VINGANÇA
(VENGEANCE, A LOVE STORY, USA 2017) – Sou um fã
“die-hard” de Nick Cage. Sei que ele tem feito uma série de filmes ruins
ultimamente (à exceção do intenso JOE, de 2013), mas sempre tenho a esperança de
que ele vai nos surpreender. Achei que isso ia acontecer com este filme, mas não.
O roteiro é ruim e sem qualquer laivo de originalidade – um policial veterano da
Guerra do Golfo se vinga dos estupradores de uma mãe solteira. Mais ou menos o que
Charles Bronson fazia na série DESEJO DE MATAR, há 40 anos. Tecnicamente, o filme
peca numa edição lamentável – cenas longas demais que em nada ajudam a suportar
a mão pesada do diretor Johnny Martin. Destarte, continuamos a esperar que Cage
volte a ter bons papéis. E isso é possível (vide JOE). Quem sabe Tarantino o recupere
em algum de seus filmes inesperados?
1. SUSPEITO DA RUA ARLINGTON (ARLINGTON ROAD, USA 1999) – A primeira cena é impactante e dá o tom deste ótimo filme: o professor de História, Michael Faraday (Jeff Bridges, colossal) socorre uma criança
com a mão estraçalhada que vaga por uma rua deserta. Apenas três anos antes do 11 de setembro, este
thriller mostra a paranoia do terrorismo doméstico nos Estados Unidos. Michael,
já traumatizado com a morte da mulher, uma agente do FBI, encasqueta que seu vizinho
(Tim Robbins, todo misterioso mesmo) é um terrorista e, a partir daí, tenta de todas
as formas provar suas suspeitas. Jeff Bridges mostra, mais uma vez, que é um ator
que redimensiona seus personagens a um nível eletrizante, levando-nos junto com
seu “drive” emocional. É como se ele estivesse fazendo o último papel da sua vida
– é só lembrar de CORAÇÃO LOUCO (2009), HELL OR HIGH WATER (2016), STARMAN (1984),
que se pode sentir o ímpeto visceral que ele mostra em cena. Neste filme, ele vai
incorporando a obsessão pela verdade escondida nos desdobramentos da história, até
ao máximo paroxismo. Destaque, no elenco, para a bela Hope Davis e Joan Cusack.
1 O TÚNEL (TEO-NEOL, Coreia do Sul, 2016) – Jung-Soo dirige
tranquilo na estrada quase vazia e sua única preocupação é chegar a tempo para a
festa de aniversário da filha. Eis o cenário perfeito para anteceder uma grande
tragédia, ou quase isso: o túnel recém-inaugurado que ele atravessava em seu carro
(belo merchandising da KIA) literalmente desaba sobre ele. Sem nenhum ferimento
grave, mas confinado por toneladas de escombros, imprensado entre as ferragens do
carro e atordoado, Jung-Soo ainda não percebeu a gravidade da situação. Pelo celular
(Samsung, claro), descobre que as equipes de resgate não têm a menor ideia de que
ponto do túnel ele está preso. A espera de socorro pode levar dias, talvez semanas,
sem garantia alguma. É aí que o excepcional cinema sul-coreano produz mais um exemplar
da sua vitalidade e imensa criatividade: do contraste entre a solidão enlouquecedora
do protagonista no interior do túnel e a confusão de autoridades, policiais e jornalistas,
emerge uma crítica ácida ao governo, que só quer faturar politicamente com o incidente,
e à espetacularização que a mídia promove em situações como esta.
Daqui para frente, tudo poderia ter sido diferente...
STAR
WARS – OS ÚLTIMOS JEDI (STAR WARS: THE LAST JEDI, USA, 2017) – Depois
da emoção incontida e coletiva provocada pela última cena de O DESPERTAR DA
FORÇA, quando Rey (Daisy Ridley) se vê finalmente diante de Luke (Mark Hammil),
numa cena visceralmente surpreendente, que conseguiu unir o universo (em todos
os sentidos) do ciclo canônico iniciado nos anos 70 com a proposta de um novo
panteão de personagens e a oxigenação da trama que parecia ter se perdido nos
três filmes intermediários, era de se esperar que o diretor Rian Johnson
aproveitasse a chance de realizar um grande filme que, pelo menos, se ombreasse
com a obra-prima de J.J. Abrams. Só que não aproveitou. A emoção, pura,
pulsante, perfeita, estava pronta para fisgar tanto o espectador comum quanto o
o fã mais radical, mas Johnson resolveu ir por um caminho diferente e, nem por
isso, melhor. Num didatismo meio forçado, submete o público a uma avalanche de
minúcias, numa abordagem explicativa que põe sempre em risco a magia de uma
história que nunca precisou explicar, por exemplo, o que era Força. A Força é a
Força, pronto! Não é para ser explicada, entendeu? Ao detalhá-la, Johnson se
assemelha a um time de futebol que, de tanto se defender, acaba fazendo um gol
contra. Sim, ele é um diretor medroso e, indesculpavelmente, destituído de
talento e sensibilidade, ao não valorizar a ingente expectativa que o filme
anterior gerou. Ele demora a fazer a movimentação dos personagens, exagera nas
longas sequências dedicadas a subtramas desimportantes e desperdiça
imaturamente um capital emocional cultivado ao longo de décadas (e isso não se
compra num supermercado) para, por exemplo, esvaziar a pungência de algumas
cenas – Carrie Fisher merecia muito mais, convenhamos. Ao revisitar personagens
pivotais, como Yoda, na constrangedora cena com Luke, o diretor compromete não
só a história que tinha em mãos, mas também fere de morte as referências
afetivas que se construíram em torno destas figuras. Os CGIs continuam
excelentes, porém parecem apenas servir como camadas diversionistas para um
miolo insatisfatório. Talvez esta sensação se esvaia com o tempo, e o filme
passe a ter um significado mais próximo à enorme expectativa que o filme
VII estabeleceu. Agora, além do niilismo temático, fica-nos o abismo gnóstico de
tudo aquilo que poderia ter sido e não foi. Johnson teve a chance de resumir,
na mesma narrativa, todos os “motifs” que o universo de STAR WARS foi
acumulando ao longo de tantos anos. Ele preferiu, despudoradamente, expor ao
público a cicatriz que sua falta de talento produziu. Isso causou, entre outros
aspectos, um predicamento incontornável – até Rey (Daisy Ridley, ainda ótima,
mas sem ser a atriz catalisadora do primeiro filme) não consegue reencontrar o
Luke que vivia no inconsciente coletivo de todos que optaram, um dia, pela
Força, sem precisar entendê-la “in totum”. Um diretor despreparado como Johnson,
ao tirar o filme VIII dos trilhos que J. J. Abrams havia habilmente preparado
em O DESPERTAR DA FORÇA, inviabiliza, por inépcia, os axiomas que sustentam e legitimam a
expectativa natural de três gerações, tal como a busca de uma motivação que
apenas existe, inquestionavelmente, e permanece em função da magia do cinema, ao perpetuar a arte de
contar uma história. Mesmo que este relato tenha lá seus defeitos. Afinal,
mesmo um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes por dia. Perdeu-se,
portanto, a chance de uma abordagem mais hamletiana, na qual a devastadora
consciência dos personagens (Luke? Rey?) determinasse, por si só, que a história
que todos nós amamos caminhasse descalça pelo arame farpado do clichê e do acanhamento artístico,
corajosamente, naturalmente, no presente, no passado e no futuro, em uma
galáxia muito, muito distante, com imperfeições, certamente, mas todas elas pertencentes à saga e não a um diretor claramente limitado. Algo digno de STAR WARS, enfim. Como todos esperavam...
VIDA
(LIFE, USA, 2017) – Espécie de mistura de GRAVIDADE com ALIEN, VIDA
traz uma tripulação de uma estação espacial que cede ao fascínio de sua
descoberta estupenda: uma célula solitária marciana que sobreviveu a um resgate
de uma sonda que trazia amostras colhidas no planeta vermelho. Mas o filme do
diretor sueco Daniel Espinosa tem um roteiro ruim, que leva os personagens a
tomarem decisões improváveis para uma equipe cuja missão é explorar o espaço
dentro de parâmetros de segurança aceitáveis. PROMETEUS e ALIEN - CONVENANCE
têm, aqui, um competidor à altura, em termos de precariedade de roteiro. Os
diálogos, repletos de clichês, chegam a ser constrangedores de tão pedestres.
Além disso, as cenas, não raro, insultam qualquer inteligência mediana. Por
exemplo: pegar no espaço uma sonda desgovernada, vindo em sua direção, com um braço
mecânico, como se fosse uma bola de beisebol, sem qualquer alteração
geoestacionária da estação, pelo menos, parece um pouco improvável. Ou seja, em
cinco minutos, a ciência é jogada, inapelavelmente, pela primeira escotilha
disponível. Isso sem falar num “alien” chamado Calvin ( ! )... acho
que vou correndo rever PERDIDO EM MARTE e INTERESTELAR.
BLACK
MIRROR - TEMPORADA 1 - (BLACK MIRROR, UK, 2011) – Onde
eu estava que ainda não tinha assistido a esta excepcional produção britânica
repleta de criatividade e temas instigantes? A torrente de boas séries na TV
tem este efeito colateral: o dia ainda tem apenas 24 horas, e não dá tempo para
acompanhar tudo ao mesmo tempo (que é mais um motivo para a nossa cota de
estresse pós-moderno). Quando começamos a ver, sobrevém aquela conhecida
sensação de que já devíamos ter começado e que o indesculpável adiamento só faz
aumentar a culpa por não ter priorizado este que é, certamente, um dos melhores
programas no ar atualmente, juntamente com STRANGER THINGS, que comentarei
oportunamente. BLACK MIRROR não é realidade alternativa – é realidade extrema.
É uma série em formato de antologia: cada episódio é
uma história completa, com seu próprio elenco e seu próprio universo. Todos
eles, porém, têm em comum algo fundamental: passam-se em um futuro próximo que
é uma versão acentuada, ou extrema, do nosso presente. Charlie Brooker, o
insanamente criativo responsável por esta iguaria, é particularmente
interessado com a obsessão com informação, conectividade, compartilhamento,
renúncia à privacidade, exposição da intimidade alheia e todas as incalculáveis
implicações da incorporação da tecnologia à vida pessoal em tão alto grau e, quase
sempre, de forma deletéria. A questão nodal dos roteiros reflete o fato de que
a tecnologia pode evoluir e melhorar a sua vida, mas a natureza do homem não
muda e, em boa medida, seus defeitos e fraquezas podem inclusive ser
amplificados de forma exponencial por ela. BLACK MIRROR é quase sempre é
comparada a Twilight Zone, a clássica antologia
de ficção científica criada por Rod Serling entre 1959 e 1964. Mas há um
elemento disruptivo importante entre elas: Serling era um arauto brilhante que
dava um tratamento admoestativo aos seus episódios. Já Charlie Brooker aborda
suas histórias sempre com o tom de um participante da cultura sobre a qual ele
está especulando; ele não é um forasteiro que, de fora, alerta sobre os perigos
de um estilo de vida perpassado por uma obsessão patológica pela tecnologia,
mas sim alguém que, de dentro, pergunta-se se seria possível corrigir sua rota.
É recorrente no DNA de BM o fato de a mesma escolha se imponha aos
protagonistas: ceder ao fluxo viciante da onda tecnológica ou, de alguma forma,
tentar resistir. De certa forma, a sensação final é sempre a mesma: a percepção
de que o esvaziamento existencial é inevitável, assim como a destruição lenta,
gradual e irreversível das relações interpessoais. A partir daí, BM se
transforma, em certos momentos, numa discussão “hobbesiana” sobre os efeitos insalubres
das implicações pervertidas da tecnologia na nossa vida cotidiana. É o que
mostra o primeiro episódio desta temporada de estreia: o Primeiro-Ministro
britânico se vê obrigado a aceitar a obscena e doentia exigência do
sequestrador da princesinha da nação, por causa, principalmente da reverberação
política e pessoal que tal ato está tendo nas redes sociais e no Youtube. No
segundo, numa sociedade em que o indivíduo tem que pedalar para conseguir
créditos que compram pequenos prazeres e necessidades pessoais (como
alimentar-se, por exemplo), um programa de TV, ao estilo de THE VOICE,
transforma a iniciativa crítica de um espectador solitário em ferramenta para
sua própria perpetuação. No terceiro, um chip implantado na cabeça das pessoas
permite que passem suas lembranças numa tela, para que todos possam ver e
nenhum segredo sobreviva a este extermínio da privacidade. Tudo junto e
misturado, BM é coisa de gênio. A propósito, BLACK MIRROR se refere ao efeito
de uma tela de TV ou de computador quando desligada, deixando um reflexo
obscurecido de quem está diante dela. Tudo a ver, Maurício.
UM HOMEM CHAMADO OVE (EM MAN SOM HETER OVE, SUÉCIA,
2015) – Ove (Rolf Lassgard) é um sujeito irascível, capaz de reclamar
da própria sombra. Não pequeno descuido ou desleixo alheios que ele seja capaz de
perdoar e que não o faça estrilar seja com quem for. Aos 59 anos, viúvo e desempregado,
ele decide que já se fartou de tanta incompetência – o melhor é se matar e ir ao
encontro da esposa, cuja túmulo ele visita todos os dias. Síndico do pequeno condomínio
onde mora, ele vê as pequenas necessidades de seus vizinhos interromperem seus rituais
suicidas: Ove não resiste a resolver um problema. É um tema clássico, mas conduzido
com leveza e sensibilidade pela direção imaginativa de Hannes Holm, que interlaça
“flashbacks” encantadores e esclarecedores do comportamento atual de Ove. É um belo
filme, transbordante de emoção e delicadezas. Klennex à mão, por favor.
SOB O DOMÍNIO DO MAL (THE MANCHURIAN CANDIDATE, USA, 2006) – Refilmagem do clássico de 1962, de John Frankenheimer, com Denzel Washington no papel que fora de Frank Sinatra. Assombrado por pesadelos recorrentes, o major Ben Marco (Denzel) passa seus dias exaltando publicamente as qualidades de Raymond Shaw (Liev Schreiber), um jovem congressista nova-iorquino que foi seu subalterno no Golfo. Shaw é candidato à vice-presidência dos Estados Unidos e dono de uma medalha de honra pelos feitos heroicos no oriente. No entanto, depois de um perturbador encontro com outro membro de seu pelotão, o major começa a duvidar da própria sanidade e acredita que alguma coisa aconteceu durante o conflito. Daí em diante, forma-se um contexto para se pôr em prática o assassinato do candidato à presidência dos EUA, o que levaria Shaw a encabeçar a chapa. Um dos mitos que giram em torno do filme de 1962 diz respeito a sua retirada dos cinemas e seu subsequente “desaparecimento” midiático após o assassinato de John F. Kennedy, em novembro de 1963. Muitos acreditam que o filme tenha de alguma forma inspirado o crime, e que Lee Harvey Oswald, suposto assassino de JFK, a exemplo do protagonista do filme de Frankenheimer, tenha sido “condicionado” ou passado por algum tipo de lavagem cerebral. A existência de uma relação entre o assassinato do presidente e os acontecimentos do filme provavelmente nunca será comprovada, mas a associação do longa-metragem à tragédia de 1963 faz com que a obra ganhe contornos ainda mais perturbadores e sombrios. O roteiro desta refilmagem ainda envolve uma abordagem niilista do Complexo de Édipo, ao colocar Shaw e sua mãe, uma senadora poderosíssima (Maryl Streep, longe de sua melhor atuação) numa relação feita de poder e desejo, embora não se aprofunde neste aspecto. É um ótimo thriller político que tenta jogar luzes sobre até aonde os governos podem ir para manter o poder. E, claro, Denzel Washington é obrigatório.
O FILHO DA NOIVA (EL HIJO DE LA NOVIA,
ARGENTINA, 2001) – Para manter uma tradição que começou ano
passado, quando, no primeiro dia do ano, assisti ao excelente TRUMAN, com Ricardo
Darín, inicio 2018 revisitando O FILHO DA NOIVA, de 2001, um belo melodrama
sobre o desalento que tomava conta da Argentina naquela época. E, em se falando
de tradição, não custa repetir: Ricardo Darín é obrigatório. Aqui, ele é
Rafael, um quarentão estressadíssimo que tenta manter funcionando o restaurante
herdado dos pais (estupendamente interpretados por Héctor Alterio e Norma
Aleandro, protagonistas, em 1984, do marcante A HISTÓRIA OFICIAL), enquanto
finge para si mesmo que tem uma vida. Não dá a atenção devida à filha e à
namorada e foge da mãe, internada com Alzheimer, para não ter que se confrontar
com os traumas que sua relação com ela produziu. Rafael também dorme pouco e
fuma muito, o que o torna candidatíssimo a um infarto. Quando este sobrevém, os
dias passados numa UTI o convencem de que algo tem que mudar. É a partir daí,
que o diretor Juan José Campanella vai construindo uma bela e emocionante
história em que os personagens podem ser interpretados como alegorias da
desilusão e do sofrimento do povo argentino, que tanto acreditavam que seu país
daria certo, finalmente. Darín, como sempre, está irretocável – é o patrimônio
maior da cultura dos portenhos. Destaque também para Eduardo Blanco e Natalia
Verbeke. Perceba a clara referência ao Zorro interpretado por Guy Williams,
enorme sucesso na Argentina. Atenção para uma das mais belas declarações de
amor do cinema, com Darín, feita através de um interfone.
STRANGER THINGS (USA, 2016) – Para quem atravessou os anos 70 e 80, ST é o paraíso dos “easter eggs”:
as referências aos panorama pop das duas décadas pululam em todas as cenas
desta série que, como todo bom trabalho de roteiro, começa meio morna, mas vai
tomando corpo à medida em que as histórias vão se entrelaçando e apontando para
outras vertentes. Os irmãos Matt e Ross Duffer conseguiram ir além de uma
recriação retrô, construindo uma história que vai fascinando não só pelas
referências do passado recente, mas também pelas possibilidade que se
vislumbram no futuro dos personagens que certamente já vimos em filmes de John Carpenter,
Spielberg, John Hughes ou nas adaptações de Stephen King. Estamos, portanto, num
mundo diferente do que se conhece hoje: sem celular ou internet, a vida parecia
mais simples, havia tempo para as crianças brincarem juntas no porão, a quase desnecessidade
de competir e se exibir dava espaço para o surgimento das amizades profundas da
infância o ritmo menos acelerado permitia uma contemplação que, hoje, seria percebida,
no mínimo, com preocupante estranhamento. O elemento sobrenatural que desponta na
história sublinha o impacto das recordações dos filmes de Spielberg e dá um excelente
pano de fundo para um elenco espectacular, a começar pela turma infantil, perfeitamente
integrada à trama. É neste grupo que se destaca Millie Bobby Brown, uma baita atriz,
pronta, intensa, cuja expressividade, isso sim, parece ser de outro mundo. Na parte
adulta, Winona Ryder é a atriz mais fraca. Ela leva um baile na cenas com o excelente
David Harbour, o xerife da cidadezinha que, meio indiferente a princípio, vai se
lançando como uma locomotiva desgovernada no sentido de desvendar os mistérios da
trama. Assistir aos oito episódios desta primeira temporada é como ver um filme
longo que, em nenhum momento, cansa ou nos faz perder o interesse. A coisa mais
estranha seria não cair de cabeça na segunda temporada.
FILHOS DO SILÊNCIO (CHILDREN
OF A LESSER GOD, USA 1986) – FILHOS
DO SILÊNCIO é uma belíssima história de amor que vai além das palavras: um
professor de surdos, James Leeds (William Hurt) se apaixona pela zeladora deficiente
auditiva, Sarah Norman (Marlee Matlin), da escola em que trabalha. Nesta história,
o sentimento é tão simples e o conflito tão plausível, que nos sentimos menos
vendo um filme, mas sim acompanhando dois amigos através de seu processo de
descoberta do amor. Toda cena é como uma fotografia capturando a essência de
cada momento do processo de aproximação entre James e Sarah. Ah, e há os olhos
de Marlee, impressionantemente expressivos, muito além de qualquer palavra. Em
certos momentos, é como se estivéssemos vendo uma pintura em movimento, como se
Vermeer ou Michelangelo estivessem a cargo da direção. O filme é uma poderosa
mensagem de amor incondicional, aceitação mútua e crescimento pessoal, em que a
diretora Randa Haines documenta, meticulosamente, os esforços necessários para
a realização de um verdadeiro relacionamento amoroso. Há cenas memoráveis. Numa
delas, Sarah, na borda da piscina, apenas observa James, quando ele vem
procurá-la – é inacreditável o que seus olhos dizem. Em outra cena linda,
James, que adora Bach, diz a Sarah que não consegue mais apreciar a música,
pelo fato de ela não poder. Numa sequência emocionante, depois de uma breve separação,
James mergulha na piscina, como se quisesse reencontrar Sarah no silencioso mundo
submerso e líquido. Também impressionante é a atuação de Hurt, praticamente
minimalista, permitindo que seus silêncios sejam tão eloquentes quanto o de
Sarah. Não é de se admirar que os dois atores tenham se aproximado romanticamente
durante as gravações. Está clara em cena a alta voltagem entre os dois. Marlee
recebeu justamente o Oscar por esta atuação. Infelizmente, ela nunca mais teve a
oportunidade de ter outros papéis à altura de seu imenso talento.
.A
TENTAÇÃO (THE LEDGE, USA, 2011) – Thriller mais
filosófico do que psicológico que lida com um tema pouco visitado pelo cinema:
o embate entre o fundamentalismo cristão e o ateísmo. O roteiro é simples, em
princípio: Shana (Liv Tyler) trai o marido Joe
(Patrick Wilson), um religioso fervoroso, com o ateu Gavin (Charlie Hunnam). Ao
descobrir o caso da mulher, o marido traído dá a Gavin uma escolha mórbida: ou
ele pula do alto de um prédio, ou Shana morre. A partir daí, o filme foge aos
clichês ao explorar nuanças da vida, da ética, da religião que não são facilmente
classificadas. De certa forma, o cena final pode dar a impressão de que houve uma
tendência para a desqualificação da posição ateísta, mas, no todo, o filme enseja
a discussão de vários aspectos no cotejo entre as duas posições antagônicas. Há
abordagem sobre a natureza da fé, o homossexualismo sob a ótica do cristianismo,
os laços conjugais utilitários, as relações de poder no ambiente de trabalho. É
um daqueles filmes que são mais complexos e interessantes do que parecem à primeira
vista.
OS
MACHÕES (BRASIL, 1972) – Apesar de ter Reginaldo Faria
como o galã protagonista, além de diretor, quem realmente se destaca nesta
pornochanchada meio atípica é mesmo Erasmo Carlos, cuja atuação ganhou o prêmio
da APCA, de Melhor Ator Coadjuvante. O terceiro elemento é Flávio Migliaccio,
também excelente com um personagem meio “clown” que ele mesmo, em sua carreira,
erigiu como sua “grife” pessoal. O roteiro é direto: os três amigos passam a vida armando esquemas para ganhar
dinheiro e conquistar mulheres facilmente, mas poucas vezes tem sucesso
nas empreitadas. Até que, um dia, pensam no plano perfeito: os três tornam-se
cabeleireiros gays para poderem se infiltrar com maior facilidade na intimidade
das mulheres. Narrativamente, o filme se equivoca ao apresentar
histórias paralelas com os três amigos, deixando um pouco de lado o que
realmente funciona: os três, juntos em cena. É desta forma que a história
alcança seus melhores momentos. Como era natural na época, o roteiro apresenta
situações homofóbicas e a total reificação da mulher diante de uma sociedade
predominantemente machista. Estes dois aspectos são cruciais para o
entendimento do panorama cultural da época. A canção-tema foi mais um dos tiros
certeiros de Roberto e Erasmo: “Mundo Cão” descreve com fidelidade o ambiente
da trama e a motivação de seus personagens principais. É mesmo curioso constatar
que Erasmo poderia facilmente ter seguido uma carreira de ator, por causa da sua
naturalidade ao entregar as falas e ao seu “timing” cênico. Se tivesse trabalhado
este talento bruto, ele certamente teria tido enorme sucesso no cinema nacional.
LOGAN
(LOGAN, USA, 2016) – A primeira impressão, logo no começo do filme, é
que Logan (Hugh Jackman) aderiu ao Uber para ganhar a vida, pois, sabemos, não
está fácil para ninguém. De fato, Logan está alquebrado, cabelo e barba cheios
de fios brancos, respiração ofegante. Em nada se parece com o Wolverine das
sete edições anteriores do personagem no cinema. É assim, entre a aceitação e a
relutância de aceitar a própria decrepitude, que Logan mergulha no longo e
doloroso processo de reencontrar o homem que há dentro dele. Neste caldeirão de
sofrimentos, ele ainda tem que cuidar do Professor Xavier (o grandíssimo
Patrick Stewart, numa atuação de cortar o coração de tão sofrida e dramática) e
de Laura, de 11 anos, cujos esqueleto e lâminas de Adamantium deixam Logan
confuso e perplexo com a perspectiva de descobrir uma paternidade que, ao mesmo
tempo, o repugna e o consome. O roteiro apresenta referências a dois filmes que
refletem a mesma temática. A primeira, OS BRUTOS TAMBÉM AMAM (1953), é mais
explícita; a segunda, OS IMPERDOÁVEIS (1992), de Clint Eastwood, é mais
implícita, porém igualmente impactante: é a história de um matador que sai da
aposentadoria tão angustiado quanto Wolverine diante de seu último trabalho. O filme
de Eastwood emula os desafios que Logan tem que enfrentar: os limites da velhice,
a desilusão com os próprios feitos e a sofrida constatação de que ainda há algo
importante, ainda que indefinido, por fazer e que todo mundo, mesmo os super-heróis,
envelhecem.
PAZ, AMOR E MUITO MAIS (PEACE, LOVE & MISUNDERSTANDING, USA, 2011) - O filme mostra a reinvenção de Diane (Catherine Keener), uma advogada conservadora na faixa dos 40 anos que é pega de surpresa pelo pedido de divórcio do marido. Ela decide retomar o contato com a mãe, Grace (Jane Fonda), que não vê há mais de 20 anos e leva os filhos adolescentes para passar um fim de semana na casa da avó, uma autêntica riponga tardia que ainda vive seguindo os preceitos de Woodstock. Entre um conflito de geração e outro, Diane acaba se interessando por um músico, Jude (Jeffrey Dean Morgan) que, esbanjando doçura e simpatia, nem de longe, aqui, nos faz lembrar do Negan, de THE WALKING DEAD. O filme é simpático, sem ousar abordar uma temática muito aprofundada, e mesmo com a estereotipagem dos personagens, permite uma hora e meia de divertimento e leveza. Jane Fonda, mesmo com algum excesso de botox, ainda é uma atração, principalmente para quem a viu em Barbarella.
CRIME
NA MADRUGADA (SLEEPLESS, USA 2017) – Feito com todos os
clichês possíveis dos filmes deste gênero, SLEEPLESS, ao contrário do título, é
um convite ao sono imediato. É lamentável ver um ator como Jamie Foxx metido
numa furada dessas. O roteiro é fraco, os diálogos são muito ruins, tudo é
previsível e sem graça. É o tipo de filme que a gente vai esperando pouco e
acaba recebendo ainda menos. Flébil tentativa de Hollywood de refilmar NUIT
BLANCHE (PURA ADRENALINA, França, 2011), que é muito melhor. Se Foxx continuar com escolhas tão
ruins, nunca vai ser um novo Denzel Washington.
A LUZ ENTRE OCEANOS (THE LIGHT BETWEEN THE
OCEANS, USA, 2016)–
Preparem os lenços! Logo após a Primeira Grande Guerra, Tom e Isabel, casados,
(Michael Fassbender e Alicia Vikander – que também são casados na vida real),
vão morar numa ilha minúscula, na qual ele é responsável pelo funcionamento do
farol. Ela perde dois bebês, até que, um dia, aparece um bote, com um homem já
morto e um bebê. Contra a vontade de Tom, Isabel decide que vão criá-lo, sem
notificar as autoridades. Anos depois, aparece a mãe verdadeira da criança, e o
drama se instala na vida de todos os personagens, todos com suas razões
irretocáveis em relação ao acontecido. A bela fotografia, juntamente com a boa
atuação dos protagonistas, ajuda a amenizar o peso do drama que se estende até
ali, quase no exagero da exploração das emoções humanas em relação à
maternidade. As questões morais e éticas são colocadas de maneira clara e
direta, oportunizando uma excelente oportunidade para uma reflexão sobre como e
quando se deve fazer a coisa certa. Ficamos, não raro, sem saber se o certo é o
melhor ou vive versa. É notável a atuação de Michael Fassbender, trazendo mais uma
das suas performances cheias de sutilezas, que quase eliminam a necessidade de diálogos,
assim como a de Alicia Vikander, que finalmente teve a oportunidade de mostrar alguma
musculatura dramática. O argumento lembra muitas das novelas de Manoel
Carlos.
ROGUE
ONE (USA, 2016) – A concepção inicial de Rogue
One - Uma História Star Wars nasceu a
partir de um detalhe presente no clássico STAR WARS, de 1977: logo no letreiros
iniciais, ficamos sabendo que os planos da Estrela da Morte tinham sido
roubados pela Rogue One, possibilitando que a Aliança Rebelde tivesse uma nova
esperança. Quem eram eles, nenhum dos filmes lançados respondeu E é isso que descobrimos
nesta viagem .Vendo pela segunda vez, agora com mais atenção,
percebo que ROGUE ONE ainda em um ritmo dissonante com a série principal: a
carga dramática, ainda mais acentuada nesta edição, tem momentos de certa
artificialidade que acabam comprometendo a história certinha demais, como se
não pudesse se afastar das referências que já conhecemos de A NEW HOPE. Os CGIs
que emulam de maneira muito insatisfatórias os personagens de Peter Cushing e de
Carrie Fisher quebram imediatamente o clima, já que a nossa atenção é logo desviada
para a checagem do resultado final na tela. O destaque é o sempre competente Mads
Mikkelsen, como Galen Erso, pai de Jyn Erso (Felicity Jones) e da Estrela da Morte,
cujos planos de construção serão roubados pelos rebeldes. A sensação que fica é
que o filme poderia ter sido mais impactante, em termos de roteiro. Por outro lado,
os efeitos são excepcionais e estonteantes em algumas cenas.
BELEZA
OCULTA (COLLATERAL BEAUTY, USA, 2016) – Estrelado
por Will Smith, que esteve na Comic Con em São Paulo, neste último final de
semana, BELEZA OCULTA é um drama feito para emocionar, mas por pouco não se
perde na armadilha da pieguice resultante da soma de assuntos emocionalmente
delicados: amor, tempo e morte. São para estas abstrações que Howard (Will
Smith, em boa atuação) escreve três cartas, nas quais questiona as razões para
o sofrimento que o mantém recluso e infenso a qualquer contato com o mundo: a
morte de sua filha de seis anos. É claro que qualquer filme que trate de cartas
me interessa sobremaneira, fui seguindo os passos do roteiro até o entrecho
final e me surpreendi com uma solução bem interessante, em que amor, tempo e
morte se conectam sensivelmente, unindo e resignificando as vidas dos
personagens, além de nos reservar uma supresa que tira o filme da rota da
lágrima fácil. Destaque, no elenco, para Keira Knightley e Michael Peña. E,
claro, para Nova Iorque enfeitada para o Natal, que é sempre uma forma de
voltar ao passado. O filme toca todas aquelas sensibilidades que ficam mais à flor
da pele: solidão, rejeição, culpa, amor, cumplicidade, desejo de proteger, entre
outras.
LIGA DA JUSTIÇA
(JUSTICE LEAGUE, USA, 2017) –
Mais uma vez, vou contra a maré. Assim como aconteceu em MULHER-MARAVILHA, que
achei um filme chocho, pretensioso e sem alma, LIGA DA JUSTIÇA também não
retiniu com meu metal. Tudo – ou quase tudo - joga contra: Ben Affleck, como
Batman, é o que se sabe, a Mulher-Maravilha repete a presença desenxabida do
filme solo e, a partir daí, as coisas começam a se agudizar. Um Aquaman heavy-metal
cético, um The Flash medroso, um Super-Homem com ares de Jesus Cristo
ressusscitado, um Ciborgue claudicante nas suas intenções e um vilão
estereotipado todo em CGI são a pá de cal na proposta de Joss Whedon, catapultado
para a função de diretor por causa da saída
prematura de Zach Snyder, cuja filha cometeu suicídio durante as filmagens. Muito
se fala do equilíbrio deste filme em relação aos outros da DC, mas isso não se constitui
em grande vantagem, já que MULHER-MARAVILHA, BATMAN vs SUPERMAN são, no mínimo,
sofríveis.
THE
LAND UNKNOWN (USA, 1957) – Este clássico da ficção
científica ficou esquecido injustamente no extenso rol de produções similares
que pulularam na década de 50. Uma expedição composta de três homens e uma
mulher cai em uma cratera na Antártica, depois que o helicóptero em que
viajavam tem uma pane. Lá, encontram um mundo pré-histórico selvagem e hostil, habitado
por plantas carnívoras gigantes e dinossauros. Com os cortes no orçamento, o filme
passou a ser uma daquelas produções B, em preto e branco e cenários mais acanhados.
Mas, mesmo assim, o filme acaba funcionando. Os efeitos especiais são bastante decentes,
e o roteiro não perde tempo com elementos não essenciais. Há, de fato, uma atmosfera
sedutora nesta aventura, especialmente para quem gosta de filmes sobre mundos perdidos,
como é o meu caso. THE LAND UNKNOWN, em muitos aspectos, é muito mais agradável
de ver do que algumas produções recentes de Hollywood, na quais os CGIs, de tão
mal feitos, comprometem a apreciação e o mergulho no “suspension of disbelief”.
ASSASSINO
A PREÇO FIXO 2 – A RESSURREIÇÃO (MECHANIC: RESURRECTION, USA 2016)
– Se o primeiro filme já não era lá essas coisas, este aqui é o fim da linha de
uma franquia que não se sustentava por vários motivos. Um deles é a total fata
de originalidade do roteiro:
assassino-aposentado-vivendo-longe-da-civilização-é-convocado-para-um-último-trabalho-e-se-apaixona-pela-mocinha.
Jason Statham sempre contou com minha simpatia. Em seus filmes ele não quer ir
além do seu papel unidimensional, sem pretensões dramáticas. Mas, aqui, ele está
bem abaixo do seu normal, que já é medíocre. Jessica Alba, a mocinha, de fato, não
sabe atuar. É surpreendente ver Tommy Lee Jones num filme como este, pois a história
e seu personagem não estão à altura de seu talento. Para piorar, os CGIs são ruins
de chorar. As locações exóticas – a começar pelo bondinho do Pão do Açúcar – em
nada contribuem para este desperdício de tempo e dinheiro. Além disso, o apêndice
do título – A RESSURREIÇÃO – é a prova de que não se poderia mesmo esperar muito
desta produção canhestra, cujo binarismo moral insulta a inteligência do espectador
mais atento.
SHOULDER’S
ARMS (USA, 1918) – Mais um obra-prima de Chaplin. Na primeira
Grande Guerra. Aqui, ele é um soldado na trincheira que sonha em ser um herói.
Há cenas marcantes: Chaplin disfarçado de árvore é uma delas; outra é quando,
no fim do filme, aparece caracterizado de oficial alemão, exatamente como
Hitler o faria, dez anos depois. Só um artista excepcional como ele poderia
fazer humor com os horrores da Primeira Guerra, com um estupendo trabalho de
câmera e com sequências criativas e inesperadas. Pode ter sido considerado uma
propaganda para os EUA, mas o tempo se encarregou de mostrar que, antes de
tudo, é mesmo mais um trabalho magistral de um gênio do cinema, que deve ter
sua obra sempre revista. Chaplin sofreu muitas críticas na
época por parte dos intelectuais britânicos que afirmavam que o diretor havia
fugido do conflito, por não ter se alistado como voluntário a favor do seu
país, a Inglaterra. O filme, em certa medida, é uma resposta indireta e bem
criativa a este grupo.
VIRANDO
A PÁGINA (THE REWRITE, USA 2015) – Hugh Grant tem um talento
único: faz a si mesmo com perfeição. Em três filmes, o argumento é o mesmo: seu
personagem é sempre alguém que fez um grande sucesso e, de repente, se vê
diante de um recomeço. Foi assim em ABOUT A BOY, LETRA E MÚSICA e, agora, neste
VIRANDO A PÁGINA, ótimo título em português para uma história sobre um roteirista de um grande
sucesso em Hollywood e que vai dar aulas de redação em uma universidade. O fato
é que Grant, nestes três filmes, consegue repetir os mesmos trejeitos, sem ser
cansativo, e mantém uma curiosa e rara conivência com o espectador, seduzindo-o
com um olhar melancólico e uma atitude irônica que nos parece agradável e
permanentemente familiar. Embora o filme prometa uma comédia leve, VIRANDO A
PÁGINA traz elementos reflexivos bem profundos, misturados em cenas
aparentemente apenas engraçadas. Grant achou seu caminho dramático ao encarar,
sem medo, os limites da idade. Sem reinventar a roda, o filme lança luzes sobre
os aspectos fugazes da fama, o valor das relações verdadeiras que florescem sem
a selvagem competitividade do mundo pós-moderno, além de ter um novo olhar para
o ambiente de uma sala de aula numa daquelas encantadoras universidades
americanas.
O SINAL (LA SEÑAL, Argentina, 2007)– Apesar das críticas negativas, esta estreia de Ricardo
Darín na direção é bem razoável. Neste “noir” portenho, ele é um detetive particular
que divide o escritório com seu sócio (Diego Peretti), sempre às voltas com casos
pequenos, mais enfadonhos do que estimulantes. Até que o pedido da mulher-fatal
da receita do “noir” (Julieta Diaz, do ótimo O AMOR NÃO TEM TAMANHO), para que ele
investigue uma pessoa, o faz redescobrir novos horizontes em sua vida. A fotografia
esmaecida é caprichada. A história, contudo, vai perdendo um pouco de força, à medida
que se encaminha para o desfecho. Há um aspecto trágico real no filme: o diretor
inicial, Eduardo Mignogna, morreu antes de começar o filme – Darín, então, resolveu
dirigi-lo. De qualquer forma, convém lembrar de que Ricardo Darín é obrigatório
em qualquer circunstância. Por isso, vale a pena conferir.