segunda-feira, 22 de maio de 2017

2959 - O RIO POR ELES

   
O RIO POR ELES (BRASIL, 2016) - O diretor Ernesto Rodrigues reuniu uma grande compilação de imagens produzidas por telejornais e documentários de emissoras e cineastas do exterior para mostrar como, ao longo das décadas do último século, o mundo enxergou o Brasil através dos cenários e costumes cariocas. Narrado por Pedro Bial, o documentário faz um extenso trabalho de busca para resgatar vídeos gravados desde a primeira metade do século passado até tempos recentes. O documentário revela paisagens perdidas no tempo, transformações urbanas surpreendentes e as características dos cariocas que impressionaram cinegrafistas e editores, mostrando a vida cultural e social do Rio, dissecando vícios, clichês e preconceitos no enfoque estrangeiro da cidade e sua gente. Há registros do ex-presidente Getúlio Vargas no Palácio do Catete, antiga sede do governo federal, e visitas de autoridades como o ex-presidente americano Richard Nixon e a Rainha Elizabeth da Inglaterra. As reportagens discutem questões sociais relevantes, como a remoção de moradores de favelas da zona sul. Além disso, recupera filmagens de carnavais da metade do século passado, com imagens dos desfiles de um mundo completamente diferente. Imperdível.

domingo, 21 de maio de 2017

2958 - CORRA!

    
Chris começa a desconfiar que há algo errado
  CORRA (GET OUT, USA, 2017) – Estreia auspiciosa do comediante Jordan Peele na direção de um filme surpreendente, na proposta e na originalidade. O fotógrafo negro Chris Washington (Daniel Kaluuya) vai com a namorada, Rose (Allison Williams), para conhecer os pais dela na enorme propriedade rural da família. Chegando lá, Chris começa a desconfiar da recepção que recebe: os Armitage, perfeitos WASPS americanos, o acolhem com uma benquerença efusiva que logo lhe soa meio artificial. A partir daí, o filme vai construindo uma atmosfera de suspense, que leva ao terror, de forma esplêndida, e continua assim quando parte para a sátira e a crítica social. Raramente, elementos tão díspares na sua temática, foram reunidos de maneira tão eficaz num roteiro que é um primor de acabamento. É como se revisitássemos ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR, estrelado por Sidney Poitier, 50 anos atrás, com um toque de ironia. Mas Peele trata da discriminação racial sob um ponto de vista da degradação do caráter de quem a comete, pessoas consideradas “de bem” que camuflam seus gestos politicamente corretos com a mesma desfaçatez com a qual tratavam os negros nos tempos da escravidão, quando esta se mantinha sob o véu das exigências econômicas. No filme, nota-se que pouco ou quase nada mudou a este respeito.    



terça-feira, 16 de maio de 2017

2957 - CONTRABANDO

  
Kate Beckinsale, um ótimo motivo para Mark Wahlberg voltar para casa

    CONTRABANDO (CONTRABAND, USA 2012) – O roteiro nada tem de original: um ex-contrabandista (Mark Wahlberg) volta à ativa, para proteger seu cunhado, vítima de ameaças por parte de um traficante (Giovanni Ribisi, muito caricato). O filme segue a cartilha dos seus similares, com cenas construídas a partir de desdobramentos previsíveis, mas eficientes. Mark Wahlberg encontra, nestas produções, um veículo perfeito para sua linha de interpretação, que mistura personagens, de certa forma, injustiçados na sua tentativa de regeneração. A bidimensionalidade dos personagens é um empecilho relevante à fruição deste thriller de ação que aposta muito mais no seu elenco famoso: além de Wahlberg e Ribisi, o ótimo J.K. Simmons (num personagem secundário) e o intenso Ben Foster (também num personagem mal resolvido). Ah, mas há Kate Beckinsale, cuja presença melhora tudo.   

segunda-feira, 15 de maio de 2017

2956 - A INVOCAÇÃO DO MAL 2

   
A bela Vera Farmiga e Patrick Wilson
 A INVOCAÇÃO DO MAL 2 (THE CONJURING 2, USA 2016) – O terror é uma seara difícil para qualquer realizador. O diretor malaio de origem chinesa, James Wan, criado na Austrália e hoje radicado nos EUA, de 39 anos, tem uma sensibilidade que redimensionou o gênero neste ótimo filme (ele também dirigiu o primeiro, e ótimo, A INVOCAÇÃO DO MAL). Sua desenvoltura e ritmo de direção vão construindo uma atmosfera que seduz (por medo, desconfiança, curiosidade?) o espectador, de uma maneira quase hipnótica, especialmente por sua habilidade de posicionar a câmera em ângulos inusitados e surpreendentemente originais, deixando margem para que a imaginação de quem assiste produza as sensações mais angustiantes e sempre incômodas. Patrick Wilson e Vera Farmiga (em absoluta química em cena) estão de volta como Ed e Lorraine Warren, os mais célebres caça-fantasmas americanos que, em dezembro de 1977, vão a Londres para investigar um caso de possível possessão que a imprensa local transformara em circo. Wan vai expondo os acontecimentos magistralmente, expandindo zonas de incertezas e nos convencendo de que estamos diante de um filme memorável.  



2955 - OS COSMONAUTAS

 
Neide Aparecida, Grande Otelo e Golias
      OS COSMONAUTAS (BRASIL, 1962) – Divertida comédia com Golias e Grande Otelo, na onda da corrida espacial entre americanos e russos que acontecia na época. Há boas cenas do centro do Rio, o que sempre é fascinante para o observador dos costumes daquele momento histórico nacional. O roteiro é simples, mas extremamente eficiente, muito em função dos trejeitos de Golias e das oportunas estocadas nos políticos que queriam pegar carona no pioneiro projeto. 

2954 - TWO AND A HALF MEN - TEMPORADA 12


Alan e Walden
 TWO AND A HALF MEN, TEMPORADA 12 (USA, 2014) – Esta  última temporada foi constrangedora. A começar pelo argumento frágil do casamento de fachada entre Walden e Alan, para que eles pudessem adotar uma criança, já que Walden concluiu que só isso daria sentido à sua vida de bilionário ( ! ). Os episódios foram se arrastando com histórias pífias e desenxabidas. Chuck Lorre, ainda com a vaidade ofendida por Charlie Sheen, parecia querer provar que a série não dependia dele e, assim apostou tudo na comicidade natural de Jon Cryer que, coitado, foi obrigado a transformar seu personagem num salva-vidas para um barco que já vinha afundando desde a entrada de Ashton Kutcher. É bem verdade que, em vários episódios, a autogozação com a insistência na continuidade do programa apareceu de forma muito saudável, um mea-culpa inevitável diante de uma temporada final que poderia ter sido abreviada em respeito aos fãs da série.  

terça-feira, 9 de maio de 2017

2953 - AO MESTRE, COM CARINHO

  
Sidney Poitier aponta o caminho
    
AO MESTRE, COM CARINHO (TO SIR, WITH LOVE, USA 1965) - Ainda é uma boa referência para se tratar sobre diversos aspectos da sociedade e principalmente em relação as metodologias pedagógicas, o filme apresenta a dificuldade de um engenheiro (Sidney Poitier), recém-formado, que tenta melhorar sua condição de vida indo para a capital Londrina trabalhar como professor. Sua situação acaba virando um grande desafio, pois ele acabou diante da turma mais problemática de uma escola pública, com alunos agressivos e desestimulados. A problemática começa a ser resolvida, quando o professor percebe que antes da questão do ensino, era preciso trabalhar os valores morais e psicológicos daquele grupo. A rebeldia já era presente naquele momento, com a influência de novos hábitos e comportamentos, como, por exemplo, o fenômeno dos “Beatles” e da ascensão do jovem numa sociedade até então mais gerontocrata. A história é contada com sensibilidade e leveza e o sucesso do filme se deve muito à charmosa atuação de Poitier. 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

2952 - DEXTER - TEMPORADA 5

    
Julia Stiles dá uma mãozinha a Dexter
 
DEXTER – TEMPORADA 5 (USA, 2010) – Depois da devastadora quarta temporada, era natural que o coeficiente dramático caísse um pouco na seguinte. No entanto, na sequência, DEXTER consegue manter a tensão radical que sempre caracterizou a série, agora focando nos sentimentos de culpa de Dexter e no inesperado encontro com um pessoa que, gradativamente, aceita seu “passageiro sombrio” e, inesperadamente, começa a preencher afetivamente um vazio que nem Rita havia conseguido. Lumen (“luz”, em latim), vivida por Julia Stiles com seu magnestismo natural, traz luzes para alguns caminhos que Dexter não ousava trilhar, como, por exemplo, a aceitação do seu “lado sombrio” e a possibilidade de conexão com alguém com os mesmos impulsos, digamos, peculiares. Julia Stiles é uma atriz singular, com a capacidade de mimetizar uma pletora de emoções indefiníveis pela palavra. Combinou perfeitamente com o hermetismo dexteriano, em cujo universo pululam um sem número de contradições que traduzem uma personalidade complexa e instigante. Muitos não entendem. Mas não tem importância. A lógica é uma iguaria do pensamento, mas há quem prefira comer capim. 

domingo, 7 de maio de 2017

2951 - HORAS DECISIVAS

Chris Pine, como Bernie Webber
HORAS DECISIVAS (THE FINEST HOURS, USA, 2016) – O filme relata os fatos ocorridos em 1952, quando uma tempestade deixou à deriva dois petroleiros no mar de Massachusetts, nos EUA, e a Guarda Costeira se viu diante de um resgate dramático no meio da noite. Um pequeno grupo se lança ao mar revolto, num barquinho um pouco maior do que uma Kombi, cujo capitão, Bernie Webber (Chris Pine, aproveitando certamente a “expertise’ de Kirk) faz tudo para chegar ao local do desastre. O roteiro entrega uma boa história de aventura, em que a superação das adversidades é o maior destaque. Claro que as cenas de ação são totalmente geradas por CGI, o empobrece visualmente o filme, mas que, reconheço, são absolutamente necessárias a uma trama que se passa no mar, durante uma tempestade. A água é um obstáculo que a tecnologia do cinema ainda não superou. Haja vista as cenas de chuva, sempre artificiais e inconvincentes.

sábado, 6 de maio de 2017

2950 - A AUTÓPSIA DE JANE DOE

      
Cox e Hirsh tentando entender o que o corpo quer revelar
A AUTÓPSIA DE JANE DOE (THE AUTOPSY OF JANE DOE, USA, 2016) - Brian Cox e Emile Hirsch são pai e filho que tocam um negócio há gerações na família – uma funerária que é também a morgue da cidadezinha em que eles moram, na Virgínia. Certa noite, um cadáver estranho vai parar lá: no porão de uma casa em que a polícia está investigando o massacre de uma família, descobre-se, meio enterrado no chão de terra, o corpo de uma jovem. Não parece haver nenhuma ligação entre ela e os crimes do andar de cima, mas o defunto é tão fora do comum que o xerife o despacha com urgência, já no meio da noite, para os legistas. É aí que o filme do norueguês André Ovredal começa a tomar forma de uma peça de câmara, tirando partido do ambiente claustrofóbico da morgue, do elenco enxuto – três personagens, sendo um dos quais está morto - , dos elementos sobrenaturais que o roteiro incorpora gradativamente e da atmosfera do terror que nos remete a produções da década de 70, quando a imaginação do espectador era constantemente instigada por diretores mais preocupados com uma história original e criativa do que com efeitos especiais que nem sempre contribuem para um bom filme. Eu esperava mais, no entanto, o filme é muito melhor que muitos outros mais badalados. Jane Doe é um nome genérico que a polícia americana dá a vítimas de crimes que devem ter sua identidade protegida ou que seja desconhecida.





quinta-feira, 4 de maio de 2017

2949 - O FILHO DE KONG

 
Kong Jr., sem rebeldia
     O FILHO DE KONG (THE SON OF KONG, USA 1933) – Depois do rastro de destruição que Kong deixou em Nova Iorque, era natural que Carl Denham (Robert Armstrong) fosse responsabilizado. Ele, então, decide fugir e voltar à ilha onde havia descoberto a sua criatura e, pasmem, lá encontra o filho de Kong, quase albino e muito mais gente boa. Tanto que é ele que ajuda os humanos a fugir de criaturas ameaçadoras e, no fim ainda tem um ato heroico digno de Hollywood. Este Kong “light” é um filme simpático, surfando, evidentemente, no sucesso de seu antecessor, mas sem o mesmo brilho. As limitações orçamentárias ficam evidentes nas cenas de ação, embora muitas delas sejam bem razoáveis para a época. É uma sequência fraca que nem de longe chega perto de outras memoráveis, como A NOIVA DE FRANKENSTEIN e O PODEROSO CHEFÃO II.  



quarta-feira, 3 de maio de 2017

2948 - NEGÓCIO DAS ARÁBIAS

    

NEGÓCIO DAS ARÁBIAS (A HOLOGRAM FOR THE KING, USA, Inglaterra, França, Alemanha, México, 2016) Acho que quase todo mundo concorda que Tom Hanks é obrigatório. No entanto, este filme não parece estar à altura de sua exitosa carreira, embora seja uma história simpática cujo interesse se deve muito às oníricas paisagens do Oriente Médio. Hanks é Alan Clay, representante de uma empresa americana que pretende vender um sistema holográfico de conferências a distância para o rei saudita. Um pouco desorientado por causa do choque cultural inevitável para um ocidental num país tão diferente, Alan acaba conhecendo a doutora Zahra (Sarita Choudhury), que o encanta com seu jeito direto e, ao mesmo tempo, melancólico. Hanks continua com seu carisma, aquela delicadeza incorruptível que ele passa com a certeza de quem viveu altos e baixos e que só conta com o otimismo para acordar e tocar o dia. Ele dá ao papel uma dignidade que excede a própria narrativa que, a meu ver, acaba muito abruptamente, como se o diretor Tom Tykwer (do fabuloso CORRA, LOLA, CORRA) quisesse dar um desfecho feliz a uma história apenas bonitinha.

terça-feira, 2 de maio de 2017

2947 - PHOENIX

       
Nelly e o marido que a denunciou
 PHOENIX (Alemanha, Polônia, 2015) - Phoenix, do diretor Christian Petzold (Barbara), nos leva a um momento posterior à II Guerra. Mais precisamente, numa Berlim arrasada pelas bombas, com destroços por todo canto e uma população obrigada a conviver com a ocupação americana, e tendo que elaborar os horrores do passado, que conhecemos Nelly Lenz ou, pelo menos, o que sobrou de sua vida. Sobrevivente de um campo de concentração, a cabeça toda enfaixada por ter seu rosto desfigurado, ela tenta sobreviver. Física e psicologicamente, pois ela sabe que terá que recomeçar a vida, ou os pedaços do que ainda resta dela, em meio ao caos do pós-guerra. O próprio título do filme aponta para o renascimento, embora Phoenix também seja, aparentemente, apenas o nome de uma boate presente na história. Da reconstrução facial vem o inevitável estranhamento com o novo rosto, irreconhecível para si mesma. O desespero em voltar a ser quem era a faz vagar pela cidade, sempre ansiosa, em busca de seu marido, Johnny, que não a reconhece. Novo golpe. A perda da identidade parece se redimensionar numa dor que não tem fim. Nelly quer ir em busca de seu marido Johnny, que ela não vê desde que foi presa e enviada para Auschwitz. Outra revelação: Johnny (Ronald Zehrfeld) é também um dos principais suspeitos de a ter delatado e de ser o responsável direto pela sua prisão. Achando que a esposa está morta e de olho na sua herança, Johnny chama Nelly para participar de um golpe e passa a “transformá-la” na sua esposa falecida. O jogo que se forma entre a verdadeira Nelly e a falecida esposa de Johnny é uma trama que fascina e incomoda. Mesmo sabendo que o marido teve culpa na sua prisão, Nelly, a mulher ainda apaixonada, se ilude com a esperança de ter sua vida de volta. Atenção para, no primeiro terço do filme, a impactante cena em que Nelly vê um cego tocando violino, sob a luz de um poste, tendo ao fundo os destroços de uma casa bombardeada. É o belo em meio à guerra. E, no fim, um soco no estômago.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

2946 - DEXTER - TEMPORADA 4

   
Arthur e Dexter, nem tão diferentes assim
  DEXTER, TEMPORADA 4 (USA, 2009) – Vivendo seu disfarce mais perfeito – chefe de família, pai de três filhos, morando numa bela casa num subúrbio de Miami – o serial-killer mais amado do mundo tem dificuldade para encontrar tempo para sair matando as pessoas. Num cenário, assim, tão perfeito, entra na história o vilão Trinity que, na atuação impressionante do veterano John Lithgow, assume proporções realmente assustadoras. Trinity também é um serial-killer que segue um padrão há quase trinta anos, sempre matando três pessoas de cada vez, em situações semelhantes. O envolvimento de Dexter com Trinity (na realidade, Arthur Mitchell, sua identidade paralela) vai obnubilando seus cuidados com sua segurança e de sua própria família, deixando-o, pela primeira vez, vulnerável. De acordo com K. Araújo, o serial killer do alto de Olaria, esta é a melhor temporada da série. De fato, cada episódio é memorável, e a tensão vai crescendo até o desfecho épico que sinaliza os caminhos que Dexter há de seguir no futuro. Michael C. Hall ganhou um Grammy e um Globo de Ouro por sua atuação perfeita, liderando um elenco sensacional que cativa a cada temporada. Dexter é um dos personagens mais perturbadores da TV americana: um sujeito que busca se equilibrar entre a atividade de psicopata homicida e uma vida politicamente correta. A chegada do seu primeiro filho é o tema que perpassa essa temporada e que contribui para aumentar ainda mais a confusão existencial de Dexter, já que a realidade, com todas as suas imposições, insiste em fazer dele um homem normal.











domingo, 30 de abril de 2017

2945 - BATA ANTES DE ENTRAR

    
Keanu, como resistir, hein?
BATA ANTES DE ENTRAR (KNOCK, KNOCK, USA 2015) – Diversão e apelação andam de mãos dadas durante este filme que conta uma história pertubadoramente possível de acontecer com qualquer pessoa: um marido fiel, mas meio palerma (Keanu Reeves), abre a porta para duas garotas lindas e animadas e seu arrependimento pode levar a consequências nada agradáveis. No início, elas se insinuam, e ele se esquiva, mas as duas lançam mão de um, digamos, golpe baixo, e lá se vão 14 anos de de fidelidade conjugal pela janela. Típico exemplo do cinema de “exploitation” americano (filmes apelativos, com temática sensacionalista), KNOCK KNOCK bate na tecla da transgressão e carrega na violência e no uso instrumental do sexo. O filme é melhor do que se poderia imaginar especialmente por causa das duas atrizes que, além da beleza que o papel exige, também são talentosas no que lhe compete (não se quer aqui um altíssimo voo dramático, claro). Uma delas é Ana de Armas, uma cubana radicada na Espanha, dona de uma infantilidade e sex appeal pertubadores. A outra, Lorenza Izzo, chilena radicada nos EUA, é capaz de provocar tanto arrepios de medo quanto de lascívia. Keanu Reeves vai bem, com seu jeito de quem acabou de acordar, e parece genuinamente perdido nas consequências injustas de seu ato ingênuo. O filme oferece uma boa oportunidade para a reflexão sobre se realmente as mulheres têm esta posição tão inferior assim na sociedade e a latente misandria que, em muitos casos, se torna invisível e quase esquecida. Remake de DEATH GAME (1977), com Sondra Locke, então mulher de Clint Eastwood.   





2944 - CAPITÃO AMÉRICA: GUERRA CIVIL

  
Há de se ter uma paciência de ferro para aturar um chato desses
  CAPITÃO AMÉRICA: GUERRA CIVIL (CAPTAIN AMERICA: CIVIL WAR, USA 2016) – Esta edição de Os Vingadores serviu para confirmar o óbvio: o Capitão América é um chato! O personagem vivido por Chris Evans (muito bem, por sinal) é um daqueles exemplares do “politicamente correto” que, cá para nós, distoa do universo irreverente dos super-heróis das HQs. Por isso, Robert Downey Jr., muito à vontade na lataria do Homem de Ferro, é muito mais agradável de ver, por causa da irreverência e saudável autodepreciação que pontilha seus diálogos. Neste filme, mais uma vez, o excesso de heróis – e de atores do primeiro escalão – acaba por fragmentar a fruição da história (mal desenvolvida, por sinal). Não há, propriamente, um inimigo a ser combatido. O que vemos é mais uma briga em família, num drama tolstoniano, com dois grupos com visões opostas em relação a um assunto delicado: deveriam os Vingadores se submeterem a uma supervisão que controlasse suas missões e, principalmente, os danos colaterais decorrentes delas? O Homem de Ferro acha que sim, e o Capitão América acha que não. Os super-heróis se dividem e acabam lutando entre si. Os diálogos são mal construídos e longos demais, o que dispersa um pouco a atenção de quem espera mais ação – a taõ falada cena do aeroporto não foi lá assim tão vibrante. Scarlett Johansson continua linda como a Viúva Negra, o Hulk não deu as caras e Tom Holland, como o Homem-Aranha, foi uma boa surpresa. Prefiro os filmes solo.  



2943 - A MAIOR HISTÓRIA DE TODOS OS TEMPOS

      
Max Von Sidow , estreando em Hollywood em grande estilo
A MAIOR HISTÓRIA DE TODOS OS TEMPOS (THE GREATEST STORY EVER TOLD, USA 1965) – O diretor George Stevens (de SHANE) se empenhou para contar a vida de Jesus num filme curiosamente realizado logo depois do sucesso de REIS DOS REIS (1961), com o mesmo tema. Tão didático quanto o filme estrelado por Jeffrey Hunter (o primeiro capitão da Enterprise, no piloto não lançado de STAR TREK), neste filme, coube a Max Von Sidow o papel do filho de Deus. Irregular no ritmo, o filme fornece, involuntariamente, uma distração irresistível, a qual seria um pecado resistir: ficar prestando atenção para ver quando um ator famoso ia entrar em cena, coisa típica de grandes produções da época (e de época). E há vários, para todos os gostos: John Wayne, como centurião romano, que diz apenas uma frase, na cena da crucifixação; Victor Buono (que estava a cara e a barriga do rei Tut, de BATMAN); José Ferrer, como Herodes; Charlton Heston, como João Batista; Martin Landau, como Caifás, David McCallum, como Judas, Sidney Poitier, como Simão e muitos outros. Um dos apóstolos que aparecem na Última Ceia é David Hedison, o capitão Crane de Viagem ao Fundo do Mar. Telly Savallas, o futuro Kojac, raspou a cabeça para viver Pôncio Pilatos e, a partir daí, adotou o “look” para sempre.  

sábado, 29 de abril de 2017

2942 - CONRACK

Conrack e seus alunos: a aula ideal

  CONRACK (USA, 1974) Ao chegar a uma escola, numa ilha do litoral da Carolina do Sul, o professor Pat Conroy (Jon Voight), de depara com um quadro desolador: a comunidade negra, paupérrima, vive um mundo à parte, sem referências com a realidade, e os alunos da pequena escola são maltratados pela diretora e submetidos a um ensino retrógrado que os leva à apatia geral e à total destruição de seus sonhos. Percebendo que o problema não estava nos alunos, mas sim na pedagogia utilizada, Conroy (“Conrack” era como os alunos pronunciavam seu nome) os estimula a aprender, a interagir com a natureza, redimensionando uma relação professor-aluno, que antes era vertical, numa confluência de olhares, sempre com respeito mútuo e humanidade. A partir daí, os alunos começam a acreditar em si mesmos e a se libertar de limitações impostas por uma sociedade preconceituosa e injusta. Dos filmes com temática de sala de aula, este é um dos mais belos e sensíveis, principalmente por causa da simplicidade com a qual questões importantíssimas são apresentadas pelo roteiro. Embora com elementos simbólicos um pouco óbvios (Conroy, louro, olhos azuis, em oposição à comunidade negra), o filme é de uma beleza inacreditável, ainda hoje, com sua mensagem pedagógica libertadora e extremamente necessária, pois a situação de muitos seres humanos continua, infelizmente, imutável.
  





domingo, 23 de abril de 2017

2941 - O SUBSTITUTO

Adrien Brody, emocionante
   O SUBSTITUTO (DETACHMENT, USA, 2011) – O título original (“detachment”: indiferença, distanciamento, desapego) dá bem a dimensão do personagem principal, Henry Barthes (Adrien Brody, estupendo), um professor que apenas se candidata a vagas de professor substituto, justamente por não querer se envolver com os problemas dos alunos com quem lida – não bastassem seus próprios dramas pessoais. Chamado para realizar uma substituição em uma escola em um estado completo de caos, encontrará professores/as que não sentem apego nenhum pela sua profissão, estudantes desencantados e aborrecidos da vida antes mesmo de começá-la, adolescentes à procura de adultos em quem confiar. O filme começa com uma epígrafe de Albert Camus: “E eu nunca me senti tão imerso e ao mesmo tempo tão desapegado de mim e tão presente no mundo”. Essa é a situação pessoal de Henry (que também é Barthes, em todo o seu sentido simbólico). Na interação com os alunos, ele vai jogando luzes sobre sua história, procurando pontos de conexão com os dramas que encontra na sala de aula, como também na de professores. O roteiro questiona até que ponto somos indiferentes aos sofrimentos das pessoas em nossa volta e também o papel do professor numa sociedade que, na sua dinâmica cruel, apenas “tritura” os jovens e seus sonhos, transformando-os em adultos sem esperança. Brody, mais uma vez impressiona por sua capacidade de estabelecer uma empatia imediata com o espectador.







sábado, 22 de abril de 2017

2940 - UM LIMITE ENTRE NÓS

      
Denzel e Viola, magistrais
UM LIMITE ENTRE NÓS (FENCES, USA, 2016) - FENCES faz parte de um ciclo de dez peças do dramaturgo August Wilson (1945-2005) sobre a experiência de ser negro nos Estados Unidos em diferentes momentos do século 20. Troy (Denzel Washington, devastador) chega à meia-idade pululando numa existência em que despontam um descontentamento extremo, raiva e amargura. Ex jogador de beisebol, e com passagem pela polícia, ele agora está casado com a devotada Rose (Viola Davis, um assombro) e virou lixeiro. Analfabeto e amargurado por se ver fracassado como um chefe de família e figura masculina, Troy desconta nos filhos sua frustração, enquanto procura dar a eles o que ainda tem de honestidade e retidão na vida e lhes poupar das decepções reservadas ao homem negro em terras americanas na década de 50. A primeira parte do filme é, realmente, puro teatro, no qual Denzel mantém o caudaloso texto original na íntegra. Mas é quando Viola Davis, até então numa atuação em meios-tons, entra realmente em cena – ao Troy lhe comunica um fato que irá mudar o rumo da história dos dois – que sua Rose irrompe como uma onda gigante de amargura, numa interpretação calcinante que se constitui numa magistral composição iniciada por Denzel na primeira parte do filme . O Oscar foi mais que merecido.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

2939 - CHOCOLATE

   
Thierrée e Omar Sy
CHOCOLATE (CHOCOLAT, França, 2015)
– Na virada para o século XX, os números exuberantes da dupla Footit (James Thiérrée, neto de Chaplin) e Chocolat (Omar Sy) chama a atenção do dono de um grande circo em Paris, para onde leva os dois e os transforma no topo das atrações da capital. Mas mesmo com o sucesso e o dinheiro (ambos controlados por Footit), cada vez mais Chocolat se ressente do papel de saco de pancada e da estereotipagem ignorante que o acompanham. O diretor Roschdy Zem refaz a trajetória digna e emocionante de um personagem que enfrentou com coragem todos os revezes que encontrou durante sua vida, principalmente os causados pelo racismo atávico europeu e o ódio injustificado. Omar Sy tem uma atuação sensível que nos conquista desde a primeira cena. A última sequência é arrasadora.  










segunda-feira, 17 de abril de 2017

2938 - FUGINDO DO INFERNO

   
McQueen volta ao stalag
  FUGINDO DO INFERNO (THE GREAT ESCAPE, USA 1963) – Um clássico. Durante a II Guerra, um grupo de prisioneiros aliados fazem planos para fugir de um campo de concentração alemão, usando habilidades específicas de alguns deles para realizar a façanha. A primeira parte do filme é mais baseada na comédia (facilmente nos remete a GUERRA, SOMBRA E ÁGUA FRESCA e a M.A.S.H), e a segunda se concentra na aventura de fugir da Europa ocupada. No elenco, Steve McQueen, James Garner, Charles Bronson, Donald Pleasence, Richard Attenborough e James Coburn. McQueen se destaca mais nas cenas em que exibe sua destreza na motocicleta do que no protagonismo dramático que se espera dele. É Attenborough que carrega o filme. McQueen deixou as filmagens em determinado momento porque achava que o roteiro não o privilegiava. Estava certo.  

sábado, 15 de abril de 2017

2937 - SEM MEDO DE VIVER

   
O intimorato Bridges, depois da queda do avião
  SEM MEDO DE VIVER (FEARLESS, USA, 1993) – Depois de sobreviver a uma queda de avião, Max Klein (Jeff Bridges) tem sua vida transformada: fica completamente desconectado de sua vida familiar, a esposa (Isabella Rossellini, excelente), o filho e suas referências sociais. Passa a se sentir indestrutível, sem medo de nada, e começa uma relação de resgate de si próprio com uma outra sobrevivente, Carla (Rosie Perez). Bridges tem uma atuação digna do Oscar. Sente-se a sua transformação interna pela respiração, pelo olhar e, sobretudo, pelo silêncio. É um ator intenso que constrói pontes ( ! ) com emoções que estão prestes a explodir. Este filme de Peter Weir aborda a morte (ou a quase morte) como valorização da vida e nos faz refletir se um homem que perde totalmente o medo pode ainda continuar humano, no sentido lato do termo. O grande John Turturro faz o psicanalista que não consegue penetrar na nova vida de Max e resgatá-lo de sua incapacidade de se religar com o mundo, depois de emergir de um acontecimento emocionalmente transformador. A pergunta clássica – “Por que eu?” – assume ares de estranhamento, pois Max não entende sua sobrevida após a tragédia. Weir se debruça sobre os abismos emocionais de seus personagens, em histórias nas quais pessoas comuns são transformadas por causa de eventos radicais. Foi assim em A TESTEMUNHA (1985) e A COSTA DO MOSQUITO (1986), ambos com Harrison Ford.  



2936 - SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

    
A sociedade
  SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (DEAD POET SOCIETY, USA 1989) – O filme de Peter Weir é essencial para reflexões mais aprofundadas sobre educação em geral e, mais especificamente, sobre o comportamento em sala de aula, com alunos prestes a descobrir as potencialidades da vida. O roteiro e as atuações de um elenco soberbo – onde desponta a presença sensível de Robin Williams – estão afinados em todos os temas que perpassam a história: drama, descoberta existencial, vocações, autoritarismo, liberdade e, sobretudo, poesia. Ver e rever este filme é a oportunidade que todos nós temos de, um dia, ter tido um professor tão marcante como Keating e nos deixarmos ser tocados por sua ingente e delicada sensibilidade.



sexta-feira, 14 de abril de 2017

2935 - A FRENTE FRIA QUE A CHUVA TRAZ

    
 A FRENTE FRIA QUE A CHUVA TRAZ (BRASIL, 2016) – Jovens entendiados da classe-média da zona sul carioca sobem o Vidigal, para fazer uma rave na laje de um dos barracos da favela. É baseado neste argumento pobre que Neville d’Almeida volta às telas, depois de anos afastado. O que se vê é o mesmo cinema marginal que marcou a carreira do diretor e que podia ter tido um impacto estético em outras épocas, mas não atualmente. Diálogos artificiais e atuações exageradas, tudo em torno de personagens estereotipados – a menina pobre que se prostitui, os adolescentes que são "espertos" e as garotas ricas que acham o máximo ir atrás de drogas subindo o morro. Tudo muito ruim, a começar pelo elenco global de jovens que pensam que são atores a um diretor que acha que ainda está nos anos 70. Totalmente dispensável. 

2934 - KONG: A ILHA DA CAVEIRA

    
Goodman, Hiddleston e Brie Larson
 KONG - A ILHA DA CAVEIRA (KONG: SKULL ISLAND, USA 2017) – O filme tem a seu favor a excelência técnica e a criatividade na maneira de explorá-la: a inspiração icônica de Apocalypse Now, de Coppola, perpassa o desfile visual repleto de referências e citações. Tudo começa bem, mas o roteiro se perde ao não privilegiar mais cenas com seu protagonista símio, já que, atualmente, os CGIs podem (quase) tudo, se bem executados. É o caso aqui: assim como o Godzilla de SHIN GODZILLA, Kong está mais crível do que nunca, graças aos avanços ininterruptos da “performance capture” que dá vida a tais criaturas. O elenco é composto de grandes nomes, mas as atuações poderiam estar mais de acordo com a expectativa. Samuel L. Jackson está um pouco fora do tom, e o excelente John Goodman, mais magro, desde CLOVERFIELD 10, praticamente desaparece da história. Tom Hiddleston, que já foi o Loki, irmão de Thor, é bom ator, mas sua presença neste filme ficou ainda por ser explicada. A fotógrafa de guerra que acompanha o grupo, Brie Larson, parece ter entrado na trama apenas para ter um flerte com Kong. Sem mais o que fazer, acaba pagando o mico mor de um filme que, manuelbandeiramente, tinha tudo para ser ótimo, mas não foi.