JACKIE (USA, 2016) – O filme do chileno Pablo Larrain enfoca o sofrimento de Jacqueline Kennedy, nos dias subsequentes ao assassinato do marido, em em 23 de novembro de 1963. Aí, reside a originalidade do roteiro: como teria se comportado a primeira-dama dos EUA, logo depois da tragédia em Dallas, a sua imensa dor e a preocupação com o seu futuro e dos dois filhos. Desta forma, vemos aqui um retrato psicológico da devastação emocional por que Jackie passou, suas dúvidas, suspeitas e, além de tudo, sua total devoção à memória de JFK. A trilha sonora meio fantasmagórica de Mica Levi dá uma dimensão sobrenatural às longas sequências de Jackie na Casa Branca, nas quais ela parece tocar de leve os objetos que lhe traziam de volta a presença de Kennedy. Tudo gira em torno da atuação de Natalie Portman que, de fato, vai além das expectativas, embora, em alguns momentos, ela própria pareça não suportar a carga dramática de um personagem tão intenso. De qualquer forma, Portman vai perfilar ao lado de Helen Mirren (A RAINHA), Marion Cotillard (EDITH PIAF) e Meryl Streep (THE IRON LADY), como uma das mais perfeitas personificações nas telas. Foi emocionante ver um dos últimos trabalhos de John Hurt, falecido há apenas três dias atrás – no filme, ele é o padre que ouve Jackie enquanto caminham por uma longa alameda. Peter Sarsgaard não convence muito como Bobby nem John Carroll Lynch como Lyndon Johnson, embora este último tenha pouquíssimo tempo em cena. JACKIE é um filme que faz jus a esta que é uma das mais dramáticas histórias de todos os tempos – o assassinato de Kennedy – e, como aconteceu em PARKLAND, joga luzes em personagens nem tão secundários assim, mas que foram essenciais para o fascínio da era de Camelot para o mundo desde então.
domingo, 29 de janeiro de 2017
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
2879 - STEVE JOBS
STEVE JOBS (USA, 2015) – O filme procura dar uma panorâmica crítica e sem passionalidade desta figura indecifrável em seu centro e em cujo entorno físico e existencial orbitava a arrogância da genialidade febril e implacável que o caracterizou nestes anos pioneiros da computação. Michael Fassbender teve uma justa indicação ao Oscar, por seu mergulho visceral no personagem-título. O diretor Danny Boyle apresenta a história como uma tragédia clássica, dividida em três atos, costurando-os com a câmera ágil que passa de um a outro sem cortes e em tempo real. O resultado é razoavelmente satisfatório e fica muito à frente do lamentável JOBS, protagonizado, sem talento, pelo mais lamentável ainda Ashton Kutcher.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
2878 - TREZE DIAS QUE ABALARAM O MUNDO
TREZE DIAS QUE ABALARAM O MUNDO (THIRTEEN DAYS, USA, 2000) – O filme é sobre a Crise dos Mísseis enfrentada por Kennedy em outubro de 1962. A descoberta pelos Estados Unidos de que os soviéticos instalavam mísseis nucleares em Cuba foi o momento de maior tensão da Guerra Fria e quase terminou em catástrofe. Ao fim, Kennedy resolveu o impasse por vias diplomáticas, sem que houvesse o confronto direto. 13D se concentra num personagem secundário neste episódio, o assessor Kenny O’Donnell (vivido com fervor por Kevin Costner), que representa um contraponto nos momentos de dúvida do presidente (Bruce Greenwood, na melhor personificação de JFK no cinema). Há, de fato, vários momentos que correspondem aos fatos relatados por Ted Sorensen na biografia definitiva de Kennedy. É um filme essencial para quem se interessa por esse período histórico, especialmente na forma como o diretor Roger Donaldson (de O INFERNO DE DANTE) apresenta a cúpula do poder na época em que os americanos tinham um presidente sensato, popular e carismático, que não se propunha a bravatas e à incitação do ódio a qualquer preço.
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
2877 - O ENCONTRO
O ENCONTRO (TIME OUT OF MIND, USA,
2014) – Richard Gere é o protagonista desta produção
indie sobre a vida (vida?) das pessoas que vivem nas ruas de Nova Iorque, completamente
invisíveis, sem esperança, perdidas, na maior amplitude do termo. Gere é George,
um homem sozinho, sem casa, quase sem família, que vaga de abrigo em abrigo, tentando
sobreviver um dia após o outro. Sua única conexão familiar é a filha, que o rejeita
de todas as formas, embora George procure restabelecer sua relação com ela. O filme o
acompanha neste processo de uma vida sem esperança que o torna cada vez
mais invisível diante da cidade que simplesmente ignora este grupo sem privilégios.
Tanto que Gere, em andrajos, durante toda a filmagem, só foi reconhecido por
duas pessoas. É um dos filmes mais emocionantes que já vi.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
2876 - POLÍCIA EM PODER DA MÁFIA
1
POLÍCIA EM PODER DA MÁFIA (TRIPLE
9, USA, 2016) – O elenco, à primeira vista, não deixaria dúvidas:
Chiwetel Ejiofor, Casey Affleck, Anthony Mackie, Woody Harrelson, Norman Reedus
e Kate Winslet. Entretanto, o filme não funciona ou, pelo menos, não alcança os
objetivos a que se propõe: um thriller policial que envolve policiais corruptos
e uma máfia russa estranhíssima. T9 começa bem, mas vai perdendo força, à
medida em que seus personagens não se desenvolvem e o roteiro se perde em tramas
pouco definidas. Parece que o excesso de estrelas no elenco acabou deixando a história
arrastada e em nada atraente. Para esquecer. 2875 - CHARLIE CHAN AT THE TREASURE ISLAND
1.
CHARLIE CHAN AT THE TREASURE
ISLAND (USA, 1939) – Um
dos melhores filmes da série com Sidney Toler como Chan, envolvendo um misterioso
assassinato e um clarividente chamado Dr. Zodíaco. Uma curiosidade é a presença
de um jovem Cesar Romero que, nos anos 60, alcançaria a fama como o Charada, na
série BATMAN. Excelente fotografia, um roteiro instigante e, claro, o bom humor
do Charlie Chan vivido com magnetismo por Toler. 2874 - CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU
domingo, 22 de janeiro de 2017
2873 - SCARLETT JOHANSSON
SCARLETT JOHANSSON (USA, January 21st, 2017) – “Presidente Trump, eu não votei em você. Eu respeito que você seja o presidente eleito e eu queria ser capaz de apoiá-lo, mas, antes, eu peço que você me apoie...”. Foram estas as palavras que se destacaram no discurso de Scarlett Johansson na Marcha das Mulheres, em Washington, um dia depois da posse de Trump. O protesto na capital americana remete ao nome de duas outras grandes marchas por direitos civis: a de 1963, liderada por Martin Luther King e marco da reivindicação dos negros do país; e a de 1913, quando o grande mote aglutinador foi a defesa do voto feminino. Em tudo isso, o que mais me impressionou foi ver a beleza, a sensualidade, o talento e todas aquelas qualidades que fazem desta mulher uma artista excepcional, a serviço de um protesto que todos gostaríamos de fazer, diante desta indignação inicial que o presidente americano vem provocando planetariamente. Ela, sobretudo, foi corajosa, se expôs desabridamente e demonstrou que sua consciência de cidadã é tão grande quanto à sua presença mesmerizante, nas telas, no nosso imaginário mais inconfessável e, agora, nas renovadas aspirações progressistas de todos que experimentaram o lado amargo da democracia.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
2872 - INDEPENDENCE DAY: O RESSURGIMENTO
INDEPENDENCE
DAY: O RESSURGIMENTO (INDEPENDENCE DAY: RESURGENCE, USA 2016) – Lixo espacial,
para começar. É até difícil comentar um filme tão ruim, sem parecer estar promovendo
um festival de críticas negativas em technicolor. Tirante dois ou três bons
momentos do CGI, nada se salva neste desastre monumental. Personagens ridículos,
como, por exemplo, o ex-presidente paranoico vivido constrangedoramente por Bill
Pullman e o cientista louco que acorda de um coma, interpretado quase caricaturalmente
por Brent Spiner, o valoroso Data, de STAR TREK, THE NEW GENERATION, são jogados
em cena sem qualquer critério e a serviço de um roteiro paupérrimo, se não risível.
Também egresso do primeiro filme, o personagem de Jeff Goldblum, o perdido
Devid Levison, parece peguntar a todo momento o que está fazendo ali. E o que é
Liam Hemsworth como ator? O irmão mais novo de Thor (Chris Hemsworth, este sim
com razoável talento) é mais um equívoco nesta tragédia interplanetária. A única
qualidade relativa deste filme é valorizar o primeiro INDEPENDENCE DAY, de 1996,
que já não era grande coisa, mas, pelo menos, tinha Will Smith com toda a
estamina que o caracterizava no início de carreira e uma concepção original de Roland Emmerich do que poderia ser uma invasão alienígena.
2871 - WESTWORLD
1. WESTWORLD (USA, 2016) – “Westworld” é um parque temático futurístico para adultos, dedicado à diversão dos ricos, uma espécie de Disneyworld temática que reproduz o Velho Oeste, onde os androides – os anfitriões –, são programados pelo diretor executivo do parque, o Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins), para acreditarem que são humanos e interagirem com os clientes, que podem fazer o que quiserem, sem obedecerem a regras ou leis, o que inclui assassinatos e estupros. No entanto, quando uma atualização no sistema das máquinas dá errado, os seus comportamentos começam a sugerir uma nova ameaça, à medida que a consciência artificial provoca uma nova noção existencial dos androides, entre os quais está Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood), programada para ser a típica garota da fazenda e que está prestes a descobrir que toda a sua existência não passa de bem arquitetada mentira. Dolores está presa a um eterno looping temporal. Depois de partilhar experiências com os hóspedes do momento, ela passa por um “reset” e as memórias recentes são deletadas. Esta série da HBO é uma nova versão do filme cult de 1973, WESTWORLD – ONDE NINGUÉM TEM ALMA, escrito e dirigido por Michael Crichton, e tangencia BLADE RUNNER na temática, embora aduza elementos mais instigantes para a reflexão sobre o debate ético sobre a inteligência artificial. O programa trata do que poderia ser o ponto nodal na evolução dos robôs – a gênese da consciência e das dores (“dolores” em latim) que ela implica. É aí que entra o fator BLADE RUNNER: os androides, ao se humanizarem, recebem um presente inesperado – a angústia existencial. De certa forma, parte da premissa que o ser humano, com total liberdade, é axiomaticamente ruim, destrutivo, sem ética, quase negando sua civilidade humanitária, à medida que, literalmente, “compra” este sonho niilista, descobrindo o seu lado mais perverso – aparentemente ninguém está lá para fazer o bem. Os primeiros episódios foram muito confusos. Na realidade, tudo começa a se esclarecer no último, deixando alguns ganchos para a próxima temporada. A fotografia é espetacular e o elenco nos fazem ter esperança de que, com mais perspectiva, esta ainda poderá ser uma das melhores séries já feitas.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
2870 - O MENSAGEIRO TRAPALHÃO
1
O MENSAGEIRO TRAPALHÃO (THE BELLBOY, USA, 1960) – Neste primeiro filme dirigido e estrelado por Jerry Lewis, os grandes destaques são a exímia fotografia em preto e branco de Haskell B. Boggs e a locação do já então impressionante Fontainebleau Miami Beach Hotel, por onde Lewis desfila uma série de gags aparentemente desconexas que, ao fim, são uma homenagem ao cinema mudo e a Stan Laurel, grande ídolo de Lewis, em especial. Numa taxonomia mais simplificada do universo da comédia no cinema, que vai de Chaplin e Harold Lloyd a Buster Keaton, Jerry Lewis é, de fato, um gênio do humor corporal, saudavelmente “sem noção” que, intencionalmente ou não, revela em seus filmes um pouco dos absurdos do “american way of life”. Em THE BELLBOY, muito antes do boom das (questionáveis) celebridades midiáticas de hoje, ele cutuca o endeusamento dos famosos (quando interpreta ele mesmo chegando ao hotel, com uma horda de puxa-sacos em volta) e leva o próprio corpo a um paroxismo tão próximo da abstração e da incompreensão, juntamente com esquetes diretamente inspirados nos desenhos animados (o voo das borboletas supostamente mortas num quadro é um dos exemplos disso).
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
2869 - A GAROTA DINAMARQUESA
A GAROTA DINAMARQUESA (THE DANISH GIRL, USA/DENMARK, 2015) – Tanto Alicia Vikander quanto Eddie Redmayne são atores de imensa expressão física. Os dois encontram nos personagens deste filme o lócus perfeito para transmitirem todas as emoções de uma história com alto potencial dramático: a do pintor dinamarquês Einar Wegener, que na década de 20 foi um transgênero pioneiro e passou a ser Lili Elbe – uma transformação radical não só para ele, mas também para sua mulher, a artista Gerda Wegener. Redmayne como Einar/Lili consegue chegar a um limite arriscado na composição de uma figura tão difícil e intensa quanto o Stephen Hawking de A TEORIA DE TUDO. Há um certo momento em que ele parece que vai nos cansar com os trejeitos da mulher que emerge dentro dele, mas, logo em seguida, tudo volta à normalidade, e Redmayne toma de vez o controle do personagem de forma definitiva, embora muita coisa potencialmente interessante se perca nesta passagem. Mas é Alicia Vikander que realmente impressiona na pele da esposa que quer ajudá-lo, mas naturalmente também quer impedi-lo; quer compreendê-lo, mas está cada vez mais confusa; e quer reconquistá-lo, embora já o veja mais como mulher do que como o homem com quem casara. A segunda parte do filme possui uma representação mais pobre, quase uma “soap-opera” em que se abusa das emoções mais simplistas para se chegar a um resultado razoavelmente dramático.
2868 - DEXTER - PRIMEIRA TEMPORADA
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DEXTER – TEMPORADA 1 (DEXTER –
FIRST SEASON, USA 2006)
– A premissa da série – um serial-killer que mata outros serial-killers – é original
e permite que criemos uma empatia com um personagem que teria tudo para ser
condenado, não fosse a sua complexidade existencial e a perfeita atuação de
Michael C. Hall, no papel-título. Durante o dia, Dexter é um técnico que analisa manchas de sangue
para a polícia de Miami. Durante a noite, ele se encarrega de fazer uma limpa
no “bas fond” do universo da criminalidade local. Tudo isso se deve à sua história
de vida – adotado por um policial, Dexter é instilado com um “código” bem peculiar
que seu pai adotivo vai passando para ele em “flash-backs” que perpassam toda a
primeira temporada. Mistura bem dosada de C.S.I e O SILÊNCIO DOS INOCENTES,
Dexter nos apresenta um personagem extremamente complexo e instigante que vive
sob uma agonia constante para esconder seu lado psicopata, cuja humanidade está
exatamente na tentativa de escondê-la. Sim, porque Dexter,
compreensivelmente, tem grandes dificuldades para externar emoções, e é exatamente
aí que Michael C. Hall acerta na composição de um personagem que, a cada episódio,
aprofunda a dicotomia entre bem e mal, certo ou errado, moral ou imoral,
simplificando formas de condutas primais que estabelecem imediata conexão com o
espectador. Os diálogos são muito bem construídos, mas o que impressiona mesmo é
o monólogo interno de Dexter, em off, mapeando suas reflexões, certezas e poucas
dúvidas. Isso funciona como se estivéssemos pensando junto com ele, quase
adivinhando o que vem a seguir, à medida que nos tornamos íntimos de uma pessoa que evita a todo custo intimidade e que, por isso mesmo, está mais próximo de nós
do que conscientemente gostaríamos. Os personagens complexos e “damaged” compõem
à perfeição uma série tão irresistível quanto a compulsão que Dexter tem de matar.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
2867 - ENCONTROS E DESENCONTROS
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
2866 - ENQUANTO SOMOS JOVENS
2865 - POR AMOR A SPOCK
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
2864 - TUBARÃO 2
TUBARÃO 2 (JAWS 2, USA 1978) – Sequência tolerável da obra-prima de
Spielberg, realizada 4 anos antes, com o notável Roy Scheider reprisando seu
papel como o Chefe de Polícia, Martin Brody. Era evidente que nada poderia
superar o primeiro TUBARÃO, filme definitivo sobre o tema. Esta continuação,
mesmo bem abaixo das expectativas, apresenta algumas boas cenas de susto,
dirigidas com razoável competência por Jeannot Szwarc (ALGUM LUGAR NO PASSADO).
Scheider, único remanescente do trio de protagonistas do filme original – Richard
Dreyfus e Robert Shaw - vive com perfeição o personagem pelo qual ficou famoso.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
2863 - CAROL
1 CAROL (CAROL, USA, 2015) – Esta adaptação do romance THE PRICE OF SALT, de Patrica Highsmith, conta a história de duas mulheres bem diferentes (Cate Blanchet e Rooney Mara) que se apaixonam inesperadamente na Nova Iorque dos anos 50. O que mais chama a atenção é a interpretação quase inane das duas protagonistas – Cate Blanchet parece estar deslumbrada com sua versão quase blasé de uma socialite entendiada com a vida e com o casamento falido, e Rooney Mara parece um pouco mais viva do que uma boneca de cera, forçando uma inocência que nunca aparece na tela. A aproximação lenta das duas culmina na cena de sexo menos sensual já produzida pelo cinema, na qual os movimentos são tão artificiais, lentos e programados que nos custa a acreditar que haja paixão ali. Cate, inegavelmente uma ótima atriz, só resgata seu ofício numa única cena, na qual discute a guarda da filha com o marido, num escritório de advocacia.
2862 - A MOSCA
1.
A MOSCA (THE FLY, USA, 1986) –
Clássico da ficção científica de horror dos anos 80, A MOSCA ainda é um exemplo
de cinema com alma – desde a concepção do roteiro aos efeitos especiais
mecânicos que, curiosamente, acabam por dar mais vida ao processo kafkiano no
qual se mete Seth Brundle (Jeff Goldblum) quando, ao testar seu experimento de
teletransporte, vai se transformando numa mosca e, gradualmente, perdendo sua
humanidade. Este processo é mostrado com rara maestria por David Cronenberg,
através de cortes precisos e manipulação ágil da câmera, quando nem se sonhava
com os CGIs de hoje em dia, nem todos satisfatórios, diga-se. Sob a ótica
existencialista, A MOSCA é um filme devastadoramente perturbador, pois
condensa, num processo metafórico perverso, a decadência humana pela qual todos
passamos. A história, contada com tão intensa repugnância, faz os espectadores
se sentirem tão perdidos e sem esperança quanto seu protagonista. Rejeição, inadequação social,
mutações físicas e psicológicas apresentam semelhanças e diferenças entre o
destino de Gregor Samsa e esta obra cinematográfica, ambos ótimos materiais
para um exercício de literatura comparada. O conceito deleuziano de “devir”
também pode ser explorado numa análise mais aprofundada, pois, como se vê no
roteiro, tudo pode acontecer e mudar a ordem das coisas. Cronenberg põe o foco
nas consequências psicológicas oriundas dessa mudança na vida de Seth que
colocam a produção no patamar de um dos melhores filmes que discutem o impacto
da ciência e das diatribes sociais no bojo da sociedade contemporânea. É uma
reflexão muito oportuna sobre a natureza da mortalidade humana, num filme que é
muito mais sobre ideias do que efeitos especiais “per se”. terça-feira, 10 de janeiro de 2017
2861 - O HOMEM QUE VIU O INFINITO
1
O HOMEM QUE VIU O INFINITO (THE MAN WHO KNEW INFINITY, UK, 2015) – Antes de Einstein, houve Srinivasa Ramanujan. Este fato pouco conhecido fora da comunidade acadêmica é a razão deste belo filme que, acima de tudo, é também uma homenagem a uma verdadeira relação de amizade, respeito e admiração, fenômeno raro no ambiente intramuros das grandes universidades do mundo, em qualquer época. A universidade em questão é a Trinity College, em Londres, em 1910, para onde vai Ramanujan (Dev Patel, excelente), depois de deixar na sua terra natal, a Índia, a mãe a e esposa. Ele quer ser reconhecido pelo trabalho original que iria influenciar todo o pensamento matemático a partir de então. Mesmo não tendo tido educação formal, Ramanujan vai, aos poucos, impressionando a comunidade acadêmica de Trinity e se torna amigo do professor G. H. Hardy (Jeremy Irons, soberbo, como sempre). À parte a incrível história deste indiano, é o aprofundamento da amizade dele com Hardy que torna o filme um exemplo único de sensibilidade e de certa humanização das ciências exatas, pois o conflito inicial entre religião hindu e ciência do Velho Mundo vai dando novas perspectivas da interação daquilo que pode e do que não pode ser provado. Aduz-se a isso uma oportuna reflexão sobre a xenofobia (bem antes de Trump), pois Ramanujan é alvo do desdém dos professores invejosos da sua capacidade e da agressividade gratuita dos que o consideram um inimigo por absurdas razões étnicas.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
2860 - O TERROR DAS MULHERES
1
O TERROR DAS MULHERES (THE LADIES
MAN, USA 1961) – Uma das comédias icônicas da carreira de Joseph
Levitch, a.k.a Jerry Lewis, este filme traz, como uma atração à parte, o gigantesco
set construído como uma casa de bonecas e uma fotografia colorida hipnotizante.
Lewis, que dirige a si mesmo, parece não conter seu histrionismo em muitas cenas, que
ficaram meio “over”. Talvez, um diretor linha dura pudesse dar um contorno
mais restrito a algumas gags que destoaram da série de esquetes em que se transformou
a história, do meio para o fim. É exatamente aí que Lewis – que é um gênio da
comédia, sem qualquer dúvida – se excede e perde a oportunidade de podar um
roteiro simplista, cuja única função é oportunizar a fisicalidade de seu timing
cômico. Atenção para a melhor cena do filme, com o lendário Buddy Lester: ele senta
no chapéu de um dos visitantes da casa (Lester) e faz tudo para consertar a gafe.
Em duas palavras: hilariamente memorável. Usando gruas para filmar as cenas,
Lewis consegue tomadas perfeitas, todas enquadradas num ritmo frenético de
humor. O plano-sequência em que mostra as moças em quartos diferentes, em
diversas atividades, enquanto a câmera atravessa o cenário recortado, é simplesmente
genial. De fato, ele tinha pleno domínio do seu ofício e foi tão inovador
quanto, por exemplo, Godard para o cinema francês. Uma trívia cinematográfica: Lewis
foi professor de cinema de Spielberg e George Lucas, na Universidade da Califórnia.
E amigo íntimo de John Kennedy. domingo, 8 de janeiro de 2017
2859 - DE VOLTA AO JOGO
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
2858 - O PROFESSOR ALOPRADO
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
2857 - ELVIS & NIXON
1
ELVIS & NIXON (USA, 2016) – Os anos 70 foram mesmo muito
loucos. Só uma década assim poderia produzir um dos encontros mais insólitos de
todos os tempos: Elvis Presley e Richard Nixon, na Casa Branca. Mas por quê?
Bem, Elvis era mais conservador do que se imagina e se ofereceu para atuar como
agente federal incógnito (com aquelas costeletas????), com o intuito de
infiltrar-se entre subversivos. No fundo, o que o mimado Rei do Rock queria era um distintivo do
FBI para juntar à sua coleção. Interpretado com magistral contenção por Michael
Shannon, ele não é capaz de externar este desejo nem para si mesmo, pois toda e
qualquer aspiração sua adernava num mar interior de inseguranças,
comportamentos imaturos e compulsões narcisistas. Shannon, por sinal, não faz a
mínima questão de se parecer com Elvis, e é exatamente por isso que sua atuação
é estupenda. Agora, Kevin Spacey é um destaque como um Nixon caricatural (que
era o próprio Nixon em essência), ressentido e atormentado pela falta de
atributos físicos, brilhantismo e carisma. O encontro inusitado, talvez nem tão
diferente do que foi realmente (não havia gravações no Salão Oval naquela
época), é um daqueles momentos que vão ficar para sempre na memória do cinema.
Entre os diálogos inesperados e mordazes, os dois vão, pouco a pouco, mostrando
o pavor que sentiam de serem esquecidos pela História ou se transformarem em
figuras irrelevantes nos campos políticos e do entretenimento, respectivamente.
São, de certa forma, representantes das forças contraditórias que definiram os
anos 70 como uma década de paranoia e de relações de poder ultrapassadas que,
por desesperada tentativa de sobrevivência, não entendiam as transformações
sociais, culturais e políticas que eclodiam no mundo inteiro. O destino cruel
destes dois personagens epitomam as tragédias comuns ao showbiz ostentação e
ao mundo da política sem ética. quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
2856 - MALUCOS DO AR
MALUCOS DO AR (JUMPING JACKS, USA 1952) – Uma das boas comédias realizadas por Dean Martin e Jerry Lewis. O comediante Hap Smith (Lewis) inicia uma nova série de humor na companhia da sublime Betsy Carter (Mona Freeman) já que seu antigo parceiro Chick Allen (Martin) alistou-se as forças armadas. Mas, Chick continua com os shows de humor, desta vez apresentando-se para os soldados do regimento, o que deixa o comando militar de cabelo em pé. Com o receio de ser afastado da corporação, Chick pede o auxílio de Hap, que constrói um falso disfarce como soldado. Um dos aspectos mais interessantes do filme é mostrar como eram feitos os treinamentos dos paraquedistas nas academias militares daquela época.
2855 - ANTES SÓ DO QUE MAL CASADO
ANTES SÓ DO QUE MAL CASADO (THE HEARTBREAK KID, USA 2007) - Benjamin Edward Meara Stiller quase sempre faz o papel de misfit em seus filmes – a sensação de despertencimento que exala de sua figura inocente e patética já passou a ser sua marca registrada e, diga-se, nós adoramos isso. Neste filme, ele casa apressadamente com uma garota que acabara de conhecer, achando-a a quintessência das maravilhas. Logo no primeiro dia da lua de mel, ele começa a se incomodar com a verdadeira personalidade da esposa, até se convencer de que não tem nada em comum com ela. Sensação que se confirma quando conhece Miranda (Michelle Monaghan), no mesmo resort em que está hospedado. Há vários momentos engraçados, embora previsíveis. Stiller é daqueles atores com os quais estabelecemos uma imediata empatia, principalmente porque seus personagens não se esquivam das situações mais esdrúxulas e constrangedoras. Foi assim em QUEM VAI FICAR COM MARY (1998), DUPLEX (2003) e tantos outros. Por outro lado, ele se destacou no ótimo e também dramático A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY (2013), com um papel difícil do qual só um ator com características tão especiais pode dar conta.
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
2854 - TRUMAN
TRUMAN (TRUMAN, Espanha/Argentina, 2015) – Delicado e sensível ensaio sobre a solidão, o amor e a despedida, com dois atores excepcionais: Ricardo Darín e Javier Cámara. Desde o momento em que Tomás (Cámara) viaja do Canadá para a Espanha para visitar seu amigo Julian (Darín), o que se vê na tela é um filme que segue a cartilha dos invejáveis roteiros do atual cinema de língua espanhola. A abordagem “bitter sweet” é poética e traz um dos melhores retratos do que pode ser uma amizade profunda, na qual há respeito, admiração, carinho e total entendimento. Os diálogos são preciosos e os silêncios entre os dois protagonistas são de cortar o coração. Contudo, não é um filme de lágrima fácil – muito pelo contrário, é uma homenagem a um sentimento que anda cada vez mais rarefeito, muito em função da absurda e injustificada competição e vaidade que, infelizmente, caracterizam a maioria das relações de amizade atualmente. Atenção para uma das primeiras cenas, na qual os dois se reencontram – tudo é traduzido pelo olhar. O foco da narrativa está numa questão basilar: até que ponto podemos manejar e controlar a nossa própria vida, mantendo as rédeas até seu último instante e garantindo até mesmo situações posteriores a ela mesma? Que domínio podemos ter sobre a própria morte? Qual a melhor maneira de se despedir da vida? E como nossas decisões podem afetar os outros? Que direito temos de levá-los a compartilhar de nossos desejos fúnebres? Quais são esses limites? Assim, a história vai jogando luzes nestas e em outras questões existenciais, sempre a um passo do nível mais surpreendente de consciência, numa rara e feliz conjunção do drama e do humor, elementos básicos na constituição de nossas existências. Além disso, nunca é demais dizer que qualquer filme com Ricardo Darín é obrigatório.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
2853 - EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL
domingo, 1 de janeiro de 2017
2852 - NIXON
2851 - WHO KILLED JFK? THE FINAL CHAPTER
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