segunda-feira, 17 de abril de 2017

2938 - FUGINDO DO INFERNO

   
McQueen volta ao stalag
  FUGINDO DO INFERNO (THE GREAT ESCAPE, USA 1963) – Um clássico. Durante a II Guerra, um grupo de prisioneiros aliados fazem planos para fugir de um campo de concentração alemão, usando habilidades específicas de alguns deles para realizar a façanha. A primeira parte do filme é mais baseada na comédia (facilmente nos remete a GUERRA, SOMBRA E ÁGUA FRESCA e a M.A.S.H), e a segunda se concentra na aventura de fugir da Europa ocupada. No elenco, Steve McQueen, James Garner, Charles Bronson, Donald Pleasence, Richard Attenborough e James Coburn. McQueen se destaca mais nas cenas em que exibe sua destreza na motocicleta do que no protagonismo dramático que se espera dele. É Attenborough que carrega o filme. McQueen deixou as filmagens em determinado momento porque achava que o roteiro não o privilegiava. Estava certo.  

sábado, 15 de abril de 2017

2937 - SEM MEDO DE VIVER

   
O intimorato Bridges, depois da queda do avião
  SEM MEDO DE VIVER (FEARLESS, USA, 1993) – Depois de sobreviver a uma queda de avião, Max Klein (Jeff Bridges) tem sua vida transformada: fica completamente desconectado de sua vida familiar, a esposa (Isabella Rossellini, excelente), o filho e suas referências sociais. Passa a se sentir indestrutível, sem medo de nada, e começa uma relação de resgate de si próprio com uma outra sobrevivente, Carla (Rosie Perez). Bridges tem uma atuação digna do Oscar. Sente-se a sua transformação interna pela respiração, pelo olhar e, sobretudo, pelo silêncio. É um ator intenso que constrói pontes ( ! ) com emoções que estão prestes a explodir. Este filme de Peter Weir aborda a morte (ou a quase morte) como valorização da vida e nos faz refletir se um homem que perde totalmente o medo pode ainda continuar humano, no sentido lato do termo. O grande John Turturro faz o psicanalista que não consegue penetrar na nova vida de Max e resgatá-lo de sua incapacidade de se religar com o mundo, depois de emergir de um acontecimento emocionalmente transformador. A pergunta clássica – “Por que eu?” – assume ares de estranhamento, pois Max não entende sua sobrevida após a tragédia. Weir se debruça sobre os abismos emocionais de seus personagens, em histórias nas quais pessoas comuns são transformadas por causa de eventos radicais. Foi assim em A TESTEMUNHA (1985) e A COSTA DO MOSQUITO (1986), ambos com Harrison Ford.  



2936 - SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

    
A sociedade
  SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (DEAD POET SOCIETY, USA 1989) – O filme de Peter Weir é essencial para reflexões mais aprofundadas sobre educação em geral e, mais especificamente, sobre o comportamento em sala de aula, com alunos prestes a descobrir as potencialidades da vida. O roteiro e as atuações de um elenco soberbo – onde desponta a presença sensível de Robin Williams – estão afinados em todos os temas que perpassam a história: drama, descoberta existencial, vocações, autoritarismo, liberdade e, sobretudo, poesia. Ver e rever este filme é a oportunidade que todos nós temos de, um dia, ter tido um professor tão marcante como Keating e nos deixarmos ser tocados por sua ingente e delicada sensibilidade.



sexta-feira, 14 de abril de 2017

2935 - A FRENTE FRIA QUE A CHUVA TRAZ

    
 A FRENTE FRIA QUE A CHUVA TRAZ (BRASIL, 2016) – Jovens entendiados da classe-média da zona sul carioca sobem o Vidigal, para fazer uma rave na laje de um dos barracos da favela. É baseado neste argumento pobre que Neville d’Almeida volta às telas, depois de anos afastado. O que se vê é o mesmo cinema marginal que marcou a carreira do diretor e que podia ter tido um impacto estético em outras épocas, mas não atualmente. Diálogos artificiais e atuações exageradas, tudo em torno de personagens estereotipados – a menina pobre que se prostitui, os adolescentes que são "espertos" e as garotas ricas que acham o máximo ir atrás de drogas subindo o morro. Tudo muito ruim, a começar pelo elenco global de jovens que pensam que são atores a um diretor que acha que ainda está nos anos 70. Totalmente dispensável. 

2934 - KONG: A ILHA DA CAVEIRA

    
Goodman, Hiddleston e Brie Larson
 KONG - A ILHA DA CAVEIRA (KONG: SKULL ISLAND, USA 2017) – O filme tem a seu favor a excelência técnica e a criatividade na maneira de explorá-la: a inspiração icônica de Apocalypse Now, de Coppola, perpassa o desfile visual repleto de referências e citações. Tudo começa bem, mas o roteiro se perde ao não privilegiar mais cenas com seu protagonista símio, já que, atualmente, os CGIs podem (quase) tudo, se bem executados. É o caso aqui: assim como o Godzilla de SHIN GODZILLA, Kong está mais crível do que nunca, graças aos avanços ininterruptos da “performance capture” que dá vida a tais criaturas. O elenco é composto de grandes nomes, mas as atuações poderiam estar mais de acordo com a expectativa. Samuel L. Jackson está um pouco fora do tom, e o excelente John Goodman, mais magro, desde CLOVERFIELD 10, praticamente desaparece da história. Tom Hiddleston, que já foi o Loki, irmão de Thor, é bom ator, mas sua presença neste filme ficou ainda por ser explicada. A fotógrafa de guerra que acompanha o grupo, Brie Larson, parece ter entrado na trama apenas para ter um flerte com Kong. Sem mais o que fazer, acaba pagando o mico mor de um filme que, manuelbandeiramente, tinha tudo para ser ótimo, mas não foi.   
  



2933 - TWO AND A HALF MEN - TEMPORADA 11

   
Jon Cryer e a desenxabida Amber Tamblyn
 TWO AND A HALF MEN – TEMPORADA 11 (USA, 2011) – Todas as esperanças de que a série retomaria algo fundamental – ser engraçada – caem por terra nesta temporada. A inserção de um personagem que emulasse Charlie é a prova que os roteiristas não sabiam mais o que fazer: Jenny, sua surpreendente filha, não acrescentou nada, e a atriz Amber Tamblyn é fraca de dar pena. O personagem de Ashton Kutcher continua sem rumo, sem graça, sem salvação. Jon Cryer ainda tem boas cenas, mas Alan, nesta fase, vai se descaracterizando demais, a serviço de salvamento da estrutura cômica do programa, perdida desde a saída de Sheen. Os únicos dois episódios engraçados foram os que contaram com a presença especial de Carl Reiner, que fez Marty, o milionário nonagenário com quem Evelyn se casa. São dele as melhores cenas. A temporada é tão ruim que os erros de gravação, insertos no DVD, são muito mais engraçados do que qualquer episódio da temporada.  



quinta-feira, 13 de abril de 2017

2932- ANOMALISA

   
 ANOMALISA (USA, 2015) – Esta animação feita com bonecos de massa é um filme meio perturbador. O protagonista Michael (voz de David Thewlis, de Harry Potter) está em uma cidade para uma palestra motivacional sobre vendas. No quarto do hotel, o estranhamento é imediato: a sequências apresentam tempos mortos, repletos de silêncios e contemplações. Logo em seguida, nos damos conta de que todas as pessoas que Michael vê têm fisionomias quase idênticas e a mesma voz, sempre masculina. Estamos, pois, diante de um ensaio angustiante sobre a mesmice e a banalidade cotidianas. Michael parece preso numa espiral de cenas e pessoas iguais, planas, sem provocações. Até que conhece Lisa (a única voz feminina, a cargo de Jennifer Jason Leigh), que, também estranha ao seu próprio mundo, começa a adentrar o muro existencial de Michael – ou é ele que percebe a chance de abrir uma brecha no que, antes, era infenso ao mundo exterior. O trabalho de animação beira a perfeição, o que pode nos deixar mais inquietos, ao percebermos que ver a realidade sem diferenças pode acontecer com gente de carne e osso. Silvério aprovaria, creio, este magnífico trabalho técnico.   

segunda-feira, 10 de abril de 2017

2931 - JOGO DO DINHEIRO

Clooney e as popozudas
.       O JOGO DO DINHEIRO (MONEY MONSTER, USA, 2016) – George Clooney é Lee Gates, um apresentador de um programa de TV sobre investimentos, com direito a toda e qualquer fanfarronice possível: dança rap, se fantasia, faz-se acompanhar de dançarinas popozudas, dispara bordões vulgares, sem se importar com o que possa ser politicamente correto. Julia Roberts é a diretora do show, sempre tentando – em vão – controlar a histrionice do “clown” das finanças. Até que, um dia, Kyle Budwell (Jack O’Connel) invade o estúdio onde Gates está gravando o “Money Monster” (que nome!!!!) e, pistola em punho, obriga o apresentador a vestir um colete recheado de explosivos. Kyle quer uma explicação para ter perdido todo seu dinheiro por causa das dicas de investimento propagadas por Gates. A direção de Jodie Foster se equilibra precariamente entre a sátira e a fábula moral, aquela que vende sonhos impossíveis a um público perigosamente receptível. A abordagem crítica aos shows sem limites éticos também se dilui com o desenrolar da história, cujo fim nos deixa a impressão de que poderíamos ter assistido a outra coisa.  











domingo, 9 de abril de 2017

2930 - DÉJÀ VU


 
Paula Patton - um ótimo motivo para Denzel Washington voltar ao passado
 
    DÉJÀ VU (USA, 2006) – Denzel Washington é obrigatório. Anthony David Leighton Scott foi sempre obliterado pela fama de seu irmão mais velho, Ridley, responsável por joias como BLADE RUNNER, PERDIDO EM MARTE e ALIEN. No entanto, Tony foi responsável por excelentes obras, em parceria com Denzel: CHAMAS DA VINGANÇA, MARÉ VERMELHA e INCONTROLÁVEL, além do excepcional INIMIGO DE ESTADO, com Will Smith e Gene Hackman, e o clássico FOME DE VIVER, com David Bowie. Seu estilo de câmera acelerada, com imagens decupadas e trilha sonora instigante é inconfundível. Em DÉJÀ VU, ele mistura um thriller policial, entremeado de laivos políticos, (há um atentado terrorista logo no início do filme, numa sequência estupenda com a explosão de uma barca) com ficção científica (com o tema, sempre instigante, da viagem no tempo). É exatamente aí que Scott costura o roteiro magistralmente, para dar sentido, e alguma plausibilidade, a uma história que mesmeriza deste a primeira cena. Se Denzel, como o agente federal que quer capturar o terrorista (Jim Caviezel, excelente), dá crédito à trama, o ritmo frenético da direção de Scott faz o espectador embarcar no lado sci-fi da aventura, numa total imersão do “suspension of disbelief”, que só faz bem. Afinal, quem não iria atrás da cotia Paula Patton, para salvá-la, mesmo que tivesse de voltar no tempo e alterar os fatos? Em consonância com o título, eis um filme para se ver várias vezes.



sábado, 8 de abril de 2017

2929 - O PROTETOR

  
 O PROTETOR (BLACKWAY, USA, 2015) – O título em português remete ao filme homônimo com Denzel Washington, por algum motivo misterioso. Aqui, temos outro grande encabeçando o elenco – Anthony Hopkins – no papel de um lenhador que aceita ajudar uma moça (Julia Stiles) ameaçada por um ex-policial corrupto (Ray Liotta). Hopkins tem uma atuação apenas competente, muito prejudicada pelo roteiro ruim. Na última cena, porém, ele emociona, simplesmente olhando por uma janela. Julia Stiles é, de fato, uma atriz com imensa força cênica. A voz, o olhar, algo inefável na hora de entregar as falas – tudo isso a faz uma atriz interessantíssima. Seu personagem neste filme é muito parecido com o que ela fez na quinta temporada de Dexter, onde, também, ela impressiona pelo magnetismo – é quase impossível desgrudar os olhos dela. Foi assim como a Nicky Parsons da quadrilogia Jason Bourne.     

quinta-feira, 6 de abril de 2017

2928 - DEMOLIÇÃO

 
Gyllenhaal e Naomi Watts
    
DEMOLIÇÃO (DEMOLITION, USA 2015) - Jake Gyllenhaal é Davis, um homem que tem uma vida sem grandes problemas, com uma esposa não lhe desperta muita atenção. Quando ela morre num acidente de carro, Davis se dá conta de que não a amava, que ele vivia num mundo sem consciência do que acontecia em sua volta.  A partir daí, ele passa a ter um comportamento muito mais ativo, percebendo a realiade de forma mais arguta, interagindo com as pessoas mais profundamente. É quando conhece Karen (Naomi Watts), responsável pelo setor de reclamações de consumidores, ao fazer uma carta de insatisfação de um produto, sem esperar que seria respondido. Ambos iniciam uma inusitada relação, que o leva a conhecer o filho dela, Chris (Judah Lewis), um jovem problemático de quinze anos que logo percebe ter muito o que aprender com o jeito libertador e sincero que Davis passa a ter. A discussão do luto é um tema bem recorrente no cinema, mas aqui, o diretor Jean Marc Vallé (do sensacional CLUBE DE COMPRAS DALLAS) expõe este sentimento de forma não definitiva que nos leva a pensar na morte como algo libertador, um “drive” para uma atitude destrutiva e construtiva (assim é como Davis aparece para o espectador). O filme confirma as boas escolhas de Gyllenhaal e ainda oferece atuações marcantes de Naomi Watts e o sempre impecável Chris Cooper. A agradável ausência de clichês e das soluções óbvias resultam num filme cheio de humanidade e de reflexões sobre a culpa e os estereótipos que nos acompanham durante a vida.  

segunda-feira, 3 de abril de 2017

2927 - THE WALKING DEAD - TEMPORADA 7

  
Rick pensa: "O que faço agora?"
 THE WALKING DEAD – TEMPORADA 7 (TWD – SEASON 7, USA, 2017) – Esta temporada se arrastou como os walkers que as caracterizam desde o seu início. Muitos episódios se concentraram em personagens isolados, e foi aí que TWD desandou um pouco, pois alguns deles não são tão importantes para merecerem uma abordagem assim tão objetiva. Além disso, outro fator não funcionou: os roteiristas criaram comunidades isoladas geograficamente, algo assim como acontece em GAMES OF THRONES, e a ação se dispersou, sem que a dinâmica dramática se desenvolvesse. A esperada ofensiva contra Negan vai ficar mesmo para a 8.a temporada, e alguns personagens, como o inane Eugene e a desenxabida Tara, irritaram por sua indefinição. O último episódio mostrou um pouco mais de movimentação, mas não foi suficiente para causar a comoção e o envolvimento de outras temporadas.


domingo, 2 de abril de 2017

2926 - ASSASSINATOS NA GOLDEN GATE

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ASSASSINATOS NA GOLDEN GATE (THE GOLDEN GATE MURDERS, USA, 1979) – Estes é um dos filmes que ficaram na minha memória afetiva. A história é simples: um padre é considerado suicida pela polícia de São Francisco, mas Irmã Benecia (Susanah York, belíssima), que também era sua enfermeira, não acredita na versão oficial. Sua obstinação chama a atenção de um policial veterano (David Jassen, no último papel de sua carreira), e os dois passam a investigar o que estaria por trás deste e de outros assassinatos ocorridos na icônica ponte. É uma produção feita para a TV, mas com todo o charme dos melhores filmes da década de 70. Jassen está perfeito como o policial durão que, aos poucos, vai se envolvendo com o mais improvável interesse romântico de sua vida. Susanah York está inteiramente à vontade num personagem que descobre o amor em meio a uma tragédia pessoal. Sua conexão com Jassen é o que faz do filme uma daquelas pequenas joias que valem a pena ser revistas de tempos em tempos. O fato de ser o último filme de Jassen também reforça a carga dramática de uma história cuja última cena, no interior de um avião, é para corações fortes.  






2925 - SHIN GODZILLA

   
SHIN GODZILLA (JAPÃO, 2016) – De todos os filmes sobre Godzilla, este é o mais impressionante, sem qualquer dúvida. A bem da verdade, não há grande originalidade no roteiro – Godzilla, mais uma vez, desperta e ataca Tóquio. No entanto, nesta produção, os efeitos especiais são inacreditavelmente realistas, e ver Godzilla caminhar solenemente entre os edifícios e ruas da capital japonesa, como se estivéssemos ali mesmo, pertinho, quase sentindo o bafo quente do monstro, é a prova de que o cinema finalmente conseguiu dar vida, de forma convincente, a qualquer produto da imaginação humana. É importante dizer que este filme não segue o estereótipo dos seus congêneres – não espere ver apenas um monstro destruindo a cidade e pessoas correndo desesperadas. Grande parte do roteiro se passa em sala de reuniões, onde se discute uma crise nacional, depois que um grande terremoto provocou uma situação crítica no setor nuclear. Mas o centro de tudo é Godzilla. O Japão recupera, com louvor, a fama de seu monstro-ícone, agora muito mais assustador e muito acima do que Hollywood tentou, mas não conseguiu fazer.  

terça-feira, 28 de março de 2017

2924 - O CLÃ

   
A família perfeita?
 O CLÃ (EL CLAN, Argentina/Espanha, 2015) – Mais um excelente filme argentino, dirigido por Pablo Trapero, um dos mais vigorosos talentos portenhos, que filma com incisão cirúrgica, no sentido de derrubar defesas e instigar uma reflexão incômoda a respeito da natureza humana. Arquímedes Puccio (o estupendo Guillermo Francella) é um pai de família respeitável que, clandestinamente, ajudava o regime dos militares que se instalara no país desde de 1976 com o sequestro dos inimigos do governo. Puccio percebe que a atividade ainda tinha uma possibilidade inexplorada: exigir resgate em dinheiro, sem nenhuma intenção de devolver a vítima aos familiares. O caso – verídico – causou comoção entre os argentinos e se constitui num registro importante do período mais trágico da ditadura naquele país. Guillermo Francella é realmente um grandíssimo ator. Aqui, ele faz um personagem completamente diferente do doce Leon, de O AMOR NÃO TEM TAMANHO, e impressiona pela intensidade com que se entrega a uma figura aterrorizante que vivia sob uma fachada burguesa aparentemente inofensiva. Grande filme, grandes atuações e uma história contada magistralmente.  

segunda-feira, 27 de março de 2017

2923 - O LAGOSTA

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    O LAGOSTA (THE LOBSTER, UK e França, 2015) - A história não é nada convencional e, por isso mesmo, deliciosa e inquietante: no futuro, as pessoas são proibidas de viverem sozinhas. Caso permaneçam solteiras, são logo encaminhadas a um hotel especial. Lá podem permanecer por até 45 dias e, neste período, são incentivadas de toda maneira a encontrar um novo parceiro para toda a vida entre os próprios hóspedes. Se não conseguirem, são transformadas em um animal – qualquer animal – que a própria pessoa escolhe e, a partir de então, vive solta na natureza. A lagosta do título original é o animal escolhido por David (Colin Farrell), que acaba de chegar ao hotel. O roteiro – originalíssimo – é uma alegoria crítica às regras que a sociedade nos impõe sobre como devem ser os relacionamentos amorosos, uma visão surreal sobre um mundo pós Tinder. As atuações propositalmente mecânicas dos atores ajudam a mostrar a linha tênue entre o real e o absurdo, num mundo em que os relacionamentos amorosos são frequentemente reduzidos à simples observação de interesses e tipos. De certa forma, nada muito diferente do que se vê hoje em dia. É uma ótima oportunidade de reflexão sobre a fragilidade dos laços afetivos num mundo em que o exibicionismo e a superficialidade parecem ter se tornado valores mais importantes.  

domingo, 26 de março de 2017

2922 - TERCEIRA PESSOA

    TERCEIRA PESSOA (THIRD PERSON, USA, 2013) – Paul Haggis (de CRASH) novamente nos traz histórias que se entrelaçam gradativamente, até um desfecho que poderia ser menos previsível. Sem querer dar spoilers, o título do filme já nos indica o caminho que os personagens vão tomando ao longo da trama. Porém, foi issso mesmo que chamou minha atenção – não é um daqueles filmes de fácil assimilação, mas tem, no elenco nomes importantes como Liam Neeson, Olivia Wilde, Adrian Brody e James Franco, o que, no mínimo, cria uma grande expectativa. Na verdade, as atuações ficam um pouco limitadas pelo roteiro que, a certa altura, desanda um pouco, indefinindo personagens e situações. Especialmente, no terço final, tem-se a impressão de que a pressa falou mais alto e tudo teria que ser explicado rapidamente, o que  aconteceu precariamente. Este derradeiro trecho, mal executado, não compromete muito o filme, mas deixa a impressão do que poderia ter sido e não foi, numa visão “manuelbandeirianamente”. A bela Olivia Wilde amadureceu como atriz, embora suas cenas mais memoráveis sejam as que corre nua pelos corredores do hotel onde se hospeda. 

2921 - AVE CÉSAR!

Scarlett Johansson
   
      AVE, CÉSAR! (HAIL, CAESAR!, USA, INGLATERRA, JAPÃO, 2016) – Esta produção dos irmãos Coen é uma sátira aos gêneros escapistas de Hollywood, em que o processo de produção cinematográfico é abordado com um olhar corrosivo, desmitificando astros frívolos, starlets de ar inocente e diretores com afetados sotaques europeus. Há uma atmosfera nonsense que perpassa todo o filme, o que deixa mais evidente a nem tão ultrapassada engrenagem hollywoodiana de produzir e destruir produções e personalidades. George Clooney interpreta o ator canastríssimo Baird Whitlock com os dois pés no deboche, enquanto Scarlett Johansson faz uma estrela de musicais aquáticos, no estilo Esther Williams. AVE CÉSAR! não é para todos os gostos, mas pode ser interpretado como uma declaração de amor ao cinema e às figuras, falsas ou não, que o fazem.


sexta-feira, 24 de março de 2017

2920 - STAR TREK: SEM FRONTEIRAS

STAR TREK: SEM FRONTEIRAS (STAR TREK BEYOND, USA, 2016) – Há um certo ar retrô neste terceiro filme da série, no que diz respeito à trama e a suas reviravoltas. Tudo isso serve de injeção nostálgica na veia afetiva dos fãs antigos e recentes, o que transforma STB num daqueles reencontros que lavam a alma. Os efeitos estão ótimos: é emocionante ver a Enterprise bem de perto, com todos os seus detalhes, ancorando num imenso deck espacial, ao redor do qual uma espécie de Terra 2 resplandece em cores e sons. Porém, falta ao filme o toque artístico de J.J. Abrams, pois o diretor Justin Lin (da franquia VELOZES E PERIGOSOS, putz!) não consegue segurar o peso emocional de uma edição de STAR TREK. Temos um Kirk (Chris Pine) mais contido e um Spock (Zachary Quinto) mais hamletiano do que nunca. No entanto, Simon Pegg (Scotty) é que tem a atuação mais marcante, especialmente nos diálogos afiados trocados com McCoy (Karl Urban). São emocionantes as homenagens a Leonard Nimoy e a Anton Yelchin, o oficial de comunicações Checov, morto em junho de 2016.

quinta-feira, 23 de março de 2017

2919 - TWO AND A HALF MEN - TEMPORADA 10

   
 TWO AND A HALF MEN – 10TH TEMPORADA (USA, 2012) – Se na temporada anterior – em que Ashton Kutcher substitui Charlie Sheen – ainda havia laivos de comicidade, especialmente quando os roteiros exploravam o histrionismo físico de Alan (Jon Cryer, hilário), nesta, tudo se perde. Era para ter parado na anterior. A décima edição mostrou que não havia mais o que expandir no universo de TAHM. À exceção de um episódio realmente engraçado – quando Alan e Lindsey chamam Walden para um ménage – esta temporada foi um enorme constrangimento e frustração para quem achava que a entrada de Kutcher ainda daria fôlego à série. Se na sua estreia ele ainda se saiu bem, apesar do ator sofrível que sempre foi, agora, sua canastrice e falta de talento ficaram mais que evidentes. Para piorar, temos o pior episódio da fase pós-Charlie: Alan e Walden estão em Nova Iorque, numa cena que se transforma em um grotesco musical da Broadway. Foi embaraçoso ver o ótimo Cryer participar de uma sequência tão pobre artisticamente e, sobretudo, sem a mínima graça, que apenas ajudou a enterrar ainda mais uma das melhores séries da TV. Além de Cryer, Ryan Stiles, o sensacional Herb, foi responsável pelos (poucos) momentos engraçados da temporada (veja cena abaixo).    

terça-feira, 21 de março de 2017

2918 - A LENDA DE TARZAN

    
 A LENDA DE TARZAN (THE LEGEND OF TARZAN, USA 2016) – O roteiro desta nova versão do “homem da selva” criado por Edgar Rice Burroughs em 1912 aborda a crueldade colonial na África, mais especificamente no Congo, para onde o lorde Greystoke (Alexander Skarsgard), então aclimatado e aristocratizado em Londres, retorna, em companhia de sua esposa Jane (Margot Robbie, linda de nocautear) e de George Washington Williams (Samuel L. Jackson). Christoph Waltz repete saborosamente mais um vilão de sua galeria de tipos teutônicos. De certa forma, o filme não engrena, mesmo nas cenas de ação – o uso de CGI atrapalha o ritmo e o charme da floresta se perde ao longo da narrativa. Tudo é meio previsível e sem emoção. GREYSTOKE, com Christopher Lambert, de 1984, é bem superior, embora Andie MacDowell, a Jane desta produção, nem de longe chegue aos pés de Margot Robbie.   

segunda-feira, 20 de março de 2017

2917 - SULLY O HERÓI DO RIO HUDSON


   SULLY, O HERÓI DO RIO HUDSON (USA, 2016) – Clint Eastwood retrata, aqui, o evento que mexeu com o imaginário dos nova-iorquinos, em 2009: o comandante Chesley “Sully” Sullenberger III, pousa, emergencialmente, um Airbus com 155 pessoas a bordo, no Rio Hudson, depois de as turbinas terem sugado um bando de aves que atravessaram sua rota de voo. Qualquer fato que envolva acidentes aéreos, em Nova Iorque, “aprés” o 11 de setembro, tem uma dimensão gargantuesca – e é este aspecto, juntamente com as dúvidas que as autoridades aeronáuticas lançaram sobre a decisão do piloto, que se constitui o eixo principal de SULLY. Eastwood conduz magistralmente a narração do pouso forçado e do processo de heroificação do comandante Sully (interpretado por Tom Hanks com a serenidade e a segurança do personagem real), que culmina numa eletrizante sequência de julgamento, onde o “fator humano” assume contornos essenciais e muito mais importantes do que qualquer avaliação tecnológica.   

2916 - INVASÃO ZUMBI

     
INVASÃO ZUMBI (TRAIN TO BUSAN, Coreia do Sul, 2016) – No meio do trajeto entre Seul e Busan, pai e filha percebem uma certa agitação no seu entorno. Súbito, se dão conta de as pessoas vão se transformando em zumbis e instaurando pânico nos vagões. Apesar da insistência no tema – hoje espalhado por várias plataformas – este filme traz novidades, especialmente na apresentação dos zumbis: com suas posturas retorcidas, com membros e o pescoço em ângulos anormais e o som fantasmagórico que produzem, o vigor e a grandeza do ataque fascinam, ao mesmo tempo que nos mantêm ligados o tempo todo. O desenvolvimento dos personagens está muito acima da média para um filme deste gênero. A criatividade e ousadia do diretor Sang-ho Yeon fazem deste filme uma exceção à produções apressadas de Hollywood. Sem a abordagem “cool” de THE WALKING DEAD, este TTB concentra suas forças no medo súbito que uma pandemia deste porte provoca nas pessoas.  

segunda-feira, 13 de março de 2017

2915 - CAPITÃO FANTÁSTICO

    
 CAPITÃO FANTÁSTICO (CAPTAIN FANTASTIC, USA, 2016) – CF é um filme pequeno e modesto, mas que acaba impressionando exatamente por esta falta de pretensão: é a história de um pai (Viggo Mortensen, magnífico) que cria, sozinho, os filhos, no meio do mato, pensando na educação deles como uma missão suprema, mesmo que com valores e conceitos na contramão do que é considerado “normal”. Ben Cash (Mortensen) é um radical anti-sociedade de consumo que dá aos filhos toda a disciplina – quase espartana, diga-se – necessária para o aprendizado de literatura clássica e moderna, história e atualidades, física e atualidades. Um fato os fará a ter um contato com a sociedade moderna, e o diretor Matt Ross aproveita para tirar daí a hilaridade – e reflexão - esperada deste tipo de choque cultural. CF resgata a impressão do mundo como algo vasto esperando ser explorado, de uma beleza instigante que sobressai aos olhos infantis e adolescentes (lembrei algumas vezes de A COSTA DO MOSQUITO, com Harrison Ford) e é uma crítica aos valores da sociedade de consumo. Além, claro, de exaltar a figura de Noam Chomsky, citado várias vezes por Ben. O grandíssimo Frank Langela está excelente, numa atuação marcante, como o sogro de Ben e seu crítico mais feroz.  

domingo, 12 de março de 2017

2914 - TWO AND A HALF MEN - TEMPORADA 9

     
TWO AND A HALF MEN, 9TH SEASON (USA, 2011) – Esta é a temporada que marca a entrada de Asthon Kutcher no lugar de Charlie Sheen. Revendo, agora, depois do impacto inicial – quando a atuação de Kutcher nunca me convenceu – reconheço que ele até que se sai bem, dentro do escopo do seu papel (meio bobo, diga-se) e por causa da expectativa de substituir o carisma do antigo astro. De qualquer forma, continuo achando-o mau ator, limitado e com um timing meio forçado para comédia. No entanto, depois dos primeiros episódios, ele encontra um equilíbrio cômico com Alan (Jon Cryer, mais do que nunca, hilário) e vai compondo seu Walden Schmidt de forma aceitável. Por outro lado, Cryer brilha com todo o seu histrionismo nas situações mais absurdas, com total domínio de cena e sem medo do ridículo. Seu personagem, de certa forma, se liberta da órbita de Charlie, muda sua linha de composição (passa a ser um conselheiro amoroso para Walden) e se entrega aos absurdos que inventa para continuar a morar na casa de Malibu. Atenção para o episódio “Not in my mouth”, em que Lindsay (Courtney Thorne-Smith), namorada de Alan, passa mal no avião de Walden, a caminho de Londres. Escatologicamente memorável. 

2913 - PAI E FILHAS

   
 PAIS E FILHAS (FATHERS AND DAUGHTERS, USA 2015) – Russel Crowe é um escritor, ganhador do Pulitzer, que luta para manter a guarda da filha pequena, depois de começar a ter surtos psicóticos por causa do acidente que matou sua mulher. Amanda Seyfried faz o papel da filha, 27 anos depois, em cenas que vão se intercalando para construir a história emocionante de seu relacionamento com o pai e as consequências na sua atual. Crowe, mais uma vez, arrasa com uma atuação emocionante, e Amanda dá uma dimensão de ternura e cumplicidade à influência paterna na construção de sua percepção do mundo.

sexta-feira, 3 de março de 2017

2912 - PASSAGEIROS

   
  PASSAGEIROS (PASSENGERS, USA 2016) – O mecânico Jim Preston (Chris Pratt) acordou antes da hora. Ele é uma das 5000 pessoas que viajam congeladas numa gigantesca nave, num percurso que levará décadas, para chegar a um planeta e estabelecer uma nova colônia, longe da superpopulação terrestre. Que fazer? Nada lhe dá qualquer informação sobre seu súbito despertar. Ele só dispõe da companhia de um barman androide (Michael Sheen, numa atuação deliciosa), com cuja interação Jim tenta entender (sem sucesso) o predicamento em que se encontra. Lá pelas tantas (vocês verão por que), aparece a escritora Aurora Lane, harmoniosamente acomodada no corpo perfeito de Jennifer Lawrence, para tirá-lo da solidão cósmica que até então vivera na colossal espaçonave. Rapaz de sorte, hein? Pois é, mas a dinâmica com Aurora se mostra menos fácil do que ele esperava. Ele tem que conquistá-la, e esse processo quase que acontece de modo perfeito, se não fosse a forma com que o diretor norueguês Morten Tyldum (do ótimo O JOGO DA IMITAÇÃO) sucumbiu ao drama romântico, se inclinando perigosamente para o roteiro açucarado que tanto prejudica o sangue quanto a fruição de uma história simpática e realizada com grande apuro técnico.   

quarta-feira, 1 de março de 2017

2911 - MANCHESTER À BEIRA-MAR

    
 MANCHESTER À BEIRA-MAR (MANCHESTER BY THE SEA, USA 2016) – O Oscar de Melhor Ator deste ano foi bem entregue a Casey Affleck – ele tem um desempenho devastador como Lee Chandler, um homem consumido pelo luto, que tem dentro de si uma dor imensa que ele domina pelo mutismo e aparente alheamento do mundo que o cerca. Com a morte do irmão, ele se vê como o guardião do sobrinho de 16 anos, mas não se sente confortável nesta missão. É aí que se redimensionam o sofrimento ingente que o consome (revelado numa cena dilacerante) e suas pontes com o passado, em flashbacks quase imperceptíveis que o diretor Kenneth Lonergan insere de modo cru, mas totalmente pertinente ao universo de Chandler. O mais impressionante na atuação de Affleck é a forma com que ele confere eloquência a um personagem praticamente inarticulado, cuja voz, inaudível, é ao mesmo tempo um sussurro e um choro contido. Atenção para a sua cena na delegacia – é algo para não se esquecer jamais. É um filme sobre como a tristeza pode ensinar lições valiosas que nos escapam na alegria transitória.