quinta-feira, 15 de outubro de 2026

5063 - ATRAÇÃO PERIGOSA (2010)


ATRAÇÃO PERIGOSA (THE TOWN, USA, 2010) – The Town é um filme particularmente interessante, embora pouco original, porque constrói seu protagonista criminoso de maneira muito mais sedutora do que a tradição do cinema policial costuma fazer. Dirigido (bem) e estrelado (mal, como sempre) por Ben Affleck, TT acompanha Doug MacRay (Affleck), líder de uma quadrilha de assaltantes de banco em Boston, e convida o espectador a enxergar o mundo a partir de sua perspectiva. É justamente aí que surge a questão da glamurização. Doug MacRay não é apresentado como um criminoso comum. Desde o início, o filme enfatiza suas qualidades humanas: é inteligente e estratégico, além de demonstrar sensibilidade, e demonstra lealdade aos amigos, possui traumas familiares, deseja abandonar a vida criminosa e começa um romance sincero com Claire (Rebecca Hall). Esses elementos aproximam o personagem do arquétipo do "herói trágico". O espectador passa a vê-lo menos como um assaltante violento e mais como alguém preso a circunstâncias sociais e familiares difíceis. Por outro lado, as vítimas dos assaltos recebem relativamente pouco espaço dramático, e embora vejamos seu sofrimento em algumas cenas, a narrativa não se prende a elas. O foco retorna rapidamente aos criminosos. Como consequência, a identificação emocional do espectador tende a se concentrar no assaltante, e não nos assaltados. Doug segue uma tradição muito antiga do cinema americano: o criminoso que possui um código de honra (alguém aí fã de Dexter?). Ele lembra personagens de filmes de gangster clássicos e de obras como: Bonnie and Clyde (1967) Heat (1995) Donnie Brasco (1997). Nesses filmes, o crime é apresentado como algo moralmente condenável, mas os criminosos são retratados com carisma, inteligência e certa nobreza pessoal. Em Atração Perigosa, Doug parece mais ético que alguns personagens legalmente corretos ao seu redor. Essa inversão reforça sua condição de herói aos olhos do público. O personagem de Jeremy Reiner, Jem, por exemplo, representa o lado mais brutal dessa realidade. Impulsivo e violento, ele funciona como um lembrete de que a vida criminosa não possui o romantismo que Doug tenta enxergar nela. Atração Perigosa glamouriza o assaltante vivido por Ben Affleck na medida em que transforma Doug MacRay em um protagonista carismático, complexo e emocionalmente acessível. O filme privilegia seu POV, destaca suas virtudes e apresenta os assaltos com grande apelo estético. Entretanto, essa romantização não é total nem acrítica. A narrativa também expõe o custo humano da violência e sugere que o crime produz um ciclo de destruição do qual nem mesmo o protagonista consegue escapar completamente. Em outras palavras, o filme não celebra o assalto a bancos como prática, mas constrói um assaltante cuja humanidade e carência fazem o público torcer por ele. E é justamente nessa tensão entre condenação moral e fascínio cinematográfico que reside boa parte da força de The Town. The Town is a particularly interesting film, although not very original, because it builds its criminal protagonist in a much more seductive way than the tradition of crime cinema usually does. Directed (well) and starring (badly, as always) by Ben Affleck, TT follows Doug MacRay (Affleck), leader of a gang of bank robbers in Boston, and invites the viewer to see the world from his perspective. This is precisely where the issue of glamorization arises. Doug MacRay is not presented as a common criminal. From the beginning, the film emphasizes his human qualities: he is intelligent and strategic, in addition to demonstrating sensitivity, and demonstrates loyalty to friends, has family traumas, wants to abandon the criminal life and begins a sincere romance with Claire (Rebecca Hall). These elements bring the character closer to the archetype of the "tragic hero". The viewer starts to see him less as a violent robber and more as someone trapped in difficult social and family circumstances. On the other hand, the victims of the robberies receive relatively little dramatic space, and although we see their suffering in some scenes, the narrative does not stick to them. The focus quickly returns to the criminals. As a consequence, the viewer's emotional identification tends to focus on the robber, and not on the robbers. Doug follows a very old tradition of American cinema: the criminal who has a code of honor (anyone out there is a fan of Dexter?). He resembles characters from classic gangster movies and works such as: Bonnie and Clyde (1967) Heat (1995) Donnie Brasco (1997). In these films, crime is presented as something morally reprehensible, but the criminals are portrayed with charisma, intelligence and a certain personal nobility. In Dangerous Attraction, Doug seems more ethical than some legally correct characters around him. This inversion reinforces his status as a hero in the eyes of the public. Jeremy Reiner's character, Jem, for example, represents the most brutal side of this reality. Impulsive and violent, it works as a reminder that the criminal life does not have the romanticism that Doug tries to see in it. The Town glamorizes the robber played by Ben Affleck as it transforms Doug MacRay into a charismatic, complex and emotionally accessible protagonist. The film privileges its POV, highlights its virtues and presents the robberies with great aesthetic appeal. However, this romanticization is neither total nor uncritical. The narrative also exposes the human cost of violence and suggests that crime produces a cycle of destruction from which not even the protagonist can completely escape. In other words, the film does not celebrate bank robbery as a practice, but builds a robber whose humanity and neediness make the audience root for him. And it is precisely in this tension between moral condemnation and cinematic fascination that much of the strength of The Town lies.