domingo, 14 de janeiro de 2018

3018 - VINGANÇA

1.    
Cage: este cabelo não lhe faz favor algum
  
VINGANÇA (VENGEANCE, A LOVE STORY, USA 2017) – Sou um fã “die-hard” de Nick Cage. Sei que ele tem feito uma série de filmes ruins ultimamente (à exceção do intenso JOE, de 2013), mas sempre tenho a esperança de que ele vai nos surpreender. Achei que isso ia acontecer com este filme, mas não. O roteiro é ruim e sem qualquer laivo de originalidade – um policial veterano da Guerra do Golfo se vinga dos estupradores de uma mãe solteira. Mais ou menos o que Charles Bronson fazia na série DESEJO DE MATAR, há 40 anos. Tecnicamente, o filme peca numa edição lamentável – cenas longas demais que em nada ajudam a suportar a mão pesada do diretor Johnny Martin. Destarte, continuamos a esperar que Cage volte a ter bons papéis. E isso é possível (vide JOE). Quem sabe Tarantino o recupere em algum de seus filmes inesperados? 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

3017 - O SUSPEITO DA RUA ARLINGTON

    
Hope Davis e Jeff Bridges
1.     SUSPEITO DA RUA ARLINGTON (ARLINGTON ROAD, USA 1999) – A primeira cena é impactante e dá o tom deste ótimo filme: o professor de História, Michael Faraday (Jeff Bridges, colossal) socorre uma criança com a mão estraçalhada que vaga por uma rua deserta.  Apenas três anos antes do 11 de setembro, este thriller mostra a paranoia do terrorismo doméstico nos Estados Unidos. Michael, já traumatizado com a morte da mulher, uma agente do FBI, encasqueta que seu vizinho (Tim Robbins, todo misterioso mesmo) é um terrorista e, a partir daí, tenta de todas as formas provar suas suspeitas. Jeff Bridges mostra, mais uma vez, que é um ator que redimensiona seus personagens a um nível eletrizante, levando-nos junto com seu “drive” emocional. É como se ele estivesse fazendo o último papel da sua vida – é só lembrar de CORAÇÃO LOUCO (2009), HELL OR HIGH WATER (2016), STARMAN (1984), que se pode sentir o ímpeto visceral que ele mostra em cena. Neste filme, ele vai incorporando a obsessão pela verdade escondida nos desdobramentos da história, até ao máximo paroxismo. Destaque, no elenco, para a bela Hope Davis e Joan Cusack.  



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

3016 - O TÚNEL

Jung-Soo, preso no túnel
1    O TÚNEL (TEO-NEOL, Coreia do Sul, 2016) – Jung-Soo dirige tranquilo na estrada quase vazia e sua única preocupação é chegar a tempo para a festa de aniversário da filha. Eis o cenário perfeito para anteceder uma grande tragédia, ou quase isso: o túnel recém-inaugurado que ele atravessava em seu carro (belo merchandising da KIA) literalmente desaba sobre ele. Sem nenhum ferimento grave, mas confinado por toneladas de escombros, imprensado entre as ferragens do carro e atordoado, Jung-Soo ainda não percebeu a gravidade da situação. Pelo celular (Samsung, claro), descobre que as equipes de resgate não têm a menor ideia de que ponto do túnel ele está preso. A espera de socorro pode levar dias, talvez semanas, sem garantia alguma. É aí que o excepcional cinema sul-coreano produz mais um exemplar da sua vitalidade e imensa criatividade: do contraste entre a solidão enlouquecedora do protagonista no interior do túnel e a confusão de autoridades, policiais e jornalistas, emerge uma crítica ácida ao governo, que só quer faturar politicamente com o incidente, e à espetacularização que a mídia promove em situações como esta.  

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

3015 - STAR WARS - OS ÚLTIMOS JEDI

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Daqui para frente, tudo poderia ter sido diferente...
STAR WARS – OS ÚLTIMOS JEDI (STAR WARS: THE LAST JEDI, USA, 2017) – Depois da emoção incontida e coletiva provocada pela última cena de O DESPERTAR DA FORÇA, quando Rey (Daisy Ridley) se vê finalmente diante de Luke (Mark Hammil), numa cena visceralmente surpreendente, que conseguiu unir o universo (em todos os sentidos) do ciclo canônico iniciado nos anos 70 com a proposta de um novo panteão de personagens e a oxigenação da trama que parecia ter se perdido nos três filmes intermediários, era de se esperar que o diretor Rian Johnson aproveitasse a chance de realizar um grande filme que, pelo menos, se ombreasse com a obra-prima de J.J. Abrams. Só que não aproveitou. A emoção, pura, pulsante, perfeita, estava pronta para fisgar tanto o espectador comum quanto o o fã mais radical, mas Johnson resolveu ir por um caminho diferente e, nem por isso, melhor. Num didatismo meio forçado, submete o público a uma avalanche de minúcias, numa abordagem explicativa que põe sempre em risco a magia de uma história que nunca precisou explicar, por exemplo, o que era Força. A Força é a Força, pronto! Não é para ser explicada, entendeu? Ao detalhá-la, Johnson se assemelha a um time de futebol que, de tanto se defender, acaba fazendo um gol contra. Sim, ele é um diretor medroso e, indesculpavelmente, destituído de talento e sensibilidade, ao não valorizar a ingente expectativa que o filme anterior gerou. Ele demora a fazer a movimentação dos personagens, exagera nas longas sequências dedicadas a subtramas desimportantes e desperdiça imaturamente um capital emocional cultivado ao longo de décadas (e isso não se compra num supermercado) para, por exemplo, esvaziar a pungência de algumas cenas – Carrie Fisher merecia muito mais, convenhamos. Ao revisitar personagens pivotais, como Yoda, na constrangedora cena com Luke, o diretor compromete não só a história que tinha em mãos, mas também fere de morte as referências afetivas que se construíram em torno destas figuras. Os CGIs continuam excelentes, porém parecem apenas servir como camadas diversionistas para um miolo insatisfatório. Talvez esta sensação se esvaia com o tempo, e o filme passe a ter um significado mais próximo à enorme expectativa que o filme VII estabeleceu. Agora, além do niilismo temático, fica-nos o abismo gnóstico de tudo aquilo que poderia ter sido e não foi. Johnson teve a chance de resumir, na mesma narrativa, todos os “motifs” que o universo de STAR WARS foi acumulando ao longo de tantos anos. Ele preferiu, despudoradamente, expor ao público a cicatriz que sua falta de talento produziu. Isso causou, entre outros aspectos, um predicamento incontornável – até Rey (Daisy Ridley, ainda ótima, mas sem ser a atriz catalisadora do primeiro filme) não consegue reencontrar o Luke que vivia no inconsciente coletivo de todos que optaram, um dia, pela Força, sem precisar entendê-la “in totum”. Um diretor despreparado como Johnson, ao tirar o filme VIII dos trilhos que J. J. Abrams havia habilmente preparado em O DESPERTAR DA FORÇA, inviabiliza, por inépcia, os axiomas que sustentam e legitimam a expectativa natural de três gerações, tal como a busca de uma motivação que apenas existe, inquestionavelmente, e permanece em função da magia do cinema, ao perpetuar a arte de contar uma história. Mesmo que este relato tenha lá seus defeitos. Afinal, mesmo um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes por dia. Perdeu-se, portanto, a chance de uma abordagem mais hamletiana, na qual a devastadora consciência dos personagens (Luke? Rey?) determinasse, por si só, que a história que todos nós amamos caminhasse descalça pelo arame farpado do clichê e do acanhamento artístico, corajosamente, naturalmente, no presente, no passado e no futuro, em uma galáxia muito, muito distante, com imperfeições, certamente, mas todas elas pertencentes à saga e não a um diretor claramente limitado. Algo digno de STAR WARS, enfim. Como todos esperavam... 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

3014 - VIDA

     
Sem comentários...
 
VIDA (LIFE, USA, 2017) – Espécie de mistura de GRAVIDADE com ALIEN, VIDA traz uma tripulação de uma estação espacial que cede ao fascínio de sua descoberta estupenda: uma célula solitária marciana que sobreviveu a um resgate de uma sonda que trazia amostras colhidas no planeta vermelho. Mas o filme do diretor sueco Daniel Espinosa tem um roteiro ruim, que leva os personagens a tomarem decisões improváveis para uma equipe cuja missão é explorar o espaço dentro de parâmetros de segurança aceitáveis. PROMETEUS e ALIEN - CONVENANCE têm, aqui, um competidor à altura, em termos de precariedade de roteiro. Os diálogos, repletos de clichês, chegam a ser constrangedores de tão pedestres. Além disso, as cenas, não raro, insultam qualquer inteligência mediana. Por exemplo: pegar no espaço uma sonda desgovernada, vindo em sua direção, com um braço mecânico, como se fosse uma bola de beisebol, sem qualquer alteração geoestacionária da estação, pelo menos, parece um pouco improvável. Ou seja, em cinco minutos, a ciência é jogada, inapelavelmente, pela primeira escotilha disponível. Isso sem falar num “alien” chamado Calvin (  !  )... acho que vou correndo rever PERDIDO EM MARTE e INTERESTELAR.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

3013 - BLACK MIRROR - TEMPORADA 1

1. 
Uma nova visão da tecnologia (Nova...???)
BLACK MIRROR - TEMPORADA 1 - (BLACK MIRROR, UK, 2011) – Onde eu estava que ainda não tinha assistido a esta excepcional produção britânica repleta de criatividade e temas instigantes? A torrente de boas séries na TV tem este efeito colateral: o dia ainda tem apenas 24 horas, e não dá tempo para acompanhar tudo ao mesmo tempo (que é mais um motivo para a nossa cota de estresse pós-moderno). Quando começamos a ver, sobrevém aquela conhecida sensação de que já devíamos ter começado e que o indesculpável adiamento só faz aumentar a culpa por não ter priorizado este que é, certamente, um dos melhores programas no ar atualmente, juntamente com STRANGER THINGS, que comentarei oportunamente. BLACK MIRROR não é realidade alternativa – é realidade extrema. É uma série em formato de antologia: cada episódio é uma história completa, com seu próprio elenco e seu próprio universo. Todos eles, porém, têm em comum algo fundamental: passam-se em um futuro próximo que é uma versão acentuada, ou extrema, do nosso presente. Charlie Brooker, o insanamente criativo responsável por esta iguaria, é particularmente interessado com a obsessão com informação, conectividade, compartilhamento, renúncia à privacidade, exposição da intimidade alheia e todas as incalculáveis implicações da incorporação da tecnologia à vida pessoal em tão alto grau e, quase sempre, de forma deletéria. A questão nodal dos roteiros reflete o fato de que a tecnologia pode evoluir e melhorar a sua vida, mas a natureza do homem não muda e, em boa medida, seus defeitos e fraquezas podem inclusive ser amplificados de forma exponencial por ela. BLACK MIRROR é quase sempre é comparada a Twilight Zone, a clássica antologia de ficção científica criada por Rod Serling entre 1959 e 1964. Mas há um elemento disruptivo importante entre elas: Serling era um arauto brilhante que dava um tratamento admoestativo aos seus episódios. Já Charlie Brooker aborda suas histórias sempre com o tom de um participante da cultura sobre a qual ele está especulando; ele não é um forasteiro que, de fora, alerta sobre os perigos de um estilo de vida perpassado por uma obsessão patológica pela tecnologia, mas sim alguém que, de dentro, pergunta-se se seria possível corrigir sua rota. É recorrente no DNA de BM o fato de a mesma escolha se imponha aos protagonistas: ceder ao fluxo viciante da onda tecnológica ou, de alguma forma, tentar resistir. De certa forma, a sensação final é sempre a mesma: a percepção de que o esvaziamento existencial é inevitável, assim como a destruição lenta, gradual e irreversível das relações interpessoais. A partir daí, BM se transforma, em certos momentos, numa discussão “hobbesiana” sobre os efeitos insalubres das implicações pervertidas da tecnologia na nossa vida cotidiana. É o que mostra o primeiro episódio desta temporada de estreia: o Primeiro-Ministro britânico se vê obrigado a aceitar a obscena e doentia exigência do sequestrador da princesinha da nação, por causa, principalmente da reverberação política e pessoal que tal ato está tendo nas redes sociais e no Youtube. No segundo, numa sociedade em que o indivíduo tem que pedalar para conseguir créditos que compram pequenos prazeres e necessidades pessoais (como alimentar-se, por exemplo), um programa de TV, ao estilo de THE VOICE, transforma a iniciativa crítica de um espectador solitário em ferramenta para sua própria perpetuação. No terceiro, um chip implantado na cabeça das pessoas permite que passem suas lembranças numa tela, para que todos possam ver e nenhum segredo sobreviva a este extermínio da privacidade. Tudo junto e misturado, BM é coisa de gênio. A propósito, BLACK MIRROR se refere ao efeito de uma tela de TV ou de computador quando desligada, deixando um reflexo obscurecido de quem está diante dela. Tudo a ver, Maurício.  



3012 - UM HOMEM CHAMADO OVE

1. 
Lassgard, comovente...
  UM HOMEM CHAMADO OVE (EM MAN SOM HETER OVE, SUÉCIA, 2015) – Ove (Rolf Lassgard) é um sujeito irascível, capaz de reclamar da própria sombra. Não pequeno descuido ou desleixo alheios que ele seja capaz de perdoar e que não o faça estrilar seja com quem for. Aos 59 anos, viúvo e desempregado, ele decide que já se fartou de tanta incompetência – o melhor é se matar e ir ao encontro da esposa, cuja túmulo ele visita todos os dias. Síndico do pequeno condomínio onde mora, ele vê as pequenas necessidades de seus vizinhos interromperem seus rituais suicidas: Ove não resiste a resolver um problema. É um tema clássico, mas conduzido com leveza e sensibilidade pela direção imaginativa de Hannes Holm, que interlaça “flashbacks” encantadores e esclarecedores do comportamento atual de Ove. É um belo filme, transbordante de emoção e delicadezas. Klennex à mão, por favor. 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

3011 - SOB O DOMÍNIO DO MAL

Denzel, ótimo, sempre
SOB O DOMÍNIO DO MAL (THE MANCHURIAN CANDIDATE, USA, 2006) – Refilmagem do clássico de 1962, de John Frankenheimer, com Denzel Washington no papel que fora de Frank Sinatra. Assombrado por pesadelos recorrentes, o major Ben Marco (Denzel) passa seus dias exaltando publicamente as qualidades de Raymond Shaw (Liev Schreiber), um jovem congressista nova-iorquino que foi seu subalterno no Golfo. Shaw é candidato à vice-presidência dos Estados Unidos e dono de uma medalha de honra pelos feitos heroicos no oriente. No entanto, depois de um perturbador encontro com outro membro de seu pelotão, o major começa a duvidar da própria sanidade e acredita que alguma coisa aconteceu durante o conflito. Daí em diante, forma-se um contexto para se pôr em prática o assassinato do candidato à presidência dos EUA, o que levaria Shaw a encabeçar a chapa. Um dos mitos que giram em torno do filme de 1962 diz respeito a sua retirada dos cinemas e seu subsequente “desaparecimento” midiático após o assassinato de John F. Kennedy, em novembro de 1963. Muitos acreditam que o filme tenha de alguma forma inspirado o crime, e que Lee Harvey Oswald, suposto assassino de JFK, a exemplo do protagonista do filme de Frankenheimer, tenha sido “condicionado” ou passado por algum tipo de lavagem cerebral. A existência de uma relação entre o assassinato do presidente e os acontecimentos do filme provavelmente nunca será comprovada, mas a associação do longa-metragem à tragédia de 1963 faz com que a obra ganhe contornos ainda mais perturbadores e sombrios. O roteiro desta refilmagem ainda envolve uma abordagem niilista do Complexo de Édipo, ao colocar Shaw e sua mãe, uma senadora poderosíssima (Maryl Streep, longe de sua melhor atuação) numa relação feita de poder e desejo, embora não se aprofunde neste aspecto. É um ótimo thriller político que tenta jogar luzes sobre até aonde os governos podem ir para manter o poder. E, claro, Denzel Washington é obrigatório.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

3010 -0 O FILHO DA NOIVA

1. 
Alterio, Norma Aleandro e Darín, notáveis...
 
O FILHO DA NOIVA (EL HIJO DE LA NOVIA, ARGENTINA, 2001) – Para manter uma tradição que começou ano passado, quando, no primeiro dia do ano, assisti ao excelente TRUMAN, com Ricardo Darín, inicio 2018 revisitando O FILHO DA NOIVA, de 2001, um belo melodrama sobre o desalento que tomava conta da Argentina naquela época. E, em se falando de tradição, não custa repetir: Ricardo Darín é obrigatório. Aqui, ele é Rafael, um quarentão estressadíssimo que tenta manter funcionando o restaurante herdado dos pais (estupendamente interpretados por Héctor Alterio e Norma Aleandro, protagonistas, em 1984, do marcante A HISTÓRIA OFICIAL), enquanto finge para si mesmo que tem uma vida. Não dá a atenção devida à filha e à namorada e foge da mãe, internada com Alzheimer, para não ter que se confrontar com os traumas que sua relação com ela produziu. Rafael também dorme pouco e fuma muito, o que o torna candidatíssimo a um infarto. Quando este sobrevém, os dias passados numa UTI o convencem de que algo tem que mudar. É a partir daí, que o diretor Juan José Campanella vai construindo uma bela e emocionante história em que os personagens podem ser interpretados como alegorias da desilusão e do sofrimento do povo argentino, que tanto acreditavam que seu país daria certo, finalmente. Darín, como sempre, está irretocável – é o patrimônio maior da cultura dos portenhos. Destaque também para Eduardo Blanco e Natalia Verbeke. Perceba a clara referência ao Zorro interpretado por Guy Williams, enorme sucesso na Argentina. Atenção para uma das mais belas declarações de amor do cinema, com Darín, feita através de um interfone. 



quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

3009 - STRANGER THINGS - TEMPORADA 1

   
The kids rock!!!!
  STRANGER THINGS (USA, 2016) – Para quem atravessou os anos 70 e 80, ST é o paraíso dos “easter eggs”: as referências aos panorama pop das duas décadas pululam em todas as cenas desta série que, como todo bom trabalho de roteiro, começa meio morna, mas vai tomando corpo à medida em que as histórias vão se entrelaçando e apontando para outras vertentes. Os irmãos Matt e Ross Duffer conseguiram ir além de uma recriação retrô, construindo uma história que vai fascinando não só pelas referências do passado recente, mas também pelas possibilidade que se vislumbram no futuro dos personagens que certamente já vimos em filmes de John Carpenter, Spielberg, John Hughes ou nas adaptações de Stephen King. Estamos, portanto, num mundo diferente do que se conhece hoje: sem celular ou internet, a vida parecia mais simples, havia tempo para as crianças brincarem juntas no porão, a quase desnecessidade de competir e se exibir dava espaço para o surgimento das amizades profundas da infância o ritmo menos acelerado permitia uma contemplação que, hoje, seria percebida, no mínimo, com preocupante estranhamento. O elemento sobrenatural que desponta na história sublinha o impacto das recordações dos filmes de Spielberg e dá um excelente pano de fundo para um elenco espectacular, a começar pela turma infantil, perfeitamente integrada à trama. É neste grupo que se destaca Millie Bobby Brown, uma baita atriz, pronta, intensa, cuja expressividade, isso sim, parece ser de outro mundo. Na parte adulta, Winona Ryder é a atriz mais fraca. Ela leva um baile na cenas com o excelente David Harbour, o xerife da cidadezinha que, meio indiferente a princípio, vai se lançando como uma locomotiva desgovernada no sentido de desvendar os mistérios da trama. Assistir aos oito episódios desta primeira temporada é como ver um filme longo que, em nenhum momento, cansa ou nos faz perder o interesse. A coisa mais estranha seria não cair de cabeça na segunda temporada.  

sábado, 23 de dezembro de 2017

3008 - FILHOS DO SILÊNCIO

Hunt e Matlin, uma amor além das palavras
FILHOS DO SILÊNCIO (CHILDREN OF A LESSER GOD, USA 1986) – FILHOS DO SILÊNCIO  é uma belíssima história de amor que vai além das palavras: um professor de surdos, James Leeds (William Hurt) se apaixona pela zeladora deficiente auditiva, Sarah Norman (Marlee Matlin), da escola em que trabalha. Nesta história, o sentimento é tão simples e o conflito tão plausível, que nos sentimos menos vendo um filme, mas sim acompanhando dois amigos através de seu processo de descoberta do amor. Toda cena é como uma fotografia capturando a essência de cada momento do processo de aproximação entre James e Sarah. Ah, e há os olhos de Marlee, impressionantemente expressivos, muito além de qualquer palavra. Em certos momentos, é como se estivéssemos vendo uma pintura em movimento, como se Vermeer ou Michelangelo estivessem a cargo da direção. O filme é uma poderosa mensagem de amor incondicional, aceitação mútua e crescimento pessoal, em que a diretora Randa Haines documenta, meticulosamente, os esforços necessários para a realização de um verdadeiro relacionamento amoroso. Há cenas memoráveis. Numa delas, Sarah, na borda da piscina, apenas observa James, quando ele vem procurá-la – é inacreditável o que seus olhos dizem. Em outra cena linda, James, que adora Bach, diz a Sarah que não consegue mais apreciar a música, pelo fato de ela não poder. Numa sequência emocionante, depois de uma breve separação, James mergulha na piscina, como se quisesse reencontrar Sarah no silencioso mundo submerso e líquido. Também impressionante é a atuação de Hurt, praticamente minimalista, permitindo que seus silêncios sejam tão eloquentes quanto o de Sarah. Não é de se admirar que os dois atores tenham se aproximado romanticamente durante as gravações. Está clara em cena a alta voltagem entre os dois. Marlee recebeu justamente o Oscar por esta atuação. Infelizmente, ela nunca mais teve a oportunidade de ter outros papéis à altura de seu imenso talento. 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

3007 - A TENTAÇÃO

Charlie Hunnam e Liv Tyler

.       A TENTAÇÃO (THE LEDGE, USA, 2011) – Thriller mais filosófico do que psicológico que lida com um tema pouco visitado pelo cinema: o embate entre o fundamentalismo cristão e o ateísmo. O roteiro é simples, em princípio: Shana (Liv Tyler) trai o marido Joe (Patrick Wilson), um religioso fervoroso, com o ateu Gavin (Charlie Hunnam). Ao descobrir o caso da mulher, o marido traído dá a Gavin uma escolha mórbida: ou ele pula do alto de um prédio, ou Shana morre. A partir daí, o filme foge aos clichês ao explorar nuanças da vida, da ética, da religião que não são facilmente classificadas. De certa forma, o cena final pode dar a impressão de que houve uma tendência para a desqualificação da posição ateísta, mas, no todo, o filme enseja a discussão de vários aspectos no cotejo entre as duas posições antagônicas. Há abordagem sobre a natureza da fé, o homossexualismo sob a ótica do cristianismo, os laços conjugais utilitários, as relações de poder no ambiente de trabalho. É um daqueles filmes que são mais complexos e interessantes do que parecem à primeira vista.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

3006 - OS MACHÕES

Os três em ação
       OS MACHÕES (BRASIL, 1972) – Apesar de ter Reginaldo Faria como o galã protagonista, além de diretor, quem realmente se destaca nesta pornochanchada meio atípica é mesmo Erasmo Carlos, cuja atuação ganhou o prêmio da APCA, de Melhor Ator Coadjuvante. O terceiro elemento é Flávio Migliaccio, também excelente com um personagem meio “clown” que ele mesmo, em sua carreira, erigiu como sua “grife” pessoal. O roteiro é direto: os três amigos passam a vida armando esquemas para ganhar dinheiro e conquistar mulheres facilmente, mas poucas vezes tem sucesso nas empreitadas. Até que, um dia, pensam no plano perfeito: os três tornam-se cabeleireiros gays para poderem se infiltrar com maior facilidade na intimidade das mulheres. Narrativamente, o filme se equivoca ao apresentar histórias paralelas com os três amigos, deixando um pouco de lado o que realmente funciona: os três, juntos em cena. É desta forma que a história alcança seus melhores momentos. Como era natural na época, o roteiro apresenta situações homofóbicas e a total reificação da mulher diante de uma sociedade predominantemente machista. Estes dois aspectos são cruciais para o entendimento do panorama cultural da época. A canção-tema foi mais um dos tiros certeiros de Roberto e Erasmo: “Mundo Cão” descreve com fidelidade o ambiente da trama e a motivação de seus personagens principais. É mesmo curioso constatar que Erasmo poderia facilmente ter seguido uma carreira de ator, por causa da sua naturalidade ao entregar as falas e ao seu “timing” cênico. Se tivesse trabalhado este talento bruto, ele certamente teria tido enorme sucesso no cinema nacional.  

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

3005 - LOGAN

Hugh Jackman, o Wolverine perfeito
      LOGAN (LOGAN, USA, 2016) – A primeira impressão, logo no começo do filme, é que Logan (Hugh Jackman) aderiu ao Uber para ganhar a vida, pois, sabemos, não está fácil para ninguém. De fato, Logan está alquebrado, cabelo e barba cheios de fios brancos, respiração ofegante. Em nada se parece com o Wolverine das sete edições anteriores do personagem no cinema. É assim, entre a aceitação e a relutância de aceitar a própria decrepitude, que Logan mergulha no longo e doloroso processo de reencontrar o homem que há dentro dele. Neste caldeirão de sofrimentos, ele ainda tem que cuidar do Professor Xavier (o grandíssimo Patrick Stewart, numa atuação de cortar o coração de tão sofrida e dramática) e de Laura, de 11 anos, cujos esqueleto e lâminas de Adamantium deixam Logan confuso e perplexo com a perspectiva de descobrir uma paternidade que, ao mesmo tempo, o repugna e o consome. O roteiro apresenta referências a dois filmes que refletem a mesma temática. A primeira, OS BRUTOS TAMBÉM AMAM (1953), é mais explícita; a segunda, OS IMPERDOÁVEIS (1992), de Clint Eastwood, é mais implícita, porém igualmente impactante: é a história de um matador que sai da aposentadoria tão angustiado quanto Wolverine diante de seu último trabalho. O filme de Eastwood emula os desafios que Logan tem que enfrentar: os limites da velhice, a desilusão com os próprios feitos e a sofrida constatação de que ainda há algo importante, ainda que indefinido, por fazer e que todo mundo, mesmo os super-heróis, envelhecem.  

3004 - PAZ, AMOR E MUITO MAIS

   
Jeffrey Dean Morgan em plena cantada
 
PAZ, AMOR E MUITO MAIS (PEACE, LOVE & MISUNDERSTANDING, USA, 2011) - O filme mostra a reinvenção de Diane (Catherine Keener), uma advogada conservadora na faixa dos 40 anos que é pega de surpresa pelo pedido de divórcio do marido. Ela decide retomar o contato com a mãe, Grace (Jane Fonda), que não vê há mais de 20 anos e leva os filhos adolescentes para passar um fim de semana na casa da avó, uma autêntica riponga tardia que ainda vive seguindo os preceitos de Woodstock. Entre um conflito de geração e outro, Diane acaba se interessando por um músico, Jude (Jeffrey Dean Morgan) que, esbanjando doçura e simpatia, nem de longe, aqui, nos faz lembrar do Negan, de THE WALKING DEAD. O filme é simpático, sem ousar abordar uma temática muito aprofundada, e mesmo com a estereotipagem dos personagens, permite uma hora e meia de divertimento e leveza. Jane Fonda, mesmo com algum excesso de botox, ainda é uma atração, principalmente para quem a viu em Barbarella. 

3003 - CRIME NA MADRUGADA

    
Não é Denzel
  CRIME NA MADRUGADA (SLEEPLESS, USA 2017) – Feito com todos os clichês possíveis dos filmes deste gênero, SLEEPLESS, ao contrário do título, é um convite ao sono imediato. É lamentável ver um ator como Jamie Foxx metido numa furada dessas. O roteiro é fraco, os diálogos são muito ruins, tudo é previsível e sem graça. É o tipo de filme que a gente vai esperando pouco e acaba recebendo ainda menos. Flébil tentativa de Hollywood de refilmar NUIT BLANCHE (PURA ADRENALINA, França, 2011), que é muito melhor. Se Foxx continuar com escolhas tão ruins, nunca vai ser um novo Denzel Washington. 


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

3002 - A LUZ ENTRE OCEANOS

Vikander e Fassbender, numa situação delicada
      A LUZ ENTRE OCEANOS (THE LIGHT BETWEEN THE OCEANS, USA, 2016) – Preparem os lenços! Logo após a Primeira Grande Guerra, Tom e Isabel, casados, (Michael Fassbender e Alicia Vikander – que também são casados na vida real), vão morar numa ilha minúscula, na qual ele é responsável pelo funcionamento do farol. Ela perde dois bebês, até que, um dia, aparece um bote, com um homem já morto e um bebê. Contra a vontade de Tom, Isabel decide que vão criá-lo, sem notificar as autoridades. Anos depois, aparece a mãe verdadeira da criança, e o drama se instala na vida de todos os personagens, todos com suas razões irretocáveis em relação ao acontecido. A bela fotografia, juntamente com a boa atuação dos protagonistas, ajuda a amenizar o peso do drama que se estende até ali, quase no exagero da exploração das emoções humanas em relação à maternidade. As questões morais e éticas são colocadas de maneira clara e direta, oportunizando uma excelente oportunidade para uma reflexão sobre como e quando se deve fazer a coisa certa. Ficamos, não raro, sem saber se o certo é o melhor ou vive versa. É notável a atuação de Michael Fassbender, trazendo mais uma das suas performances cheias de sutilezas, que quase eliminam a necessidade de diálogos, assim como a de Alicia Vikander, que finalmente teve a oportunidade de mostrar alguma musculatura dramática. O argumento lembra muitas das novelas de Manoel Carlos.   

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

3001 - ROGUE ONE

 
Diego Luna, Felicity Jones e K-2SO
    ROGUE ONE (USA, 2016) – A concepção inicial de Rogue One - Uma História Star Wars nasceu a partir de um detalhe presente no clássico STAR WARS, de 1977: logo no letreiros iniciais, ficamos sabendo que os planos da Estrela da Morte tinham sido roubados pela Rogue One, possibilitando que a Aliança Rebelde tivesse uma nova esperança. Quem eram eles, nenhum dos filmes lançados respondeu E é isso que descobrimos nesta viagem .Vendo pela segunda vez, agora com mais atenção, percebo que ROGUE ONE ainda em um ritmo dissonante com a série principal: a carga dramática, ainda mais acentuada nesta edição, tem momentos de certa artificialidade que acabam comprometendo a história certinha demais, como se não pudesse se afastar das referências que já conhecemos de A NEW HOPE. Os CGIs que emulam de maneira muito insatisfatórias os personagens de Peter Cushing e de Carrie Fisher quebram imediatamente o clima, já que a nossa atenção é logo desviada para a checagem do resultado final na tela. O destaque é o sempre competente Mads Mikkelsen, como Galen Erso, pai de Jyn Erso (Felicity Jones) e da Estrela da Morte, cujos planos de construção serão roubados pelos rebeldes. A sensação que fica é que o filme poderia ter sido mais impactante, em termos de roteiro. Por outro lado, os efeitos são excepcionais e estonteantes em algumas cenas.   

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

3000 - BELEZA OCULTA

    BELEZA OCULTA (COLLATERAL BEAUTY, USA, 2016) – Estrelado por Will Smith, que esteve na Comic Con em São Paulo, neste último final de semana, BELEZA OCULTA é um drama feito para emocionar, mas por pouco não se perde na armadilha da pieguice resultante da soma de assuntos emocionalmente delicados: amor, tempo e morte. São para estas abstrações que Howard (Will Smith, em boa atuação) escreve três cartas, nas quais questiona as razões para o sofrimento que o mantém recluso e infenso a qualquer contato com o mundo: a morte de sua filha de seis anos. É claro que qualquer filme que trate de cartas me interessa sobremaneira, fui seguindo os passos do roteiro até o entrecho final e me surpreendi com uma solução bem interessante, em que amor, tempo e morte se conectam sensivelmente, unindo e resignificando as vidas dos personagens, além de nos reservar uma supresa que tira o filme da rota da lágrima fácil. Destaque, no elenco, para Keira Knightley e Michael Peña. E, claro, para Nova Iorque enfeitada para o Natal, que é sempre uma forma de voltar ao passado. O filme toca todas aquelas sensibilidades que ficam mais à flor da pele: solidão, rejeição, culpa, amor, cumplicidade, desejo de proteger, entre outras. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

2999 - LIGA DA JUSTIÇA

  
A liga, sem muita força
    LIGA DA JUSTIÇA  (JUSTICE LEAGUE, USA, 2017) – Mais uma vez, vou contra a maré. Assim como aconteceu em MULHER-MARAVILHA, que achei um filme chocho, pretensioso e sem alma, LIGA DA JUSTIÇA também não retiniu com meu metal. Tudo – ou quase tudo - joga contra: Ben Affleck, como Batman, é o que se sabe, a Mulher-Maravilha repete a presença desenxabida do filme solo e, a partir daí, as coisas começam a se agudizar. Um Aquaman heavy-metal cético, um The Flash medroso, um Super-Homem com ares de Jesus Cristo ressusscitado, um Ciborgue claudicante nas suas intenções e um vilão estereotipado todo em CGI são a pá de cal na proposta de Joss Whedon, catapultado para a  função de diretor por causa da saída prematura de Zach Snyder, cuja filha cometeu suicídio durante as filmagens. Muito se fala do equilíbrio deste filme em relação aos outros da DC, mas isso não se constitui em grande vantagem, já que MULHER-MARAVILHA, BATMAN vs SUPERMAN são, no mínimo, sofríveis.  

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

2998 - THE LAND UNKNOWN (1957)

 
A modernidade e a pré-história
   THE LAND UNKNOWN (USA, 1957) – Este clássico da ficção científica ficou esquecido injustamente no extenso rol de produções similares que pulularam na década de 50. Uma expedição composta de três homens e uma mulher cai em uma cratera na Antártica, depois que o helicóptero em que viajavam tem uma pane. Lá, encontram um mundo pré-histórico selvagem e hostil, habitado por plantas carnívoras gigantes e dinossauros. Com os cortes no orçamento, o filme passou a ser uma daquelas produções B, em preto e branco e cenários mais acanhados. Mas, mesmo assim, o filme acaba funcionando. Os efeitos especiais são bastante decentes, e o roteiro não perde tempo com elementos não essenciais. Há, de fato, uma atmosfera sedutora nesta aventura, especialmente para quem gosta de filmes sobre mundos perdidos, como é o meu caso. THE LAND UNKNOWN, em muitos aspectos, é muito mais agradável de ver do que algumas produções recentes de Hollywood, na quais os CGIs, de tão mal feitos, comprometem a apreciação e o mergulho no “suspension of disbelief”. 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

2997 - ASSASSINO A PREÇO FIXO, A RESSURREIÇÃO

Statham e Jessica Alba com cara de inteligentes
 ASSASSINO A PREÇO FIXO 2 – A RESSURREIÇÃO (MECHANIC: RESURRECTION, USA 2016) – Se o primeiro filme já não era lá essas coisas, este aqui é o fim da linha de uma franquia que não se sustentava por vários motivos. Um deles é a total fata de originalidade do roteiro: assassino-aposentado-vivendo-longe-da-civilização-é-convocado-para-um-último-trabalho-e-se-apaixona-pela-mocinha. Jason Statham sempre contou com minha simpatia. Em seus filmes ele não quer ir além do seu papel unidimensional, sem pretensões dramáticas. Mas, aqui, ele está bem abaixo do seu normal, que já é medíocre. Jessica Alba, a mocinha, de fato, não sabe atuar. É surpreendente ver Tommy Lee Jones num filme como este, pois a história e seu personagem não estão à altura de seu talento. Para piorar, os CGIs são ruins de chorar. As locações exóticas – a começar pelo bondinho do Pão do Açúcar – em nada contribuem para este desperdício de tempo e dinheiro. Além disso, o apêndice do título – A RESSURREIÇÃO – é a prova de que não se poderia mesmo esperar muito desta produção canhestra, cujo binarismo moral insulta a inteligência do espectador mais atento.  

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

2996 - SHOULDER'S ARMS (1918)

Chaplin de árvore: hilário
       SHOULDER’S ARMS (USA, 1918) – Mais um obra-prima de Chaplin. Na primeira Grande Guerra. Aqui, ele é um soldado na trincheira que sonha em ser um herói. Há cenas marcantes: Chaplin disfarçado de árvore é uma delas; outra é quando, no fim do filme, aparece caracterizado de oficial alemão, exatamente como Hitler o faria, dez anos depois. Só um artista excepcional como ele poderia fazer humor com os horrores da Primeira Guerra, com um estupendo trabalho de câmera e com sequências criativas e inesperadas. Pode ter sido considerado uma propaganda para os EUA, mas o tempo se encarregou de mostrar que, antes de tudo, é mesmo mais um trabalho magistral de um gênio do cinema, que deve ter sua obra sempre revista. Chaplin sofreu muitas críticas na época por parte dos intelectuais britânicos que afirmavam que o diretor havia fugido do conflito, por não ter se alistado como voluntário a favor do seu país, a Inglaterra. O filme, em certa medida, é uma resposta indireta e bem criativa a este grupo.

sábado, 2 de dezembro de 2017

2995 - VIRANDO A PÁGINA

 
Grant, em aula
     
VIRANDO A PÁGINA (THE REWRITE, USA 2015) – Hugh Grant tem um talento único: faz a si mesmo com perfeição. Em três filmes, o argumento é o mesmo: seu personagem é sempre alguém que fez um grande sucesso e, de repente, se vê diante de um recomeço. Foi assim em ABOUT A BOY, LETRA E MÚSICA e, agora, neste VIRANDO A PÁGINA, ótimo título em português para uma história sobre um roteirista de um grande sucesso em Hollywood e que vai dar aulas de redação em uma universidade. O fato é que Grant, nestes três filmes, consegue repetir os mesmos trejeitos, sem ser cansativo, e mantém uma curiosa e rara conivência com o espectador, seduzindo-o com um olhar melancólico e uma atitude irônica que nos parece agradável e permanentemente familiar. Embora o filme prometa uma comédia leve, VIRANDO A PÁGINA traz elementos reflexivos bem profundos, misturados em cenas aparentemente apenas engraçadas. Grant achou seu caminho dramático ao encarar, sem medo, os limites da idade. Sem reinventar a roda, o filme lança luzes sobre os aspectos fugazes da fama, o valor das relações verdadeiras que florescem sem a selvagem competitividade do mundo pós-moderno, além de ter um novo olhar para o ambiente de uma sala de aula numa daquelas encantadoras universidades americanas. 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

2994 - O SINAL

 
Peretti e Darín
    O SINAL (LA SEÑAL, Argentina, 2007) – Apesar das críticas negativas, esta estreia de Ricardo Darín na direção é bem razoável. Neste “noir” portenho, ele é um detetive particular que divide o escritório com seu sócio (Diego Peretti), sempre às voltas com casos pequenos, mais enfadonhos do que estimulantes. Até que o pedido da mulher-fatal da receita do “noir” (Julieta Diaz, do ótimo O AMOR NÃO TEM TAMANHO), para que ele investigue uma pessoa, o faz redescobrir novos horizontes em sua vida. A fotografia esmaecida é caprichada. A história, contudo, vai perdendo um pouco de força, à medida que se encaminha para o desfecho. Há um aspecto trágico real no filme: o diretor inicial, Eduardo Mignogna, morreu antes de começar o filme – Darín, então, resolveu dirigi-lo. De qualquer forma, convém lembrar de que Ricardo Darín é obrigatório em qualquer circunstância. Por isso, vale a pena conferir.