UM HOMEM CHAMADO OVE (EM MAN SOM HETER OVE, SUÉCIA,
2015) – Ove (Rolf Lassgard) é um sujeito irascível, capaz de reclamar
da própria sombra. Não pequeno descuido ou desleixo alheios que ele seja capaz de
perdoar e que não o faça estrilar seja com quem for. Aos 59 anos, viúvo e desempregado,
ele decide que já se fartou de tanta incompetência – o melhor é se matar e ir ao
encontro da esposa, cuja túmulo ele visita todos os dias. Síndico do pequeno condomínio
onde mora, ele vê as pequenas necessidades de seus vizinhos interromperem seus rituais
suicidas: Ove não resiste a resolver um problema. É um tema clássico, mas conduzido
com leveza e sensibilidade pela direção imaginativa de Hannes Holm, que interlaça
“flashbacks” encantadores e esclarecedores do comportamento atual de Ove. É um belo
filme, transbordante de emoção e delicadezas. Klennex à mão, por favor.
SOB O DOMÍNIO DO MAL (THE MANCHURIAN CANDIDATE, USA, 2006) – Refilmagem do clássico de 1962, de John Frankenheimer, com Denzel Washington no papel que fora de Frank Sinatra. Assombrado por pesadelos recorrentes, o major Ben Marco (Denzel) passa seus dias exaltando publicamente as qualidades de Raymond Shaw (Liev Schreiber), um jovem congressista nova-iorquino que foi seu subalterno no Golfo. Shaw é candidato à vice-presidência dos Estados Unidos e dono de uma medalha de honra pelos feitos heroicos no oriente. No entanto, depois de um perturbador encontro com outro membro de seu pelotão, o major começa a duvidar da própria sanidade e acredita que alguma coisa aconteceu durante o conflito. Daí em diante, forma-se um contexto para se pôr em prática o assassinato do candidato à presidência dos EUA, o que levaria Shaw a encabeçar a chapa. Um dos mitos que giram em torno do filme de 1962 diz respeito a sua retirada dos cinemas e seu subsequente “desaparecimento” midiático após o assassinato de John F. Kennedy, em novembro de 1963. Muitos acreditam que o filme tenha de alguma forma inspirado o crime, e que Lee Harvey Oswald, suposto assassino de JFK, a exemplo do protagonista do filme de Frankenheimer, tenha sido “condicionado” ou passado por algum tipo de lavagem cerebral. A existência de uma relação entre o assassinato do presidente e os acontecimentos do filme provavelmente nunca será comprovada, mas a associação do longa-metragem à tragédia de 1963 faz com que a obra ganhe contornos ainda mais perturbadores e sombrios. O roteiro desta refilmagem ainda envolve uma abordagem niilista do Complexo de Édipo, ao colocar Shaw e sua mãe, uma senadora poderosíssima (Maryl Streep, longe de sua melhor atuação) numa relação feita de poder e desejo, embora não se aprofunde neste aspecto. É um ótimo thriller político que tenta jogar luzes sobre até aonde os governos podem ir para manter o poder. E, claro, Denzel Washington é obrigatório.
O FILHO DA NOIVA (EL HIJO DE LA NOVIA,
ARGENTINA, 2001) – Para manter uma tradição que começou ano
passado, quando, no primeiro dia do ano, assisti ao excelente TRUMAN, com Ricardo
Darín, inicio 2018 revisitando O FILHO DA NOIVA, de 2001, um belo melodrama
sobre o desalento que tomava conta da Argentina naquela época. E, em se falando
de tradição, não custa repetir: Ricardo Darín é obrigatório. Aqui, ele é
Rafael, um quarentão estressadíssimo que tenta manter funcionando o restaurante
herdado dos pais (estupendamente interpretados por Héctor Alterio e Norma
Aleandro, protagonistas, em 1984, do marcante A HISTÓRIA OFICIAL), enquanto
finge para si mesmo que tem uma vida. Não dá a atenção devida à filha e à
namorada e foge da mãe, internada com Alzheimer, para não ter que se confrontar
com os traumas que sua relação com ela produziu. Rafael também dorme pouco e
fuma muito, o que o torna candidatíssimo a um infarto. Quando este sobrevém, os
dias passados numa UTI o convencem de que algo tem que mudar. É a partir daí,
que o diretor Juan José Campanella vai construindo uma bela e emocionante
história em que os personagens podem ser interpretados como alegorias da
desilusão e do sofrimento do povo argentino, que tanto acreditavam que seu país
daria certo, finalmente. Darín, como sempre, está irretocável – é o patrimônio
maior da cultura dos portenhos. Destaque também para Eduardo Blanco e Natalia
Verbeke. Perceba a clara referência ao Zorro interpretado por Guy Williams,
enorme sucesso na Argentina. Atenção para uma das mais belas declarações de
amor do cinema, com Darín, feita através de um interfone.
STRANGER THINGS (USA, 2016) – Para quem atravessou os anos 70 e 80, ST é o paraíso dos “easter eggs”:
as referências aos panorama pop das duas décadas pululam em todas as cenas
desta série que, como todo bom trabalho de roteiro, começa meio morna, mas vai
tomando corpo à medida em que as histórias vão se entrelaçando e apontando para
outras vertentes. Os irmãos Matt e Ross Duffer conseguiram ir além de uma
recriação retrô, construindo uma história que vai fascinando não só pelas
referências do passado recente, mas também pelas possibilidade que se
vislumbram no futuro dos personagens que certamente já vimos em filmes de John Carpenter,
Spielberg, John Hughes ou nas adaptações de Stephen King. Estamos, portanto, num
mundo diferente do que se conhece hoje: sem celular ou internet, a vida parecia
mais simples, havia tempo para as crianças brincarem juntas no porão, a quase desnecessidade
de competir e se exibir dava espaço para o surgimento das amizades profundas da
infância o ritmo menos acelerado permitia uma contemplação que, hoje, seria percebida,
no mínimo, com preocupante estranhamento. O elemento sobrenatural que desponta na
história sublinha o impacto das recordações dos filmes de Spielberg e dá um excelente
pano de fundo para um elenco espectacular, a começar pela turma infantil, perfeitamente
integrada à trama. É neste grupo que se destaca Millie Bobby Brown, uma baita atriz,
pronta, intensa, cuja expressividade, isso sim, parece ser de outro mundo. Na parte
adulta, Winona Ryder é a atriz mais fraca. Ela leva um baile na cenas com o excelente
David Harbour, o xerife da cidadezinha que, meio indiferente a princípio, vai se
lançando como uma locomotiva desgovernada no sentido de desvendar os mistérios da
trama. Assistir aos oito episódios desta primeira temporada é como ver um filme
longo que, em nenhum momento, cansa ou nos faz perder o interesse. A coisa mais
estranha seria não cair de cabeça na segunda temporada.
FILHOS DO SILÊNCIO (CHILDREN
OF A LESSER GOD, USA 1986) – FILHOS
DO SILÊNCIO é uma belíssima história de amor que vai além das palavras: um
professor de surdos, James Leeds (William Hurt) se apaixona pela zeladora deficiente
auditiva, Sarah Norman (Marlee Matlin), da escola em que trabalha. Nesta história,
o sentimento é tão simples e o conflito tão plausível, que nos sentimos menos
vendo um filme, mas sim acompanhando dois amigos através de seu processo de
descoberta do amor. Toda cena é como uma fotografia capturando a essência de
cada momento do processo de aproximação entre James e Sarah. Ah, e há os olhos
de Marlee, impressionantemente expressivos, muito além de qualquer palavra. Em
certos momentos, é como se estivéssemos vendo uma pintura em movimento, como se
Vermeer ou Michelangelo estivessem a cargo da direção. O filme é uma poderosa
mensagem de amor incondicional, aceitação mútua e crescimento pessoal, em que a
diretora Randa Haines documenta, meticulosamente, os esforços necessários para
a realização de um verdadeiro relacionamento amoroso. Há cenas memoráveis. Numa
delas, Sarah, na borda da piscina, apenas observa James, quando ele vem
procurá-la – é inacreditável o que seus olhos dizem. Em outra cena linda,
James, que adora Bach, diz a Sarah que não consegue mais apreciar a música,
pelo fato de ela não poder. Numa sequência emocionante, depois de uma breve separação,
James mergulha na piscina, como se quisesse reencontrar Sarah no silencioso mundo
submerso e líquido. Também impressionante é a atuação de Hurt, praticamente
minimalista, permitindo que seus silêncios sejam tão eloquentes quanto o de
Sarah. Não é de se admirar que os dois atores tenham se aproximado romanticamente
durante as gravações. Está clara em cena a alta voltagem entre os dois. Marlee
recebeu justamente o Oscar por esta atuação. Infelizmente, ela nunca mais teve a
oportunidade de ter outros papéis à altura de seu imenso talento.
.A
TENTAÇÃO (THE LEDGE, USA, 2011) – Thriller mais
filosófico do que psicológico que lida com um tema pouco visitado pelo cinema:
o embate entre o fundamentalismo cristão e o ateísmo. O roteiro é simples, em
princípio: Shana (Liv Tyler) trai o marido Joe
(Patrick Wilson), um religioso fervoroso, com o ateu Gavin (Charlie Hunnam). Ao
descobrir o caso da mulher, o marido traído dá a Gavin uma escolha mórbida: ou
ele pula do alto de um prédio, ou Shana morre. A partir daí, o filme foge aos
clichês ao explorar nuanças da vida, da ética, da religião que não são facilmente
classificadas. De certa forma, o cena final pode dar a impressão de que houve uma
tendência para a desqualificação da posição ateísta, mas, no todo, o filme enseja
a discussão de vários aspectos no cotejo entre as duas posições antagônicas. Há
abordagem sobre a natureza da fé, o homossexualismo sob a ótica do cristianismo,
os laços conjugais utilitários, as relações de poder no ambiente de trabalho. É
um daqueles filmes que são mais complexos e interessantes do que parecem à primeira
vista.
OS
MACHÕES (BRASIL, 1972) – Apesar de ter Reginaldo Faria
como o galã protagonista, além de diretor, quem realmente se destaca nesta
pornochanchada meio atípica é mesmo Erasmo Carlos, cuja atuação ganhou o prêmio
da APCA, de Melhor Ator Coadjuvante. O terceiro elemento é Flávio Migliaccio,
também excelente com um personagem meio “clown” que ele mesmo, em sua carreira,
erigiu como sua “grife” pessoal. O roteiro é direto: os três amigos passam a vida armando esquemas para ganhar
dinheiro e conquistar mulheres facilmente, mas poucas vezes tem sucesso
nas empreitadas. Até que, um dia, pensam no plano perfeito: os três tornam-se
cabeleireiros gays para poderem se infiltrar com maior facilidade na intimidade
das mulheres. Narrativamente, o filme se equivoca ao apresentar
histórias paralelas com os três amigos, deixando um pouco de lado o que
realmente funciona: os três, juntos em cena. É desta forma que a história
alcança seus melhores momentos. Como era natural na época, o roteiro apresenta
situações homofóbicas e a total reificação da mulher diante de uma sociedade
predominantemente machista. Estes dois aspectos são cruciais para o
entendimento do panorama cultural da época. A canção-tema foi mais um dos tiros
certeiros de Roberto e Erasmo: “Mundo Cão” descreve com fidelidade o ambiente
da trama e a motivação de seus personagens principais. É mesmo curioso constatar
que Erasmo poderia facilmente ter seguido uma carreira de ator, por causa da sua
naturalidade ao entregar as falas e ao seu “timing” cênico. Se tivesse trabalhado
este talento bruto, ele certamente teria tido enorme sucesso no cinema nacional.
LOGAN
(LOGAN, USA, 2016) – A primeira impressão, logo no começo do filme, é
que Logan (Hugh Jackman) aderiu ao Uber para ganhar a vida, pois, sabemos, não
está fácil para ninguém. De fato, Logan está alquebrado, cabelo e barba cheios
de fios brancos, respiração ofegante. Em nada se parece com o Wolverine das
sete edições anteriores do personagem no cinema. É assim, entre a aceitação e a
relutância de aceitar a própria decrepitude, que Logan mergulha no longo e
doloroso processo de reencontrar o homem que há dentro dele. Neste caldeirão de
sofrimentos, ele ainda tem que cuidar do Professor Xavier (o grandíssimo
Patrick Stewart, numa atuação de cortar o coração de tão sofrida e dramática) e
de Laura, de 11 anos, cujos esqueleto e lâminas de Adamantium deixam Logan
confuso e perplexo com a perspectiva de descobrir uma paternidade que, ao mesmo
tempo, o repugna e o consome. O roteiro apresenta referências a dois filmes que
refletem a mesma temática. A primeira, OS BRUTOS TAMBÉM AMAM (1953), é mais
explícita; a segunda, OS IMPERDOÁVEIS (1992), de Clint Eastwood, é mais
implícita, porém igualmente impactante: é a história de um matador que sai da
aposentadoria tão angustiado quanto Wolverine diante de seu último trabalho. O filme
de Eastwood emula os desafios que Logan tem que enfrentar: os limites da velhice,
a desilusão com os próprios feitos e a sofrida constatação de que ainda há algo
importante, ainda que indefinido, por fazer e que todo mundo, mesmo os super-heróis,
envelhecem.
PAZ, AMOR E MUITO MAIS (PEACE, LOVE & MISUNDERSTANDING, USA, 2011) - O filme mostra a reinvenção de Diane (Catherine Keener), uma advogada conservadora na faixa dos 40 anos que é pega de surpresa pelo pedido de divórcio do marido. Ela decide retomar o contato com a mãe, Grace (Jane Fonda), que não vê há mais de 20 anos e leva os filhos adolescentes para passar um fim de semana na casa da avó, uma autêntica riponga tardia que ainda vive seguindo os preceitos de Woodstock. Entre um conflito de geração e outro, Diane acaba se interessando por um músico, Jude (Jeffrey Dean Morgan) que, esbanjando doçura e simpatia, nem de longe, aqui, nos faz lembrar do Negan, de THE WALKING DEAD. O filme é simpático, sem ousar abordar uma temática muito aprofundada, e mesmo com a estereotipagem dos personagens, permite uma hora e meia de divertimento e leveza. Jane Fonda, mesmo com algum excesso de botox, ainda é uma atração, principalmente para quem a viu em Barbarella.
CRIME
NA MADRUGADA (SLEEPLESS, USA 2017) – Feito com todos os
clichês possíveis dos filmes deste gênero, SLEEPLESS, ao contrário do título, é
um convite ao sono imediato. É lamentável ver um ator como Jamie Foxx metido
numa furada dessas. O roteiro é fraco, os diálogos são muito ruins, tudo é
previsível e sem graça. É o tipo de filme que a gente vai esperando pouco e
acaba recebendo ainda menos. Flébil tentativa de Hollywood de refilmar NUIT
BLANCHE (PURA ADRENALINA, França, 2011), que é muito melhor. Se Foxx continuar com escolhas tão
ruins, nunca vai ser um novo Denzel Washington.
A LUZ ENTRE OCEANOS (THE LIGHT BETWEEN THE
OCEANS, USA, 2016)–
Preparem os lenços! Logo após a Primeira Grande Guerra, Tom e Isabel, casados,
(Michael Fassbender e Alicia Vikander – que também são casados na vida real),
vão morar numa ilha minúscula, na qual ele é responsável pelo funcionamento do
farol. Ela perde dois bebês, até que, um dia, aparece um bote, com um homem já
morto e um bebê. Contra a vontade de Tom, Isabel decide que vão criá-lo, sem
notificar as autoridades. Anos depois, aparece a mãe verdadeira da criança, e o
drama se instala na vida de todos os personagens, todos com suas razões
irretocáveis em relação ao acontecido. A bela fotografia, juntamente com a boa
atuação dos protagonistas, ajuda a amenizar o peso do drama que se estende até
ali, quase no exagero da exploração das emoções humanas em relação à
maternidade. As questões morais e éticas são colocadas de maneira clara e
direta, oportunizando uma excelente oportunidade para uma reflexão sobre como e
quando se deve fazer a coisa certa. Ficamos, não raro, sem saber se o certo é o
melhor ou vive versa. É notável a atuação de Michael Fassbender, trazendo mais uma
das suas performances cheias de sutilezas, que quase eliminam a necessidade de diálogos,
assim como a de Alicia Vikander, que finalmente teve a oportunidade de mostrar alguma
musculatura dramática. O argumento lembra muitas das novelas de Manoel
Carlos.
ROGUE
ONE (USA, 2016) – A concepção inicial de Rogue
One - Uma História Star Wars nasceu a
partir de um detalhe presente no clássico STAR WARS, de 1977: logo no letreiros
iniciais, ficamos sabendo que os planos da Estrela da Morte tinham sido
roubados pela Rogue One, possibilitando que a Aliança Rebelde tivesse uma nova
esperança. Quem eram eles, nenhum dos filmes lançados respondeu E é isso que descobrimos
nesta viagem .Vendo pela segunda vez, agora com mais atenção,
percebo que ROGUE ONE ainda em um ritmo dissonante com a série principal: a
carga dramática, ainda mais acentuada nesta edição, tem momentos de certa
artificialidade que acabam comprometendo a história certinha demais, como se
não pudesse se afastar das referências que já conhecemos de A NEW HOPE. Os CGIs
que emulam de maneira muito insatisfatórias os personagens de Peter Cushing e de
Carrie Fisher quebram imediatamente o clima, já que a nossa atenção é logo desviada
para a checagem do resultado final na tela. O destaque é o sempre competente Mads
Mikkelsen, como Galen Erso, pai de Jyn Erso (Felicity Jones) e da Estrela da Morte,
cujos planos de construção serão roubados pelos rebeldes. A sensação que fica é
que o filme poderia ter sido mais impactante, em termos de roteiro. Por outro lado,
os efeitos são excepcionais e estonteantes em algumas cenas.
BELEZA
OCULTA (COLLATERAL BEAUTY, USA, 2016) – Estrelado
por Will Smith, que esteve na Comic Con em São Paulo, neste último final de
semana, BELEZA OCULTA é um drama feito para emocionar, mas por pouco não se
perde na armadilha da pieguice resultante da soma de assuntos emocionalmente
delicados: amor, tempo e morte. São para estas abstrações que Howard (Will
Smith, em boa atuação) escreve três cartas, nas quais questiona as razões para
o sofrimento que o mantém recluso e infenso a qualquer contato com o mundo: a
morte de sua filha de seis anos. É claro que qualquer filme que trate de cartas
me interessa sobremaneira, fui seguindo os passos do roteiro até o entrecho
final e me surpreendi com uma solução bem interessante, em que amor, tempo e
morte se conectam sensivelmente, unindo e resignificando as vidas dos
personagens, além de nos reservar uma supresa que tira o filme da rota da
lágrima fácil. Destaque, no elenco, para Keira Knightley e Michael Peña. E,
claro, para Nova Iorque enfeitada para o Natal, que é sempre uma forma de
voltar ao passado. O filme toca todas aquelas sensibilidades que ficam mais à flor
da pele: solidão, rejeição, culpa, amor, cumplicidade, desejo de proteger, entre
outras.
LIGA DA JUSTIÇA
(JUSTICE LEAGUE, USA, 2017) –
Mais uma vez, vou contra a maré. Assim como aconteceu em MULHER-MARAVILHA, que
achei um filme chocho, pretensioso e sem alma, LIGA DA JUSTIÇA também não
retiniu com meu metal. Tudo – ou quase tudo - joga contra: Ben Affleck, como
Batman, é o que se sabe, a Mulher-Maravilha repete a presença desenxabida do
filme solo e, a partir daí, as coisas começam a se agudizar. Um Aquaman heavy-metal
cético, um The Flash medroso, um Super-Homem com ares de Jesus Cristo
ressusscitado, um Ciborgue claudicante nas suas intenções e um vilão
estereotipado todo em CGI são a pá de cal na proposta de Joss Whedon, catapultado
para a função de diretor por causa da saída
prematura de Zach Snyder, cuja filha cometeu suicídio durante as filmagens. Muito
se fala do equilíbrio deste filme em relação aos outros da DC, mas isso não se constitui
em grande vantagem, já que MULHER-MARAVILHA, BATMAN vs SUPERMAN são, no mínimo,
sofríveis.
THE
LAND UNKNOWN (USA, 1957) – Este clássico da ficção
científica ficou esquecido injustamente no extenso rol de produções similares
que pulularam na década de 50. Uma expedição composta de três homens e uma
mulher cai em uma cratera na Antártica, depois que o helicóptero em que
viajavam tem uma pane. Lá, encontram um mundo pré-histórico selvagem e hostil, habitado
por plantas carnívoras gigantes e dinossauros. Com os cortes no orçamento, o filme
passou a ser uma daquelas produções B, em preto e branco e cenários mais acanhados.
Mas, mesmo assim, o filme acaba funcionando. Os efeitos especiais são bastante decentes,
e o roteiro não perde tempo com elementos não essenciais. Há, de fato, uma atmosfera
sedutora nesta aventura, especialmente para quem gosta de filmes sobre mundos perdidos,
como é o meu caso. THE LAND UNKNOWN, em muitos aspectos, é muito mais agradável
de ver do que algumas produções recentes de Hollywood, na quais os CGIs, de tão
mal feitos, comprometem a apreciação e o mergulho no “suspension of disbelief”.
ASSASSINO
A PREÇO FIXO 2 – A RESSURREIÇÃO (MECHANIC: RESURRECTION, USA 2016)
– Se o primeiro filme já não era lá essas coisas, este aqui é o fim da linha de
uma franquia que não se sustentava por vários motivos. Um deles é a total fata
de originalidade do roteiro:
assassino-aposentado-vivendo-longe-da-civilização-é-convocado-para-um-último-trabalho-e-se-apaixona-pela-mocinha.
Jason Statham sempre contou com minha simpatia. Em seus filmes ele não quer ir
além do seu papel unidimensional, sem pretensões dramáticas. Mas, aqui, ele está
bem abaixo do seu normal, que já é medíocre. Jessica Alba, a mocinha, de fato, não
sabe atuar. É surpreendente ver Tommy Lee Jones num filme como este, pois a história
e seu personagem não estão à altura de seu talento. Para piorar, os CGIs são ruins
de chorar. As locações exóticas – a começar pelo bondinho do Pão do Açúcar – em
nada contribuem para este desperdício de tempo e dinheiro. Além disso, o apêndice
do título – A RESSURREIÇÃO – é a prova de que não se poderia mesmo esperar muito
desta produção canhestra, cujo binarismo moral insulta a inteligência do espectador
mais atento.
SHOULDER’S
ARMS (USA, 1918) – Mais um obra-prima de Chaplin. Na primeira
Grande Guerra. Aqui, ele é um soldado na trincheira que sonha em ser um herói.
Há cenas marcantes: Chaplin disfarçado de árvore é uma delas; outra é quando,
no fim do filme, aparece caracterizado de oficial alemão, exatamente como
Hitler o faria, dez anos depois. Só um artista excepcional como ele poderia
fazer humor com os horrores da Primeira Guerra, com um estupendo trabalho de
câmera e com sequências criativas e inesperadas. Pode ter sido considerado uma
propaganda para os EUA, mas o tempo se encarregou de mostrar que, antes de
tudo, é mesmo mais um trabalho magistral de um gênio do cinema, que deve ter
sua obra sempre revista. Chaplin sofreu muitas críticas na
época por parte dos intelectuais britânicos que afirmavam que o diretor havia
fugido do conflito, por não ter se alistado como voluntário a favor do seu
país, a Inglaterra. O filme, em certa medida, é uma resposta indireta e bem
criativa a este grupo.
VIRANDO
A PÁGINA (THE REWRITE, USA 2015) – Hugh Grant tem um talento
único: faz a si mesmo com perfeição. Em três filmes, o argumento é o mesmo: seu
personagem é sempre alguém que fez um grande sucesso e, de repente, se vê
diante de um recomeço. Foi assim em ABOUT A BOY, LETRA E MÚSICA e, agora, neste
VIRANDO A PÁGINA, ótimo título em português para uma história sobre um roteirista de um grande
sucesso em Hollywood e que vai dar aulas de redação em uma universidade. O fato
é que Grant, nestes três filmes, consegue repetir os mesmos trejeitos, sem ser
cansativo, e mantém uma curiosa e rara conivência com o espectador, seduzindo-o
com um olhar melancólico e uma atitude irônica que nos parece agradável e
permanentemente familiar. Embora o filme prometa uma comédia leve, VIRANDO A
PÁGINA traz elementos reflexivos bem profundos, misturados em cenas
aparentemente apenas engraçadas. Grant achou seu caminho dramático ao encarar,
sem medo, os limites da idade. Sem reinventar a roda, o filme lança luzes sobre
os aspectos fugazes da fama, o valor das relações verdadeiras que florescem sem
a selvagem competitividade do mundo pós-moderno, além de ter um novo olhar para
o ambiente de uma sala de aula numa daquelas encantadoras universidades
americanas.
O SINAL (LA SEÑAL, Argentina, 2007)– Apesar das críticas negativas, esta estreia de Ricardo
Darín na direção é bem razoável. Neste “noir” portenho, ele é um detetive particular
que divide o escritório com seu sócio (Diego Peretti), sempre às voltas com casos
pequenos, mais enfadonhos do que estimulantes. Até que o pedido da mulher-fatal
da receita do “noir” (Julieta Diaz, do ótimo O AMOR NÃO TEM TAMANHO), para que ele
investigue uma pessoa, o faz redescobrir novos horizontes em sua vida. A fotografia
esmaecida é caprichada. A história, contudo, vai perdendo um pouco de força, à medida
que se encaminha para o desfecho. Há um aspecto trágico real no filme: o diretor
inicial, Eduardo Mignogna, morreu antes de começar o filme – Darín, então, resolveu
dirigi-lo. De qualquer forma, convém lembrar de que Ricardo Darín é obrigatório
em qualquer circunstância. Por isso, vale a pena conferir.
O EXORCISTA –
VERSÃO DO DIRETOR (THE EXORCIST, THE DIRECTOR’S CUT, USA 1973)
– Marco na história do cinema, o filme do diretor William Friedkin possui um
caráter arquetípico que ainda impressiona e tem servido de inspiração para
diversas produções do gênero. Entre inúmeras abordagens interpretativas da
história, ficaram a importância do estudo sobre a perda e a recuperação da fé,
os reflexos da teoria junguiana sobre narrativas recorrentes em várias partes
do mundo, a dicotomia entre a religião e ciência e discussões sobre o suposto
simbolismo sexual de algumas sequências. Ainda é um filme que impressiona pela
temática e pela ousadia de algumas cenas que representaram uma ruptura no
cenário cinematográfico “certinho” e bem-comportado da época do seu lançamento.
O Brasil está presente: Eumir Deodato processou a produção por ter tido uma
música sua utilizada no filme, sem autorização.
SEM RETORNO (SELF/LESS, USA 2015) – Apesar do bom título em inglês (que tem tudo a ver
com a história), o filme com Ryan Reynolds e Ben Kingsley se perde num roteiro
fraco e previsível: Damian (Kingsley), um milionário com uma doença terminal,
se submete a um procedimento que transfere sua mente para um corpo jovem e
saudável. Depois da transmissão, o jovem Damian (Reynolds) começa a ter visões
da vida real do corpo que agora habita e vai atrás da verdade. A ideia da
transmutação de corpos não é nada original no cinema e já foi explorada
exaustivamente. Aqui, é mais do mesmo. As questões éticas que a história poderia
suscitar não são exploradas (e deviam?), e as atuações não vão além de uma normalidade
sem brilho. Reynolds continuava tentando acertar num bom papel – conseguiu, no ano
seguinte, com DEADPOOL – e se esforça para emular as reações que o personagem de
Kingsley teria tido.
ALIENS, A RESSURREIÇÃO (ALIEN, RESURRECTION, USA 1997) – Revivida através de uma clonagem, Ripley se vê diante de uma
nova ameaça alienígena: junto com um grupo de piratas espaciais, ela tenta
impedir que as criaturas cheguem à Terra, 200 anos depois dos eventos
de ALIEN 3. Apesar de algumas barras forçadas no roteiro – afinal, clonar
Ripley é mais uma jogada de marketing do que qualquer outra coisa – o filme vai
funcionando aqui e ali, numa tentativa de resgatar o clima do primeiro.
Sigourney Weaver pôde, enfim, ter a chance de demonstrar suas capacidades
dramáticas, principalmente na cena em que se vê diante de clones seus que não
deram certo. O ótimo Ron Pearlman tem alguns dos melhores diálogos do filme, num
contraponto menos sério para a tensão da história. De qualquer forma, a quadrilogia
se encerra de forma mais melancólica do que se esperava e fecha o arco dramático
que se iniciou com o excelente, e até hoje insuperável, ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO,
de Ridley Scott. Ah, e Winona Ryder não rouba nenhuma cena.
O
HOSPEDEIRO (THE HOST, Coreia do Sul, 2006) – O diretor sul-coreano Joon-Ho Bong é um artesão
de imagens que, como quase todos os outros de sua geração, ele instila em seus filmes
um sentimento de profunda traição por ter seu país divido. É este o simbolismo de
O HOSPEDEIRO: uma criatura gigantesca, a meio caminho entre um bagre e um dinossauro,
emerge das águas do rio Han, que corta a capital Seul, e vai para cima da multidão.
O monstro, de certa forma, representa uma realidade que existia na época de lançamento
do filme e que persiste ainda hoje, quando assistimos, aterrados, as demonstrações
de desrespeito aos direitos civis de Kim Jong-um, chefe maluquinho da parte de cima
do território: famílias dilaceradas, autoridades corruptas e a impossibilidade de
proteger os inocentes dos horrores que sempre estão a assombrar a sociedade. O filme
já era a confirmação de que o cinema sul-coreano é um dos mais surpreendentes e
estimulantes do mundo.
ALIEN 3 (ALIEN 3, USA 1992) –
Ripley não tem mesmo sorte. A nave em que viajava inconsciente, cai numa
colônia penal e, com ela, claro, veio um dos bichanos alienígenas do filme
anterior. Logo, logo, ele acaba tocando um terror no complexo, e Ripley tem que
tomar a frente para combater a ameaça. Esta terceira edição, como já
acontecera na anterior, põe o legado da produção original de Ridley Scott
ladeira abaixo. Quase nada se salva – Ripley tem o cabelo raspado e acaba
desenvolvendo uma relação, digamos, mais íntima, com o alienígena. Tudo se
perde num roteiro meio amalucado, que em nada acrescenta à premissa original. A
classe e o estilo do filme seminal desapareceram com a suposta combustão do alien
dentro dos retrofoguetes da nave que Ripley usou para fugir. A coisa toda começa
a desandar desde os créditos do início, até a frustrante sequência final, meio "deus ex-machina".
DOUTOR ESTRANHO (DOCTOR STRANGE, USA 2016)– Benedict Cumberbatch é desses atores raros a quem
devemos assistir obrigatoriamente em qualquer filme em que atue. Não bastasse
ter arrasado em SHERLOCK, O JOGO DA IMITAÇÃO e como Khan, em STAR TREK: INTO
DARKNESS, ele agora está mais que perfeito como um super-herói meio improvável,
mas encantador em suas limitações e contradições. Se, antes da transformação,
ele é um neurocirurgião obcecado pelo tempo – tem, inclusive, uma coleção de
relógios caríssimos (afinal, tempo é dinheiro) -, depois que ela acontece, e
ele se vê possuidor de poderes que, ao mesmo tempo, encantam e fascinam, mas
também o deixam um pouco atordoado. É compreensível: afinal de contas, nada
pode nos ferir tanto quanto nossos desejos realizados. Sim, ele pode, enfim,
dominar o tempo, controlá-lo de acordo com sua vontade. Embora haja alguns bons
momentos, o roteiro não me pareceu lá muito inspirador, mesmo com algumas
“boutages” que emprestam graça à história. Tudo muito dentro da fórmula consabida
do herói que inesperadamente se vê com poderes, fica diante de um conflito
maior que ele mesmo, recua e volta no fim para triunfar. Nada contra este tipo
de esquema, não fosse o fato de ser muito repetitivo e, assim, previsível. Por
outro lado, o impacto visual contribui para que a história evolua de modo
agradável – e estou falando tanto sobre os ótimos CGIs quanto o abalo estético
que a presença de Rachel McAdams sempre causa nos filmes em que atua.
A VISITA (THE VISIT, USA 2015)– M. Night Shyamalan, nascido na Índia e crescido
na Pensilvânia, acertou logo no seu terceiro longa: O SEXTO SENTIDO foi um
sucesso enorme e inesperado. A partir daí, talvez por excesso de cobrança ou
mesmo pela dificuldade de se superar, parece que quase nada deu certo na sua
carreira. A VISITA é mais uma dessas tentativas. É possível que, se fosse
lançado no início de sua vida profissional no cinema, o filme de Shyamalan
pudesse alcançar críticas mais positivas. Num estilo semidocumental – a
protagonista, junto com o irmão adolescente registra, em vídeo, uma semana na casa
dos avós que, até então, eles não haviam conhecido – o filme falha no suspense e
na proposta original, duas características sempre esperadas do diretor. Perda total
de tempo. Não visite. Não vá. Fique em casa.
ALIENS, O RESGATE (ALIENS, USA 1986) – Ripley (Sigourney Weaver), em estado de suspensão de
sentidos, é resgatada por uma outra nave terrestre, 57 anos depois dos
acontecimentos do primeiro filme. O planeta misterioso, onde a nave que
continha os casulos havia sido encontrada por sua equipe, agora é uma colônia
da mesma empresa para qual ela trabalha. Mas algo aconteceu, há o risco de
outras criaturas estarem à solta, e ela é chamada para acompanhar um grupo de
fuzileiros ( ! ) e dar uma espécie de consultoria, já que esteve cara a cara
com aquela forma de vida. Apesar de ser uma continuação decente, o filme está
bem abaixo do primeiro, especialmente nas atuações, todas meio artificiais, meio
preguiçosas, do elenco: Michael Biehn (o Kyle Reese, de O EXTERMINADOR DO
FUTURO) poderia ter tido um protagonismo mais marcante, mas deixou a
oportunidade passar; Bill Paxton exagera na dose, ao fazer um soldado folgadão;
Paul Reiser parece ter saído diretamente dos estúdios onde gravava MAD ABOUT
YOU e Lance Henriksen não consegue fazer um androide à altura daquele que Ian
Holm personificou no primeiro filme. James Cameron bem que tentou, mas o mestre
Ridley Scott realizara, seis anos antes, a obra definitiva em termos de
encontro com alguma forma alienígena (talvez, só Spielberg, com E.T., tenha
chegado ao mesmo patamar, mas com outra abordagem).