começo. Sob essa perspectiva, Gloria não é a derrotada da história. Ela é a personagem que compreende que, em um sistema construído sobre a desigualdade e o espetáculo da sobrevivência, a distinção entre vencedor e perdedor é, em grande parte, uma ilusão ideológica. Oldflix.