quinta-feira, 16 de novembro de 2017

2983 - THE DEUCE

Os anos 70 na cara, nos bigodes e nas costeletas
THE DEUCE (USA, 2017) – Série da HBO sobre o negócio do sexo na região nova-iorquina de Times Square, nos anos 70, envolvendo cafetões, prostitutas, estudantes universitárias, policiais, mafiosos e frequentadores da área – então imunda e degradada – que se entrelaçam numa trama que procura jogar luzes sobre o início da pornogafia como indústria, numa época em que o sexo pago nas ruas tinha, de certo modo, uma certa inocência. O ótimo James Franco faz um papel duplo – o barman gente-boa Vinnie e seu irmão gêmeo vigarista - , enquanto Maggie Gyllenhaal é uma das garotas de programa de coração de ouro, cujo filho fica com a avó que, claro, não aprova o estilo de vida da filha. Maggie e Franco são produtores da série. O destaque vai para Margarita Levieva, como Abby, que, aos poucos, vai deixando a faculdade para ingressar no bas-fond da Big Apple. Olhe aí:

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

2982 - ESTRELAS ALÉM DO TEMPO

  
Jim Parsons (ou Sheldon?), Taraji e Costner
   ESTRELAS ALÉM DO TEMPO (HIDDEN FIGURES, USA 2016) – O filme do diretor Theodore Melfi é simpático, embora não muito criativo, e procura jogar luzes em duas categorias de preconceito que pareciam, então, no início da década de 60, nos Estados Unidos, insuperáveis: o sexismo e o racismo. Um grupo de mulheres negras é recrutado pela NASA, em função da sua capacidade de fazer cálculos que ajudariam no programa espacial. Sua função é importantíssima, mas são discriminadas no salário, no acesso às instalações e no trato diário. As três protagonistas, Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson, a Carter, de PERSON OF INTEREST), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) tiveram que transpor distâncias imensas para prosseguir na carreira que haviam feito por merecer, mas é Katherine que foi parar no centro da ação, devido à sua notável criatividade matemática: é ela que ajuda, efetivamente, o astronauta John Glenn a voltar de um voo orbital, ao fazer os cálculos que permitiram a reentrada da sua cápsula. Kevin Costner está num simpático papel de chefe da equipe, e Jim Parsons repete Sheldon como um engenheiro arrogante que passa todo o filme humilhando Katherine. Este é o terceiro filme de Kevin Costner sobre a administração de John Kennedy. Ele estava em JFK: A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR (1991) e TREZE DIAS QUE ABALARAM O MUNDO (2000). Em tempo: o título em inglês é um primor de duplo sentido. Em português, perdeu toda a força do original.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

2981 - DUETS: VEM CANTAR COMIGO

 
Paul Giamatti e André Braugher
   
DUETS: VEM CANTAR COMIGO (DUETS, USA, 2000) – Este é um filme despretencioso sobre um modismo curioso – o karaokê - que resiste bravamente ao tempo. A história é simpática e o elenco idem, a começar pelo talentoso Paul Giamatti que, além de ter uma atuação visceral, na pele de um executivo que sofre com a indiferença da família e do mundo, canta maravilhosamente alguns dos maiores hits do filme, “Try a little tenderness”. Sua conexão em cena com André Braugher (o anjo tutor de A CIDADE DOS ANJOS) é o ponto alto do filme. O diretor Bruce Paltrow, pai de Gwyneth, também no filme, vai entrelaçando as histórias de várias pessoas, em direção a uma competição de karaokê, num bar em Omaha, local em que os personagens parecem descobrir seus próprios segredos e traumas. Fica evidente que o ato de cantar diante de uma plateia simboliza a forma que eles encontraram de se libertar do passado e ter alguma perspectiva futura. Huey Lewis faz um inesquecível dueto com Gwyneth, na romântica “CRUISING”. 

domingo, 12 de novembro de 2017

2980 - OS INTOCÁVEIS

Connery - Oscar para o ator, não para o personagem
     OS INTOCÁVEIS (THE UNTOUCHABLES, USA 1987) – O filme ainda é um razoável exercício de cinema, ao mostrar a luta de Eliott Ness (vivido com visceralidade impressionante por Kevin Costner) para prender o mafioso Al Capone (Robert De Niro, implacável), com a ajuda de um grupo de notáveis: Malone (Sean Connery, soberbo, embora com um personagem meio improvável numa Chicago tão violenta), Stone Andy Garcia (numa atuação minimalista e precisa) e Wallace (Charles Martin Smith, num papel-chave). Os diálogos são tensos e, ao mesmo tempo, engraçados, temperando a realidade dura daqueles tempos em que a metralhadora falava mais alto, em qualquer situação. Depois de tanto tempo, no entanto, algumas cenas famosas apresentam algumas falhas – fica evidente que, por exemplo, na sequência do carrinho de bebê, na escadaria da estação de trem, Brian De Palma se perde na edição, travando o clímax, ao fragmentar a ação num ritmo vacilante. Destarte, o clima dramático se dilui quando o diretor pesa a mão em clichês incompatíveis com a proposta cinematográfica, como fica evidente na tipificação engessada dos bandidos e na santificação farsesca dos homens da lei. Eis um filme cuja fama se sobressai à sua verdadeira qualidade como cinema.   

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

2979 - A EXPERIÊNCIA

Sim, este é o alienígena....
      A EXPERIÊNCIA (SPECIES, USA 1995) – Ficção científica “trash” toda vida, sobre uma alienígena gostosa (Natasha Henstridge) que foge do cativeiro imposto por um grupo de cientistas, para acasalar com um humano e deixar um herdeiro. O roteiro é fraquíssimo e os efeitos especiais idem. No fundo, a história serve apenas para que Natasha Henstridge exiba suas formas perfeitas que, de fato, não são deste mundo. Mistura de ALIENS (claro, né?) e O PREDADOR, o filme até que diverte, principalmente pela premissa sexista (a opção pelo “alien” feminino se deve ao fato de, segundo os cientistas, as mulheres serem mais dóceis e controláveis) e pelo total desperdício de um elenco famoso: Ben Kingsley, Alfred Molina, Michael Madsen e o excepcional Forest Whitaker. Acabou ficando com uma justificada aura “cult”, apesar da sequência final óbvia e previsível, sem falar que também foi tecnicamente muito malfeita.  

terça-feira, 7 de novembro de 2017

2978 - VIDA DE CACHORRO (1918)

.       VIDA DE CACHORRO (A DOG’S LIFE, USA 1918) Neste curta metragem, Chaplin explora temas que seriam mais aprofundados em seus filmes futuros: a solidariedade, o drama social, a pobreza, a crítica ao capitalismo e as relações de afetos surgidas de acontecimentos inesperados. Foi o caso aqui: ele salva um cachorro do ataque de outros cães e, a partir daí, o animal passa a dar sentido à sua vida de vagabundo solitário, sempre fugindo da polícia – aliás, a presença dos agentes da lei é constante nos seus filmes. Neste clássico, Chaplin já usava o cenário como um personagem extra e importante na narrativa. Atenção para a cena em que ele faz as mãos de um ladrão bêbado conversando com o comparsa. É genial.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

2977 - O SOLISTA

Foxx e Downey Jr, junto com o instrumento
       O SOLISTA (THE SOLOIST, USA 2009) O SOLISTA é um filme sobre a amizade, e histórias com este tema devem ser valorizadas, especialmente hoje em dia, quando a competição exagerada e a vaidade doentia vão tomando conta dos espaços nos quais a verdadeira amizade pode surgir e ser cultivada. O personagem que dá nome ao filme - e cuja história real, contada pelo jornalista Lopez (Robert Downey Jr) em sua coluna no jornal Los Angeles Times, serve de base a O Solista - surge dias depois, tocando violino aos pés de uma estátua de Ludwig van Beethoven. Nathaniel Anthony Ayers Jr. (Jamie Foxx) mora na rua, mas já foi aluno da prestigiada escola de arte Julliard. Quem descobre isso é Lopez, e logo toda a cidade descobre Nathaniel também. O quadro de esquizofrenia que Nathaniel apresenta é abordado de forma quase didática, e o diretor Joe Wright procura fazer um paralelo entre a vida do músico de rua com a do jornalista que vive seu ofício de forma romântica, totalmente na contramão dos dias áridos da pós-modernidade. A intenção é boa, apesar de pouco original, mas, a meu ver, vale qualquer coisa para que a amizade volte a ser um “trending topic” num momento tão hostil como este que vivemos. 

domingo, 5 de novembro de 2017

2976 - AMOR SEM FRONTEIRAS

Owen e Angelina
AMOR SEM FRONTEIRAS (BEYOND BORDERS, USA 2003) – Clive Owen é sempre obrigatório. Na época, ainda pouco conhecido nos EUA, ele divide o protagonismo como Angelina Jolie numa fábula épica sobre o trabalho humanitário nas regiões mais pobres e conflagradas do planeta. Ela é uma socialite que acaba se apaixonando por um médico (Owen) e se junta a ele nos esforços de salvação em países devastados pela guerra. É uma pena que o foco do roteiro mude, depois da primeira metade do filme, para se concentrar no romance, pois o retrato deste tipo de tragédia social, com impressionante riqueza de detalhes, vinha sendo, até então, tão primoroso quanto assustador. Utilizando a miséria alheia como pano de fundo para um romancezinho barato, Amor Sem Fronteiras desperdiça a chance de se tornar um projeto relevante, para, somente,  mostrar o belo rosto de Angelina perpassado pela tristeza. Em alguns momentos, o filme parece disposto a discutir temas importantes, como a dificuldade em se levar ajuda a países cujos sistemas de governo desagradam aos Estados Unidos e os dilemas éticos vividos pelos voluntários das ONGs, que devem se abster de qualquer envolvimento com a política local (por mais revoltante que esta seja) para que não haja um comprometimento de seus trabalhos assistenciais – mas não mantém a proposta e a seriedade dá lugar a uma história de amor deslocada e, cá para nós, evidentemente improvável. Foi por casa deste filme que Angelina se engajou em causas similares desde então. 






2975 - REDE DE MENTIRAS

Crowe e DiCaprio
    REDE DE MENTIRAS (BODY OF LIES, USA 2008) – Ridley Scott põe Leonardo DiCaprio como um agente de campo da CIA no Oriente Médio e Russel Crowe no papel de seu chefe, confortavelmente instalado no seu escritório em Langley. O roteiro mostra como essas missões podem ser justificadas pelas premissas falsas, justificando o título do filme, e confirmando as complexas relações que constroem este thriller político, com a maestria costumeira de Scott. O ritmo da ação não é tão intenso como em outros filmes do diretor, mas a atuação de Leonardo DiCaprio é suficiente para prender a atenção até uma resolução que dá um tranco na credibilidade, o que também não chega a comprometer.  




sexta-feira, 3 de novembro de 2017

2974 - MARCAS DA VIOLÊNCIA

 
Viggo Mortensen enfrentando a violência
   MARCAS DA VIOLÊNCIA (A HISTORY OF VIOLENCE, USA 2005) – Depois de dar cabo de dois marginais que entraram na sua lanchonete, Tom Stall (Viggo Mortensen) vira herói na cidadezinha onde vive com a esposa (Maria Bello) e dois filhos. Agastado com a súbita notoriedade, ele tenta se esquivar dos holofotes que colocam como celebridade em rede nacional. Até que, um dia, um homem misterioso (Ed Harris) o procura, dizendo que Tom não é quem ele alega ser. A direção de David Cronenberg transforma este filme curto (1h36min) num belo ensaio sobre personagens que tentam o tempo todo negar um passado que assombra o presente. Destaque para Viggo Mortensen, que agarra o personagem com vigor e imenso talento. Maria Bello mostra que poderia ter tido uma carreira mais exitosa, se tivesse tido mais papéis como este. William Hurt e Ed Harris são competentes, como de costume, mas o filme é, definitivamente, de Viggo Mortensen. A violência da história fica diluída na complexidade dos subtemas da trama, especialmente nos conflitos da família de Tom, depois da chegada do homem misterioso de Harris. Compacto, objetivo, instigante, MARCAS DA VIOLÊNCIA é um dos melhores filme do início do século.  

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

2973 - CITIZENFOUR

Snowden, itimorato
    CITIZENFOUR (USA, 2014) – Aproveitando o fato de ter visto SNOWDEN, revi CITIZENFOUR, numa interessante conexão entre a ficção baseada na realidade e o documentário em si, com o personagem-título (Edward Snowden) refazendo o que Joseph Gordon-Levitt acabara de apresentar – para mim, pelo menos. Vencedor do Oscar 2015 de Melhor Documentário, CITIZENFOUR é mais impactante do que SNOWDEN, exatamente por trazer o arrepio real que as conversas entre Snowden, Laura Poitras (diretora) e Glenn Greenwalf provocaram, em função das denúncias de como os EUA e outras potências violam princípios fundamentais da democracia e do direito, abalando relações diplomáticas e mudando a maneira como os cidadãos enxergam seus governos. A tensão da semana histórica vivida em Hong Kong perpassa um filme cujo roteiro todos gostaríamos de que fosse mesmo de ficção. Mas é mesmo a realidade pós-moderna que tritura, sem complacência, aquilo que, um dia, conhecemos por privacidade.




quarta-feira, 1 de novembro de 2017

2972 - SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR

   
O que é a verdade?
 
SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR (SNOWDEN, USA 2016) - Talvez porque, mesmo tendo revelado o aparato de vigilância em massa que espionou estrangeiros e americanos, Edward Snowden, ex-analista da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA), está mais para vilão em sua terra natal. Foi um dos personagens de uma das maiores crises do governo Obama e colocou uma pulga atrás da orelha de todo mundo que resolveu se conectar neste início de milênio. Delimitando a narrativa entre os eventos da vida de Snowden entre 2003 e 2013, Oliver Stone mostra como o franzino aspirante a soldado se tornou o dedo-duro. O roteiro conta como ele revelou ao mundo o esquema ultrassecreto de cibervigilância em massa, tendo como pano de fundo a reação dos EUA aos ataques de 11 de setembro. O filme de tem o mérito de mostrar o conflito ético de Snowden, quando as atribuições da NSA passaram do front do terrorismo para um Big Brother global, e acirrar as discussões sobre a confiabilidade da proteção de dados num mundo interconectado. Joseph Gordon-Levitt faz um Snowden com competência, dando veracidade à sutileza e até à inocência de um homem acusado de traição de segredo de Estado. É uma boa oportunidade para se discutir o papel da verdade num mundo repleto das pós-verdades que constroem as tiranias atuais.




terça-feira, 31 de outubro de 2017

2971 - O GAROTO (1921)

  
Gênio

    O GAROTO (THE KID, USA, 1921) – Depois de abandonar seu filho recém-nascido numa limusine – na esperança de que ele pudesse ser criado por uma família rica – o carro é roubado por dois ladrões. Quando se dão conta de que havia um bebê no banco de trás, eles o deixam perto de um monte de lixo, onde é encontrado pelo vagabundo vivido magistralmente por Chaplin. É a partir desta premissa que o filme vai construindo uma atmosfera perfeitamente balanceada entre comédia e drama. A história já foi interpretada como uma alegoria cristã, mas, agora, revendo a obra, percebo que Chaplin possa ter querido fazer uma abordagem crítica do tema, ao exagerar a dramaticidade em algumas sequências. Tanto que, conceitos como generosidade e arrependimento, posse e não posse, querer e não querer perpassam toda a história, a partir do momento em que a mãe rejeita o filho, para, depois querê-lo de volta. De todo modo, é impressionante como uma obra-prima como esta pôde ser realizada há quase cem anos, numa plataforma que requer o trabalho de vários profissionais, por apenas uma pessoa. É impressionante como Chaplin consegue colocar tantos aspectos subliminares, tanto “pathos” e tanta hilaridade em um tempo relativamente curto. Isso sem falar na sensível abordagem dos problemas sociais relacionados com a pobreza, situação vivida pelo próprio Chaplin na sua infância, na Inglaterra.                 
  
        


domingo, 29 de outubro de 2017

2970 - DESTINOS CRUZADOS

   
Ford e Kristin Thomas, emocionantes
   
DESTINOS CRUZADOS (RANDOM HEARTS, USA 1999) Definitivamente, este é uma das melhores atuações dramáticas de Harrison Ford, que divide o protagonismo como a bela e talentosa Kristin Scott Thomas, uma atriz subestimada pelo cinema – ela deveria ter tido muito mais oportunidades com papéis que fizessem jus ao seu imenso talento. Na história, os dois descobrem que seus conjugues, mortos num acidente de avião, os estavam traindo um com o outro. Dutch (Ford) não se conforma e tenta de todas as maneiras traçar a história da mulher com o amante; enquanto Kay (Thomas), uma congressista buscando a reeleição, fica um pouco mais hesitante, pois escândalo como esse poderia ter efeitos negativos nas urnas. As magníficas imagens da capital americana e a belíssima trilha sonora de Dave Grusin tornam o filme dirigido por Sidney Pollack (também no elenco) ainda mais interessante. É curioso constatar como as secretárias eletrônicas têm um papel preponderante na trama, numa época em que os celulares ainda tinham o uso muito restrito. O excelente Richard Jenkins aparece num papel pequeno, mas consegue mostrar seu imenso talento mesmo assim. Uma curiosidade: é o único filme em que Ford aparece de brinco, acessório que ele ostenta na vida real.  
          












sábado, 28 de outubro de 2017

2969 - POLTERGEIST, O FENÔMENO

  
Poltergeist: terror sem palhaçada
  POLTERGEIST, O FENÔMENO (POLTERGEIST, USA 1982) – Steven Spielberg e Tobe Hooper (de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, 1974) dirigiram este que talvez seja um dos melhores filmes de terror já feitos: uma família tem sua casa visitada por fantasmas, aterrorizando o casal e os três filhos, até raptar a filha mais nova. Sequências memoráveis, com efeitos especiais mecânicos e altamente eficientes, num “timing” perfeito, fazem deste filme um paradigma do gênero. A grande sacada de Poltergeist, título que faz alusão às forças sobrenaturais que circundam o drama da família Freeling, está no seu desenvolvimento, na qualidade técnica e nas boas escolhas de elenco. Apesar de apresentar um terror bem resolvido, o filme traz boas estratégias presentes no suspense e cenas cômicas que não destoam do restante do longa. Há, subjacente, uma crítica aos efeitos da televisão (coisa comum nos debates inteligentinhos da época): Como é que os espíritos penetravam na casa e tomaram conta da menininha? Através do eletrodoméstico mais valorizado no século XX, a televisão. Os espíritos surgem, não aterrorizando, mas seduzindo, como num dos inúmeros programas de televisão. A beleza construída pelos espíritos para seduzir esconde o horror, como a televisão normalmente o faz: a beleza construída pelo meio é para seduzir, sim, mas também é para esconder o grande horror das mazelas sociais da vida dos telespectadores. Tirando esta abordagem mais intelectual, o fato é que POLTERGEIST ainda funciona como veículo de terror eficiente e que atende as expectativas de um filme deste gênero: assusta sem pedir licença.      







quinta-feira, 26 de outubro de 2017

2968 - NA MIRA DO CHEFE

  
Farrell e Gleeson, sensacionais
    NA MIRA DO CHEFE (IN BRUGES, UK, USA, 2008) – Brendan Gleeson e Colin Farrell são dois assassinos enviados a Bruges, na Bélgica, por seu chefe, o misterioso Harry, nesta comédia de humor negro. Gleeson e Farrell fazem personagens diferentes nas suas naturezas: enquanto o primeiro é bonachão, achando tudo belo na nova cidade, o segundo mal consegue disfarçar sua insatisfação de estar num lugar que me nada o encanta. Há uma diferença marcante de ritmo entre a primeira e a segunda parte, que tem tudo a ver com a evolução do roteiro deste filme inesperadamente divertido e original. É uma história contemplativa, com diálogos absurdamente engraçados, niilista na sua concepção, mas marcado com sub tons de ironia que prendem a atenção até o fim. 

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

2967 - O BENFEITOR

Gere, magnético
    O BENFEITOR (THE BENEFACTOR, USA 2015) – Produção de evidente baixo orçamento protagonizada por Richard Gere, que faz um milionário que, consumido pela culpa de um acidente no passado, faz tudo para compensar a filha recém-casada. O filme se perde no seu objetivo: fica-se sem saber se a intenção era o drama revisionista ou um olhar sobre as reminiscências que povoam a terceira idade. De fato, estes filmes “pequenos” parecem, muitas vezes, não ter como competir com determinadas séries muito mais elaboradas em termos de roteiro e que prendem a atenção do público. Neste caso, embora Gere esteja competente, como sempre, sua história não atinge o coração do espectador, como deveria ser o esperado. Assim como no emocionante TIME OUT OF MIND (2014), Gere esbanja um timing dramático que imediatamente capta o sentimento solidário de quem o vê. Destarte, ele é o único motivo de se chegar aos créditos finais.   

terça-feira, 24 de outubro de 2017

2966 - A GAROTA DO ADEUS

Mason e Dreyfuss
    A GAROTA DO ADEUS (THE GOODBYE GIRL, USA 1977) – Richard Dreyfuss ganhou o Oscar de Melhor Ator por este papel nesta comédia que, depois de tantos anos, perdeu seu viço. Se, na época, a história de uma bailarina desempregada (Marsha Mason), com uma filha de 10 anos, sublocando um quarto no seu apartamento para um ator iniciante (Dreyfuss) tinha algum charme, agora, ela soa muito datada, com situações que a sociedade passou a ver com muito mais naturalidade, sem as estranhezas características dos anos 70. Dreyfuss realmente está de corpo e alma ao personagem que, fisicamente, tem muito a ver com o Matt Hoper, o oceanógrafo de TUBARÃO (1974). 

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

2965 - BLADE RUNNER: O CAÇADOR DE ANDROIDES

   
A cena definitiva...
   BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDROIDES (BLADE RUNNER, USA 1982) – Mistura de ficção do século XXI com os filmes noir de detetive dos anos 40, o filme de Ridley Scott resultou numa visão de uma distopia ácida que, mesmo depois de tantos anos, ainda impressiona pelas questões existenciais que levanta. O espetacular desenho de produção mostra a visão de Scott para uma Los Angeles em 2019 (daqui a dois anos!!!), sombria e iluminada por neon, com ruas superpovoadas sobre as quais cai uma chuva ácida contínua e se transformou num paradigma para filmes do gênero desde então. Repleto de simbolismo, BLADE RUNNER gerou muito debate sobre religião, clonagem, ética, poluição, eugenia, relações sociais etc. A versão do diretor tem cenas adicionais, deixou de fora a narração em off de Ford e o final feliz imposto pelo estúdio. Rever a cena em que Roy (Rutger Hauer) acaricia uma pomba e diz a famosa fala (inventada por ele próprio), ainda é de um impacto enorme: “E todos estes momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva...”. Obra-prima, um dos pontos mais altos do cinema de ficção científica. 

domingo, 22 de outubro de 2017

2964 - ASSASSINO A PREÇO FIXO

Statham a preço fixo
ASSASSINO A PREÇO FIXO (THE MECHANIC, USA 2011) – Nada de novo no roteiro: THE MECHANIC é apenas um veículo para que Jason Statham dê vazão ao personagem que ele repete com prazer e também com razoável eficiência – o matador profissional, frio, safo, inabalável diante de qualquer perigo. O fato é que Statham é mesmo um ator para este tipo de papel, que não requer qualquer pilar dramático para que tudo funcione de maneira mediana, mas a contento do público a que se destina. Ele fez o mesmo em ADRENALINA e em CARGA EXPLOSIVA. Portanto, se é um genérico de James Bond ou não, o que importa é que Statham vai levando sua carreira sem maiores cobranças e entregando um produto não muito sofisticado, mas com um nicho comercial garantido na indústria do cinema contemporâneo. 

2963 - A PENÚLTIMA DONZELA

Mossy e Djenane Machado
      A PENÚLTIMA DONZELA (BRASIL, 1969) – Típico exemplar dos filmes “jovens” que pululavam no cenário do cinema nacional, no fim dos anos 60, A PENÚLTIMA DONZELA traz os elementos que refletiam os roteiros de tantos outros filmes da época: os preconceitos sexuais em discussão em plena classe média carioca da zona sul, rapazes que só queriam transar e meninas “liberadas” fazendo um discurso progressista em relação aos costumes, um painel que reúne aspectos difusos da comédia erótica, sem ir a fundo (sem trocadilho) na discussão sobre um tema batidíssimo: o choque de gerações. No elenco, Carlo Mossy (dublado por Reginaldo Faria!), Adriana Prieto e Paulo Porto. 

sábado, 21 de outubro de 2017

2962 - IT WAS FIFTY YEARS AGO TODAY! THE BEATLES: SGT. PEPPER & BEYOND

     
 IT WAS FIFTY YEARS AGO TODAY! THE BEATLES: SGT. PEPPER & BEYOND (UK, 2017) – Documentário sobre o álbum lançado há 50 anos, com entrevistas da época e algumas atuais, mas que, curiosamente, não traz uma música sequer do SGT. PEPPER. De qualquer forma, o material é bem interessante, com um enfoque no papel inicial de Brian Epstein na formação da banda, até a sua morte súbita, enquanto os Beatles estavam viajando com o Maharish. Ainda há uma parte sobre o começo e fim da empresa APPLE. Está abaixo do filme de Ron Howard, mas ainda é um “must-see” para os fãs do quarteto. 

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

2961 - DEXTER - TEMPORADA OITO

 
Dexter - o personagem foi maior que a série
      DEXTER – TEMPORADA 8 (DEXTER, SEASON 8, USA 2013) – A última temporada de Dexter ficou bem abaixo das expectativas, como já indicavam as anteriores. De fato, a série teve seu ponto mais alto no quarto ano, quando Dexter enfrentou Trinity, seu inimigo mais terrível. Os roteiristas resolveram fechar o arco dramático da história inserindo uma neuropsiquiatra, Dra. Vogel (Charlotte Rampling), que explicaria a origem do código que norteava nosso amado serial killer, o que, a meu ver, “matou” a história, pois, assim como a Força de STAR WARS, há elementos que não devem ser explicados, sob pena de elidir a mágica. Sim, no início, Dexter encantava pelo inusitado das suas motivações, algo que não era definido (apesar do Código), mas que aceitávamos tacitamente, como parte imanente de um personagem tão fascinante. Os episódios desta temporada foram irregulares, sendo que nenhum merece destaque, a não ser o último, negativamente. Quando ainda restava em nós algum laivo de esperança de que a série, pelo menos no seu “series finale”, recuperasse um pouco da força que se dissipou nos últimos anos, o que se viu foi um episódio apressado, com várias pontas soltas e com situações não apenas pouco críveis, mas beirando o absurdo. É compreensível que se tenha expectativas muito altas em relação a uma série que começou de forma tão sensacional, mas nada justifica um aparente descaso com um desfecho que poderia ter sido a redenção dramática que todos esperavam. Talvez, os roteiristas (sempre eles!) tivessem a seguinte mensagem em mente: sobreviver àqueles que ama poderia ser o maior castigo para Dexter, se é que ele precisava mesmo ser castigado. Ou seria ele incapaz de acabar com a própria vida, mesmo depois de ter tirado tantas outras? Ou seja, ao sobreviver, ele talvez tenha se autopunido da pior forma possível. Num mergulho mais psicanalítico, será que alguém quis passar uma nota sutil ao chamar o furacão que assola Miami de Laura, e no qual Dexter busca um fim/retorno/salvação com o mesmo nome da sua mãe (Laura Moser)? O fato é que a série alcançou seu pináculo na quarta temporada, e foi exatamente isso que a enfraqueceu nas seguintes. A melhor coisa que pode acontecer com uma série é terminar no auge, como aconteceu com a FAMÍLIA SOPRANO – DEXTER teve uma sobrevida meio desenxabida, como um corpo que resiste apenas com ajuda de aparelhos. De qualquer forma, Michael C. Hall foi simplesmente perfeito na composição de um personagem extremamente difícil – afinal, fazer de um psicopata o personagem central da trama e torná-lo simpático ao público é um desafio e tanto que Hall venceu com brilhantismo. Talvez um episódio extra pudesse mostrá-lo matando os maiores vilões das últimas temporadas: os roteiristas.


  






quinta-feira, 19 de outubro de 2017

2960 - ANIMAIS NOTURNOS

Amy Adams, num ensaio sobre a beleza e a feiura represada
      ANIMAIS NOTURNOS (NOCTURNAL ANIMALS, USA 2016) – Tom Ford, além de diretor, é designer e magnata da moda. Tal currículo o faz ter um apreço exacerbado pela estética, quase como uma obsessão que, contida, emerge, aqui e ali, quando menos se espera. É assim que ele apresenta ANIMAIS NOTURNOS: como um desfile de sentimentos e impressões que, a cada mudança de roupa/cena/personagem, explode no cultivo do belo, do simétrico, do “clean” total, do perfeito, do rarefeito. É exatamente aí que ele joga com uma certa ambiguidade – na beleza aparentemente equilibrada da vida da galerista Susan Morrow (Amy Adams, excelente), escondem-se feiuras que o tempo tratou de reprimir. Quando recebe um livro escrito pelo ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal) e começa a lê-lo, Susan vai percorrendo um caminho que a deixou anestesiada pela culpa. Os tons narrativos vão se superpondo, como tecidos diáfanos sob a roupagem principal. Gosto, sobretudo, de filmes que têm livros como elementos da história. E é através da leitura de Susan que os fantasmas, dela e de Edward, reaparecem dando novo significado à história interrompida de suas vidas. É um filme que se equilibra entre a abordagem cerebral e o açulamento das emoções represadas pela culpa e a vingança. O espetacular Michael Shannon aparece como um policial cujo oblíquo código moral dá ao roteiro – e aos personagens - uma válvula de escape inesperada.